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CríticaFilmes

Crítica: Kubo e As Cordas Mágicas

Paulo Olivera
25 de novembro de 2016 4 Mins Read
Não pisque e se entregue

kubo-22O mercado de animações está cada vez mais concorrido e ganhando um maior espaço cinematográfico. Enquanto, há alguns anos atras, se lançava dois longas animados durante todo o ano, hoje, conseguimos ter múltiplas opções para nosso entretenimento. Porém, tal progresso também vem com o desafio de se construir e contar novas histórias, de maneira que nos mantenha a fascinação e “compre” a lúdica proposta.

A última animação do estúdio Laika, responsável por “Noiva Cadáver” (2005), “Coraline” (2009), “ParaNorman” (2012) e “BoxTrolls” (2014), é o belíssimo “Kubo e As Cordas Mágicas”, que já ousamos em dizer, sem dúvida alguma, que é a melhor animação do ano. Para aumentar ainda mais o apego de quem realmente é um cinéfilo, ele foi feito todo em stopmotion e teve finalizações complementares em CGI para dar uma dimensão e grandeza maior as sequencias de aventura e confrontos, que não são poucos.

Quem já assistiu aos outros títulos da Laika, sabe muito bem que suas animações nunca foram, exatamente, para entreter crianças, e há uma predominância constante de tons e circunstancias sombrias. Abusando das muitas referências nipônicas, ele nos traz noções perdidas por nós como a capacidade de ver e aceitar o que nos rodeia, reconhecer o passado como uma base construtiva para quem queremos ser, a amar e a perdoar.

Aos 11 anos, Kubo é um menino que vive em uma gruta a beira mar com sua mãe, depressiva e com lapsos de memória. Ele não possui um olho, que foi arrancado de seu avô materno, com ajuda de suas duas tias, que também são responsáveis pela morte de seu pai, e vive do dinheiro dado à ele em sua “jornada de trabalho”. Durante o dia ele Kubo vai para o centro de uma pequena vila japonesa para tocar sua shamisen (espécie de banjo de três cordas) mágica, que dá vida à folhas de papel para narrar a história de um grande guerreiro. Ao primeiro badalar do pôr-do-sol e a pedido de sua mãe, ele precisa voltar para casa, pois é durante a noite que o Rei da Lua, seu avô, ganha força e continua sua busca para arrancar o outro olho de Kubo.

Em certo dia, por pura inocência, ele acaba não voltando para casa na hora certa e é encontrado por suas maquiavélicas tias. Tal ocasião gera outro infortúnio para ele, a perca da mãe. Ela usa o resto de sua magia para dar vida a uma macaca a fim proteger o garoto que, com a sua ajuda, deverá buscar uma lendária armadura dourada para enfrentar sua própria família e ficar a salvo. Durante o processo eles acabam encontrando o “Beetle”, um atrapalhado guerreiro besouro, com uma pontaria certeira, que acaba se tornando um importante aliado para Kubo alcançar seus objetivos.

kubo-e-as-cordas-magicas-screenshot

A história de Shannon Tindle e Marc Haimes, roteirizada pelo próprio Marc com Chris Butler (roteirista de ParaNorman), acertou em cheio nas referências da cultura oriental e ao “pop contemporâneo”, no humor pesado e intrinsecamente palpável à qualquer idade, na construção das personalidades, ainda que clichês, e por nos fazer sentir surpreendidos em alguns momentos. Porém, embora seja um longa tocante, de encher os olhos de lágrimas, ele também peca na falta de tempo. Ao longo de sua 1h40m, faltou espaço para a criança sentir verdadeiramente a perda.

Mesmo sendo lúdico, uma nova roupagem à “jornada do herói”, transcendendo para uma outra realidade, alguns acontecimentos são rápidos demais para a assimilação de uma criança compreender, sentir e amadurecer seu interior. Esse problema também reflete na direção do estreante Travis Knight, presidente da Laika, que veio seguindo uma excelente narrativa visual para as cenas de ação/aventura e descobertas, enquanto as cenas mais tocantes, por serem pequenas no roteiro, fez com que não arriscasse em prolonga-las o suficiente para arrancarmos nossos corações de tão tocados com o infortúnio infantil do protagonista.

Se faltou espaço para mais drama, para o humor não. E grande parte desse mérito vem dos dubladores que deram uma essência exclusiva a cada persona presente na história. Além da estreia de Matthew McConaughey, o Beetle, como dublador, o elenco se completa com Charlize Theron, que dá uma áurea incrível a Mrs. Monkey (Macaca), Rooney Mara, como as irmãs bruxas, e Ralph Fiennes, mais uma vez expondo sua excelência em vilania, como o Rei da Lua.

Não vamos entrar no mérito do departamento de arte que já ficamos de queixo caído só de ver o trailer e mais apaixonados ainda depois de assistir ao longa, mas vamos falar da trilha sonora. As composições de Dario Marinelli, compositor de “V de Vingança” (2005), apresenta todo um lado místico e acessível vindo do oriente, assim como mescla as intenções narrativas de maneira interativa, criando uma dimensão onde o espectador se junta aos “heróis”. Sem contar a belíssima versão de “While My Guitar Genly Weeps”, dos Beatles, interpretada por Regina Spektor.

Mesmo tendo “Zootopia” esse ano e apresentando esse pequeno percalço, até o momento, “Kubo e As Cordas Mágicas” é, sem dúvida alguma, a melhor animação de 2016. Não pelo trabalho que deu, nem por ser o mais longo desenho de animação em stopmotion já realizado, muito menos por Kubo ter mais de 48 milhões de combinações visuais que formavam suas variadas expressões faciais. O valor ou, devemos dizer, “os valores” expostos no longa ultrapassam a estética, supera a expectativa e cativa algo dentro de nós que, talvez, não se sentia nas animações americanas desde “Irmão Urso” (2003). Brilhante!

https://www.youtube.com/watch?v=7xB-ATXp0Ok

 

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9.5

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Tags:

BeatlesCGICharlize TheronMatthew McConaugheyOscarStopmotion

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Me siga Escrito por

Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, mas reside no Rio de Janeiro há mais de 10 anos. Produtor de Arte e Objetos para o audiovisual, gypsy lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, workaholic e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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