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CríticaFilmes

Crítica: Julieta

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Convidado Especial
7 de outubro de 2016 3 Mins Read

361748

Alguns filmes parecem vir para ficar, especialmente aqueles de diretores considerados os maiores de sua época. Todo mundo tem um filme preferido de diretores geniais como Woody Allen, Tarantino e Almodóvar: eles são criadores emblemáticos, possuem um estilo muito característico e reconhecível, mesmo que assistamos a apenas 20 segundos de suas produções.

No caso específico de Almodóvar, obras icônicas como Kika, Fale com ela, Tudo sobre minha mãe e, mais recentemente, A pele que habito são algumas que permanecem na memória, já que é impossível assisti-las sem regurgitar, remoer e sentir até certo asco que demora a ser dissipado. Com Julieta, sua obra mais recente, é bem diferente.

Como a maioria das produções de Almodóvar, a história gira em torno da força e empoderamento femininos. Em Julieta, o papel da protagonista é vivido por Adriana Ugarte – a Julieta jovem, e Emma Suarez, a personagem em sua fase mais madura.

Resumidamente e sem spoilers, a história é contada por Julieta, mãe que tentava superar o distanciamento e a necessidade da presença de uma filha que a abandonou há 12 anos. O reencontro com Beatriz, melhor amiga de sua filha, Antía, faz com que ela reviva toda a torrente de emoções do passado e comece a contar em uma carta tudo o que se sucedeu desde o dia em que conheceu Xoan, o pai de Antía, até o momento atual. Desta forma, Julieta é um longa sobre o poder da culpa, do destino e de como tragédias familiares, ressentimento e até mesmo o silêncio podem prejudicar relações que parecem inabaláveis, como a de mãe e filha. Por esse motivo, o filme nem de longe lembra a ironia ou humor ácido do diretor de Mulheres à beira de um ataque de nervos ou Volver. Julieta é introspectivo, triste.

O roteiro do filme não é original, já que Almodóvar adaptou contos presentes no livro Fugitiva, da escritora canadense Alice Munro. Muito bem filmado e belíssimo visualmente – a produção é tipicamente almodovariana com relação às cores, o vermelho vivo, verde bandeira e azul cobalto permeiam toda a produção – Almodóvar usa artifícios sutis e extremamente belos para se comunicar com o espectador.julieta_07-0-2000-0-1125-cropJulieta é um filme silencioso e, como tal, há sempre de se prestar atenção aos cenários e quadros que compõem o ambiente, já que as cores dialogam e entregam emoções dos personagens. Um belo exemplo disso é a cena que contém um diálogo forte entre Julieta e Antía, na qual o quadro pintado de negro serve de suporte visual à densidade emocional das personagens. Outro exemplo é do momento em que Julieta está embalando seus livros e pertences para se mudar com seu novo amor e construir uma vida em Portugal: atrás dela, está o autorretrato de Lucian Freud (artista conhecido por seu realismo cru, sem idealizações).

Mesmo com tanta beleza e cuidado com os detalhes, Julieta não é um daqueles filmes que permanecem na memória por muito tempo. A expectativa de que algo acontecerá na cena seguinte ou da reviravolta na vida das personagens é frustrada em todo o longa, deixando-o bastante lento para os amantes do cinema de Almodóvar, acostumados a diálogos mais acelerados, personagens mais apaixonados, cômicos ou viscerais. O toque de humor (bem leve, diga-se de passagem) fica por conta de Rossi de Palma, parceira de Almodóvar de longa data, que aparece como uma empregada ligeiramente invasiva e com algo de sinistro, que poderia ser até mesmo personagem de um longa de suspense ou terror psicológico.

Outro detalhe que não poderia ficar de fora é a trilha sonora. Julieta é um melodrama, não tem como negar. O encarregado da trilha é Alberto Iglesias, compositor espanhol que sempre trabalha com Almodóvar e que ganhou o Oscar por Jardineiro Fiel. A bela música de encerramento merece destaque e trata-se de Si no te vas, na voz de Chavela Vargas.

Julieta é um filme belo, que trabalha muito bem a sensação de frustração que conecta com a solidão e o não-dito dos personagens. Se não houver comparações com obras anteriores de Almodóvar, é possível apreciar bastante a obra.


Por Thais Isel

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