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Crítica

Crítica: Invisível

Não é de hoje que temos a problematização do aborto como tabu. O tema, vez ou outra, é motivo de exacerbações éticas, políticas e religiosas. No senado brasileiro, por exemplo, está em discussão sobre sua legalização. E a disputa está acirrada, já que entram nessa peleja não só a ética político-cristã, bem como a questão da vida como um todo. Afinal, quem decide quem nasce e quem morre? E a mulher?  “Seu corpo suas regras? ”

E é com essa temática que no próximo dia 09 de novembro estreia o drama argentino Invisível (Invesible no original). Um filme que mostra o quanto o cinema portenho está crescendo, não somente em termos técnicos, como também em temas que abrangem discussões pertinentes a nossa sociedade como um todo.

Ely (Mora Arenillas), é uma jovem de 17 anos que está prestes a se formar na escola. Ela vive com a mãe, uma mulher que se recusa a sair de casa por causa de uma depressão profunda. Elas moram no bairro de La Boca em um apartamento bem simples que vive quase o tempo todo às escuras. Além disso, Ely também trabalha em um pet-shop, onde mantem um caso secreto com seu patrão, que é casado e tem uma filha.

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Podíamos aqui falar que eles viviam um tórrido romance, e até poderíamos cair no clichê sobre ele largar tudo para viver com a jovem. Mas desde a primeira cena, o filme já mostra que esse tipo de assunto não será abordado, e leva a trama, do começo ao fim no auge da sua tensão.

O fato e que Ely descobre que está grávida e não faz a menor ideia do que fazer com essa nova informação. Entre maneiras sutis – se é que poderíamos dizer isso – somos levados a momentos de decisões importantes na vida da jovem. Afinal, o aborto pode ser mesmo uma solução?

Invisível, apesar de toda tensão, é de uma narrativa lenta. Há poucas falas num contexto geral. O que nos faz ser transportados mais para uma tensão psicológica, do que necessariamente para artimanhas que são armadas por esse ou aquele diálogo. Outrossim, é que nesse caso, as faltas de conversas completas acabam por se “diálogos” entre filme e expectador.

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A direção de Pablo Giorgelli, apesar do pouco orçamento investido no longa, foi sutil ao tratar de um assunto tão polêmico. E por isso acertou em pontos cruciais para não dar margem a aparente falta de cenários. Afinal, nesse quesito temos uma Ely que passa boa parte do tempo em trajetos dentro de ônibus, ou no pet shop. Além da escola, o sofá de casa e o banco de trás do carro do seu patrão.

O filme quebra a expectativa, talvez, em uma única cena, quando, a moça vai a uma boate e conhece um rapaz. Mas não vai muito além disso. E temos, mais uma vez diálogos que são deixados no ar e na cabeça de quem assiste. Ademais, é importante salientar que essa cena é responsável por nos mostrar uma moça cheia de atitudes, o que nos foi vetado ao largo da narrativa. E também é marcada pela única trilha sonora de todo o longa, até porque, se não houvesse música em uma boate, estaríamos, talvez, diante de uma total esquizofrenia artística do diretor.

A personagem construída pela atriz Mora Arenillas traz consigo todo peso do mundo nas costas. A ausência de falas é substituída pelo franzir dos lábios ou da testa. Ou pelo olhar sempre distante e pela respiração pesada, de como se tudo estivesse sempre muito pesado para ela carregar. Não há um único sorriso ao longo de uma hora e meia de filme. Arenillas fez a vez de uma pessoa factível. Sem trejeitos exagerados ou excessos.

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O figurino corrobora com a fotografia. Tudo em tons de cinza e azul. As viagens no ônibus são feitas em dias nublados e frios. Assim houve abusos de cores frias. Ela não usa maquiagem e seu cabelo está o tempo todo preso em um rabo de cavalo que denuncia os cansaços da menina. Isso é evidenciado no acordar onde ele está bem feito e depois ao final do dia, como se todo cabelo preso resolvesse, de uma vez, escapar de sua cabeça.

A melancolia beira sua tristeza febril de não saber que lugar ocupa no mundo. E vemos isso em todos os momentos. Que ora abusam do primeiro plano, ora usam o plano de fundo como se o expectador estivesse ali com ela o tempo todo. Como um voyeur macabro espreitado a decisão mais difícil da vida de uma pessoa.

Definitivamente, invisível é um filme para se pensar fora da caixinha. E que vale a pena ser assistido de maneira sincera aos que estão abertos, de verdade, ao diálogo que desmistificam tabus.

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Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa. Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga. Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida. Ah! É uma nefelibata sem cura.

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