Crítica: Mente Perversa

Imagem: Divulgação/Kurhaus Production FilmImagem: Divulgação/Kurhaus Production FilmImagem: Divulgação/Kurhaus Production Film

Existem assuntos que precisam ser tratados com muita cautela, principalmente no audiovisual. Afinal de contas, as imagens são representantes da realidade, podendo, se mal interpretadas, colocar seus idealizadores em situações controvérsas. Tudo fica ainda mais perigoso quando se quer discutir a pedofilia, por se tratar de uma das ações mais execráveis que um ser humano pode cometer. Por isso, é louvável a coragem do alemão “Mente Perversa” em configurar como vítima um pedófilo que tem predileção por meninos.

É dito a Markus (Max Riemelt) que ele possui uma doença intratável. Que não há um remédio que possa controlar seu desejo sexual criminoso. Será preciso que ele mesmo tente evitar crianças e comece a se consultar com um psicólogo. Psicólogo esse que irá propor uma terapia amenizadora apenas. Os espectadores que não consigam entender as intenções da história podem se irritar com o filme e o acusar de defensor de criminosos, por causa da abordagem que seu roteiro escolhe seguir. Aí está o perigo dito acima.

Mas, é preciso deixar os preconceitos de lado e tratar o filme como um estudo de personagem, que visa apenas explanar o problema e não dar respostas definitivas sobre o tema. Assim, consegue seus méritos com o apoio da competente fotografia, do figurino bem cuidado, da direção de arte bem pensada e da ótima atuação de seu protagonista.

O longa se aproveita de um clima de inverno na Alemanha e transporta o cinza das nuvens e o marrom escuro das árvores mortas para os móveis do apartamento onde mora o pedófilo e para as suas roupas, conferindo a ele uma aura de tristeza e solidão. Os ambientes pouco iluminados do apartamento, por sua vez, parecem locais onde se esconderia algum predador, e por isso, não é por menos que o roteiro faça um paralelo quando Markus visita um lobo em um zoológico: dois animais selvagens presos em suas respectivas jaulas. A diferença é que a jaula do homem é feita por barras mais fáceis de quebrar: a moral social.  Já Riemelt consegue uma construção discreta, mas potente de um homem cheio de desejos que quase não consegue controlar. Seus momentos de explosão são poucos e todos vem por causa da culpa que sente. Nas cenas que segue crianças, ou tira fotos delas enquanto nadam em uma piscina, se espera o pior. O espectador pensa: agora o instinto selvagem, o mesmo do lobo, vai quebrar a jaula de carne e, infelizmente, fazer uma vítima. Se ele chega às vias de fato, não cabe dizer neste texto, para não entregar nada sobre a trama.

O que pode ser dito é que “Mente Perversa” caminha bem em seu polêmico tema, discutido-o de forma honesta e clara. Sua conclusão parece a única possível depois que o roteiro já trabalhou as outras diversas opções. Em síntese, trata-se de um filme importante, que deveria ser visto pela sociedade como forma de alerta e conhecimento, e não com olhos inquisidores.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo


Imagens e Vídeo: Divulgação/Kurhaus Production Film

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