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Alguns filmes parecem vir para ficar, especialmente aqueles de diretores considerados os maiores de sua época. Todo mundo tem um filme preferido de diretores geniais como Woody Allen, Tarantino e Almodóvar: eles são criadores emblemáticos, possuem um estilo muito característico e reconhecível, mesmo que assistamos a apenas 20 segundos de suas produções.

No caso específico de Almodóvar, obras icônicas como Kika, Fale com ela, Tudo sobre minha mãe e, mais recentemente, A pele que habito são algumas que permanecem na memória, já que é impossível assisti-las sem regurgitar, remoer e sentir até certo asco que demora a ser dissipado. Com Julieta, sua obra mais recente, é bem diferente.

Como a maioria das produções de Almodóvar, a história gira em torno da força e empoderamento femininos. Em Julieta, o papel da protagonista é vivido por Adriana Ugarte – a Julieta jovem, e Emma Suarez, a personagem em sua fase mais madura.

Resumidamente e sem spoilers, a história é contada por Julieta, mãe que tentava superar o distanciamento e a necessidade da presença de uma filha que a abandonou há 12 anos. O reencontro com Beatriz, melhor amiga de sua filha, Antía, faz com que ela reviva toda a torrente de emoções do passado e comece a contar em uma carta tudo o que se sucedeu desde o dia em que conheceu Xoan, o pai de Antía, até o momento atual. Desta forma, Julieta é um longa sobre o poder da culpa, do destino e de como tragédias familiares, ressentimento e até mesmo o silêncio podem prejudicar relações que parecem inabaláveis, como a de mãe e filha. Por esse motivo, o filme nem de longe lembra a ironia ou humor ácido do diretor de Mulheres à beira de um ataque de nervos ou Volver. Julieta é introspectivo, triste.

O roteiro do filme não é original, já que Almodóvar adaptou contos presentes no livro Fugitiva, da escritora canadense Alice Munro. Muito bem filmado e belíssimo visualmente – a produção é tipicamente almodovariana com relação às cores, o vermelho vivo, verde bandeira e azul cobalto permeiam toda a produção – Almodóvar usa artifícios sutis e extremamente belos para se comunicar com o espectador.julieta_07-0-2000-0-1125-cropJulieta é um filme silencioso e, como tal, há sempre de se prestar atenção aos cenários e quadros que compõem o ambiente, já que as cores dialogam e entregam emoções dos personagens. Um belo exemplo disso é a cena que contém um diálogo forte entre Julieta e Antía, na qual o quadro pintado de negro serve de suporte visual à densidade emocional das personagens. Outro exemplo é do momento em que Julieta está embalando seus livros e pertences para se mudar com seu novo amor e construir uma vida em Portugal: atrás dela, está o autorretrato de Lucian Freud (artista conhecido por seu realismo cru, sem idealizações).

Mesmo com tanta beleza e cuidado com os detalhes, Julieta não é um daqueles filmes que permanecem na memória por muito tempo. A expectativa de que algo acontecerá na cena seguinte ou da reviravolta na vida das personagens é frustrada em todo o longa, deixando-o bastante lento para os amantes do cinema de Almodóvar, acostumados a diálogos mais acelerados, personagens mais apaixonados, cômicos ou viscerais. O toque de humor (bem leve, diga-se de passagem) fica por conta de Rossi de Palma, parceira de Almodóvar de longa data, que aparece como uma empregada ligeiramente invasiva e com algo de sinistro, que poderia ser até mesmo personagem de um longa de suspense ou terror psicológico.

Outro detalhe que não poderia ficar de fora é a trilha sonora. Julieta é um melodrama, não tem como negar. O encarregado da trilha é Alberto Iglesias, compositor espanhol que sempre trabalha com Almodóvar e que ganhou o Oscar por Jardineiro Fiel. A bela música de encerramento merece destaque e trata-se de Si no te vas, na voz de Chavela Vargas.

Julieta é um filme belo, que trabalha muito bem a sensação de frustração que conecta com a solidão e o não-dito dos personagens. Se não houver comparações com obras anteriores de Almodóvar, é possível apreciar bastante a obra.


Por Thais Isel


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1 thought on “Crítica: Julieta

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