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CríticaFilmes

Crítica: O Anjo

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
26 de outubro de 2018 3 Mins Read

O Anjo 7Já se tornou lugar comum dizer que a adolescência é constituída de descobertas ou de momentos de transformação sentidos fisicamente e emocionalmente e que, nessa etapa da vida, os jovens começam a formar suas personalidades. A família possui papel importante na transição para a fase adulta, pois é essencialmente nos membros dela que cada um tira seus exemplos a seguir. Evidentemente, sempre há uma curva no caminho traçado acima, transfigurando completamente a adolescência de certas pessoas. Pode-se dizer que Carlos (Lorenzo Ferro), ou, como ficou conhecido, “O Anjo” é uma dessas exceções, já que tinha tudo para ser uma pessoa normal, seja lá o que “ser normal” signifique para ele. Vive em um subúrbio de Bueno Aires com o pai vendedor e a mãe dona de casa, sem luxos, mas decentemente. Tem o carinho da mãe e os ensinamentos do pai, só que, mesmo assim, é um ladrão habilidoso e também um assassino. Baseado em fatos ocorridos na década de 1970, o longa conta a história do anjo que matou onze pessoas e roubou inúmeros locais, como mansões e joalherias.

O cineasta Luis Ortega dirige um filme sobre a ascensão ao mundo do crime de uma pessoa comum a partir de um roteiro que usa elementos constantemente vistos em outros que contam praticamente a mesma coisa, apenas mudando os personagens. Por isso, em “O Anjo” é possível saber desde o início onde tudo irá acabar. No entanto, o que o difere é a figura do personagem principal, trazendo interesse maior para quem se propõe em assisti-lo. Belo, de lábios grossos e cabelos loiros cacheados, o rapaz andrógino é deveras a imagem de um ser angelical. Ele namora uma garota, porém, parece nutrir atração por seu companheiro de crime Ramon (Chino Darín), também belo e mais velho. Quando os dois se conhecem no colégio, Carlos já invade propriedades para roubar e acaba se aliando à família criminosa de Ramon. Em um dos roubos, Carlos acaba baleando uma pessoa que o flagra. Sem remorsos, o rapaz toma gosto pela morte e segue para outros assassinatos esporádicos e não como um serial killer.O AnjoDe maneira interessante, o figurino que o Anjo usa nos primeiros takes vai ganhando colorações diferentes com o passar da projeção. Se no início, ainda apenas um ladrão, suas roupas são simples e com tons claros, do segundo ato até o final, quando começa a tirar sangue de suas vítimas, ganha roupas mais sofisticadas, abusando do vermelho e do preto. Ao mesmo tempo em que mata, sente o desejo crescer por Ramon e quer possuí-lo, assim como faz com as joias que rouba. Sexualidade e gosto por matar são descobertos ao mesmo tempo, fundindo-se na sua cabeça.  Algumas cenas são primordiais para entender essa junção complexa: a volta à joalheria por causa de um cofre (vermelho) que Ramon o impediu de arrombar, o pênis de seu companheiro adormecido sendo coberto por joias e, por fim, com Ramon de frente a um espelho, experimenta um par de brincos, se tornando Bonnie junto com seu amado Clyde. A sua família e namorada não o satisfazem, é na companhia desses criminosos e realizando esses atos que sua vida passa a fazer sentido. Morte, amor e riqueza o tornam o trágico astro principal de um mundo caótico, mas ideal. Por isso, o filme não poderia começar e terminar de outra forma senão com a dança solo do anjo na frente das câmeras.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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