Crítica: John Wick – Um novo dia para matar

Como sair da “BlackList” e se tornar cult

Depois de figurar mais de um ano na “Black list” (Lista negra) de filmes não produzidos por Hollywood, por falta de interesse dos executivos dos estúdios, “John Wick” (“De volta ao jogo” – no Brasil) ganhou a luz do dia em 2014 trazendo a história de um temido assassino de aluguel que decidiu se aposentar para viver com a mulher por qual se apaixonou. Após a morte da mesma ele passa a viver recluso ao lado do cachorro que ganhou de presente, até o dia em que sua paz é ameaçada pelo filho do chefe da mafia russa que o espanca, mata o seu companheiro e rouba seu carro. A situação leva o anti-herói despertar o seu lado mais violento, que o tornou conhecido como “Bogeyman” (Bicho-Papão), fazendo-o voltar a ativa em busca de vingança. O projeto surgiu sem muito alarde, mas foi ovacionado pelo público e crítica especializada, por conter uma narrativa bem construída, situada em um ambiente repleto de ação, abarrotado de referências a culturas orientais e aos famosos faroestes italianos, conhecidos também como “Western Spaghetti” ou “Bang Bang à italiana”.

Com o sucesso do primeiro filme não seria difícil sair o sinal verde para uma continuação, entretanto, o grande problema seria mesmo em relação a capacidade dos envolvidos em manter a qualidade e o fantástico trabalho realizado no original. Enfim, três anos depois, o segundo filme aporta aos cinemas de forma ainda mais impactante, e não só supera o seu precursor em todos os aspectos como fornece ao espectador uma impressionante experiência sensorial, capaz de nos conectar com o universo vivido pela personagem.

Dessa vez, “John Wick – Um novo dia para matar” chega aos cinemas brasileiros reconhecido, com a possibilidade de se tornar uma das grandes bilheterias desse início de ano. Criando uma alusão a um dos filmes de Buster Keaton, projetado na parede do prédio, o enredo continua a partir do fim do primeiro filme e coloca, literalmente, o pé no acelerador em uma das sequências de perseguição mais interessantes do cinema. Afim de recuperar o seu carro, John não mede esforços e vai bater na porta de um poderoso mafioso russo que mantinha o veículo em uma garagem que servia de fachada. A partir dali, tentando voltar à aposentadoria, seu serviço é reclamado para saldar uma dívida de sangue que portava com outra máfia, dessa vez a italiana. Em meio a conflituosa situação, que envolve uma antiga organização de assassinos, Wick decide pagar sua dívida mas não imaginava que essa escolha poderia ser o pior caminho a ser traçado.

David Leitch (um dos diretores do primeiro filme), Bo Shen (“La La Land” e “Impacto Profundo”), Holly S. Rymon (“Ted” e “John Wick”) e Erica Lee (“Sicário”), são alguns dos nomes que compõe a espantosa produção que deixa o estilo simples de lado para entrar de vez no território de grandes projetos, com direito a locações internacionais e tudo mais. Simetricamente bem executado, o filme nos proporciona um entretenimento de primeira linha, com efeitos de tirar o fôlego e coreografias de lutas extremamente bem elaboradas, capazes de deixar boquiaberta qualquer produção especializada no gênero.

O empolgante roteiro de Derek Kolstad, responsável pelo primeiro “John Wick”, consegue nos surpreender com uma trama mais envolvente que o antecessor. Mesmo ampliando um pouco os diálogos e abraçando mais personagens, o filme se mantém com sua narrativa ritmada, estruturada através de diferentes ações que representam com inteligência uma espécie de balé sanguinário. Em relação aos papéis inseridos na história, o roteirista nos entrega coadjuvantes a altura do principal, cativantes e muito bem desenvolvidos a ponto de nos conquistar no decorrer da obra.

Chad Stahelski volta sozinho a cadeira da direção e, talvez, essa tenha sido uma das melhores decisões dessa continuação. Com um trabalho visionário, inspirado em grandes produções ocidentais e orientais, muito bem acabado em conceitos estéticos, o diretor realiza uma verdadeira “ópera rock” nas telonas. Sua câmera torna-se praticamente um personagem extra, através de subjetivas que nos coloca diretamente na cena e ângulos que chegam a deslocar a compreensão de qualquer um ao acompanhar as cenas de ação de forma contínua, sem apelar para o corte seco. Não obstante, o melhor de tudo é que ele consegue fazer isso sem esquecer do eixo de câmera que continua, incrivelmente, intacto pelas duas horas de projeção.

A fotografia de Dan Laustsen, responsável “Terror em Silent Hill”, dialoga com as características emocionais da personagem, revelando um aspecto mais sombrio quando ele está realizando sua chacina e um tom mais clean, com cores quentes, quando decide se aposentar ou nos momentos em que lembra da sua esposa. Contudo, a direção de arte de Saverio Sammali (“Missão Impossível 3”) e Chris Shriver (“O Lobo de Wall Street”) funciona perfeitamente como um contraponto estético, ao conceber um cenário despoluído, quase que imaculado, sinalizado por pontos fixos de neon (ou radicalmente iluminados) que embelezam ainda mais as cenas. O figurino de Luca Mosca (“John Wick”) segue o mesmo caminho, optando pela elegância do preto intercalada por cores quentes e tons em cinza e pastel.

A trilha sonora de Tyler Bates (“Guardiões da Galáxia”) e Joel J. Richard (“Identidade Bourne”) funciona como a cereja do bolo e completa a magnitude da obra. Criada ao melhor estilo de rock sinfônico, o som psicodélico salta a tela levando-nos a embarcar em toda aquela viagem do enredo.

Keanu Reeves encabeça o elenco com uma atuação magistral, fazendo-nos crer que o papel foi todo desenvolvido para o seu estilo de trabalho. É certo que o ator não é um profissional completo, mas sua dedicação é imensa e seu trabalho laboratorial para construção de suas personas é bastante consistente e visceral. Nesse caso, é nítido um desenvolvimento a partir da biomecânica de Meyerhold, na qual vemos uma interpretação marcada, quase sem expressões, perfeita para John Wick. Além dele, temos a presença sensacional de Laurence Fishburne marcando um reencontro nostálgico do dois desde “Matrix”. Embora o ator apareça em uma pequena cena, a mesma se torna inesquecível devido as referências usadas. Ruby Rose (presente em tudo ultimamente – “Resident Evil 6”, “XXX-Reativado”) nos entrega um jogo simples, porém impressionante e divertido, ao fazer a vilã Ares. Riccardo Scamarcio, Ian McShane, Claudia Gerini e Lance Reddick, são outros nomes que completam o elenco com sensatez. 

Criado por dois dublês de cinema que se tornaram diretores (Chad Stahelski e David Leitch), o personagem de “John Wick” pode até ter nascido esquecido pelos grandes estúdios, mas está conseguindo chegar a um patamar alcançado por poucos. Com o lançamento de “John Wick – Um novo dia para matar” status de Cult se torna cada vez mais próximo e merecido, uma vez que o filme consegue trazer cenas memoráveis e que, sem dúvida alguma, entrarão para o hall de grandes momentos do cinema, como o tiroteio silencioso no meio da estação de metrô.

O filme estreou quinta e você não pode deixar de assisti-lo no cinema. Como eu disse no início dessa crítica, trata-se de uma experiência sensorial.

Crítica: John Wick - Um novo dia para matar
8.5Pontuação geral
Produção9
Roteiro8
Direção8.5
Fotografia9
Elenco9
Edição9
Direção de Arte8.8
Figurino8.8
Votação do leitor 3 Votos
9.2