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Crítica

Crítica: A Mulher que se Foi

Depois de passar 30 anos presa por um único crime que não cometeu, Horacia enfim se vê livre. O mundo, obviamente, não é mais o mesmo. Determinada a encontrar o filho desaparecido e se vingar do ex-namorado que a incriminou, Horacia abre mão do pouco que ainda possui numa jornada com final já esperado, mas não previsível.

Para os padrões do cineasta Lav Diaz, o filme – vencedor do “73º Festival de Veneza” – é quase um curta (só 3h46 min). Para quem está acostumado ao padrão ocidental Hollywood, mas de 2h pode parecer exagero. Diaz, entretanto, possui uma habilidade narrativa invejável, de forma que não desperdiça um minuto que seja do longa com o superficial. Mesmos os momentos onde o tempo é distendido ao limite, não soam banais ou despropositados. A montagem e o uso de tomadas mais longas permite que a ação se desenrole sem tropeços, dando tempo ao tempo.

Outra escolha a princípio inusitada – para os padrões ocidentais – é a fotografia em preto e branco. “A Mulher que se Foi” têm um roteiro quase que em sua totalidade narrado pelo ponto de vista de sua protagonista. Entretanto, Diaz – que também é responsável pela direção de fotografia – optou por uma decupagem de planos americanos e gerais, sem o uso de closes em nenhum momento. De forma alguma essa escolha nos afasta de nossa heroína ou dos outros personagens. Na verdade, dá o espectador um sentimento de cúmplice silencioso da jornada.

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Horacia não é qualquer heroína, mas sim uma heroína trágica. Assim como a Antígona de Sofócles, a professora e ex-presidiária enfrenta uma polis totalitária, encarnada, neste caso, na figura de Ricardo Trinidad, o ex-namorado rico e violento. Cercada de figuras marginalizadas como ela – o vendedor corcunda de balut, a prostituta transgênero Hollanda, a mendiga Mameng – Horacia é dotada de um senso de justiça e amor pelos outros extremamente comoventes. Às vezes até mesmo agressiva e impiedosa, Horacia não representa apenas a si mesma, mas a toda uma classe de mulheres e homens que vivem a mercê de uma ordem maior. Na época de Sofócles, essa ordem estava expressa nas figuras dos deuses e do Estado. No filme de Diaz, ela se encontra na elite nunca contestada.

O elenco todo emprega uma naturalidade invejável a suas atuações, embora os destaques sejam Chatos Santo-Cocio (Horacia) e John Lloyd Cruz (Hollanda) – apesar de que Diaz poderia ter usado uma atriz transexual. Mesmo em meio à história de forte carga emocional, Diaz não se rende ao melodrama barato. A consciência do cineasta em relação a história que deseja contar é tão certeira que não existe desperdício nem de emoções. A ausência de uma trilha sonora reforça a ideia de que a emoção venha do trabalho dos atores, sem muletas.

Em meio a tanto desespero, existe uma ternura que se expressa desde a relação de Horacia com suas colegas de prisão, ao seu relacionamento com Hollanda e os outras pessoas que conhece no caminho. Ternura fundida com humor e até raiva, mas fundamentalmente humana. Essa é de fato a diferença entre Horacia e seu algoz, Rodrigo, como fica expressa em duas das melhores sequências: quando a professora e Hollanda cantam juntas, e quando Rodrigo conversa com o padre (esta cena, por sinal, é uma excelente representação do fetiche hipócrita pela religião). Se tratando de uma tragédia, a jornada de Horacia tem, como já foi dito, um fim esperado. Essa percepção, porém, não invalida toda a caminhada da protagonista e de seus companheiros.

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Como uma boa tragédia, “A Mulher que se Foi” parte de sua heroína – superior aos outros humanos, em termos de carácter – para tratar de questões universais, inerentes à condição humana. A história de Horacia, embora se passe nas Filipinas, em 1997, já foi contada de diversas formas. O modo como Diaz constrói seus personagens e seus dramas é que torna o longa uma verdadeira pérola.

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Sua formação é em cinema, e os interesses incluem televisão e quadrinhos. Nas horas vagas, faz tirinhas.

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