14 de dezembro de 2019

A passagem da infância para a adolescência costuma ser marcada por confusões, novidades, medos, anseios e amores. Quem não passou por essa fase vivendo a dualidade infância/juventude e se sentindo completamente perdido(a), pode não ter curtido a experiência em sua totalidade. É a eterna ânsia de querer viver a vida tal qual os adultos, somada à falta de idade e/ou maturidade para isso.

Em John From, obra de João Nicolau, conhecemos Rita (Julia Padilha), uma garota de 15 anos que, em plenas férias de verão, precisa ocupar o tempo livre que possui. Para isso, ela adota como tarefa a mania de tomar sol na varanda de casa, a de andar pelas redondezas do bairro, tocar piano na galeria de exposições perto de casa e ir em algumas festinhas. Como companheira, ela conta com Sara (Clara Riedl-Riedenstein), sua melhor amiga e outra adolescente que está passando pelo mesmo momento.

A vida pacata e monótona de Rita começa a ganhar graça ao passo que ela conhece o mais novo morador de seu prédio: Filipe (Filipe Vargas), um pai solteiro, fotógrafo, que vive em um apartamento bem próximo ao dela. Da varanda em que adora tomar sol, Rita tem total visão do lar de seu novo vizinho. E é aí que a garota se descobre apaixonada pelo homem.

Esse acontecimento é crucial para dividir John From em dois momentos. A primeira parte do filme, que mostra a vida tediosa da adolescente, é composta por cenas também paradas e sem vida. O silêncio é característica marcante e muitos diálogos se mostram indiferentes. Nem mesmo o colorido do lugar em que Rita vive – que talvez seja a maneira que o diretor encontrou de mostrar a vivacidade da juventude, apesar do marasmo existente – consegue melhorar o ambiente.

A vida da garota passa a se mostrar mais interessante quando ela visita uma exposição de arte inspirada na cultura da Melanesia e descobre que o autor das obras é justamente seu novo vizinho e amor. O enredo do filme, que até então se aproximava de um documentário, passa a ter um ar mais surrealista. É como se começássemos a acompanhar o desenrolar da estória pela perspectiva fantasiosa, apaixonada e ilusória do amor que a adolescente de 15 anos nutre pelo homem mais velho. Afinal, é a primeira paixão de Rita, platônica, sem grandes expectativas de dar certo, mas que pela visão da garota, se torna uma verdadeira magia.

E quanto mais os acontecimentos se desenrolam, mais fantasioso o enredo se apresenta. Rita mergulha tão completamente no universo de seu novo amor que se interessa inclusive pelos hábitos da Melanesia. O nome dado a obra, John From, é ligada a uma lenda oriunda da região. Com o passar do filme, a cultura dessa localidade da Oceania se mistura à cultura vivida por Rita, e isso pode ser observado nas mudanças ocorridas no cenário, na maneira que a família de Rita lida com o amor da garota pelo homem mais velho, nos costumes inéditos que se apresentam, numa ave rara que aparece na rua.

Se o filme em sua totalidade pode trazer um sentimento de confusão e talvez até certa decepção, o mesmo não se pode dizer dos atores principais. Julia Padilha, que dá vida a Rita, consegue transmitir de maneira surpreendente tanto os closes blasé da primeira fase da personagem, quanto a curiosidade e as mudanças que a garota passa a viver depois. Filipe Vargas e Clara Riedl-Riedenstein, que interpretam Filipe e Sara, respectivamente, também merecem elogios por suas atuações. Os outros atores, que não possuem grande importância no enredo, não têm muito a acrescentar.

Por fim, para assistir a obra de João Nicolau, é preciso estar ciente de que serão dois estágios: um mais monótono, sem muitos acontecimentos e novidades, o que exige certa paciência; e outro que te leva a se fantasiar no surrealismo junto da personagem. É uma boa tarefa para explorar os sentidos e o inconsciente e se permitir levar pela vivência de uma garota de 15 anos que está prestes a descobrir o mundo (e o amor) lá fora.


Por Michele Matos

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