Quem melhor para falar sobre questões sociais e raciais do que Spike Lee? O Cineasta discute esses assuntos desde o início de sua carreira com obras como “Faça a Coisa Certa”, “Malcolm X”, entre outros. Além disso, ele vive em um dos países mais preconceituosos do mundo, que tem como presidente um sujeito antiprogressista e racista. Esses são os fatores que o habilitam a fazer filmes no qual um personagem ou toda uma comunidade negra sofre com agressões ou segregações.  Após os confrontos sangrentos acontecidos em 2017 na cidade de Charlottesville, o clima de tensão voltou aos EUA. Negros e brancos ficaram cada vez mais distantes e organizações como a Ku Klux Klan aproveitaram para abrir suas asas, sem nenhum sinal de repúdio por parte do governo. Lee não poderia ficar calado frente a essa situação que afeta a comunidade e envergonha toda a nação. Decidiu então filmar “BlacKkKlansman”, uma sátira feroz contra os  supremacistas brancos. Infiltrado na Klané o título capenga dado aqui no Brasil, não traduzindo as verdadeiras intenções do filme e fazendo com que os desavisados pensem que se trata de uma produção nos moldes das comédias pastelão dos irmãos Wayans.

BlacKkKlansman” conta a história de Ron Stallworth (John David Washington) o primeiro negro a tornar-se policial em Colorado Springs no ano de 1978. Ele começa a trabalhar nos arquivos da delegacia até ser designado a se infiltrar no discurso de um dos líderes do grupo Panteras Negras em visita à cidade (sequência lindamente montada com os rostos das pessoas da plateia encantadas com o discurso sendo lançadas na tela preta). Com uma escuta, consegue gravar todo o discurso que possui momentos de pregação violenta contra as autoridades e ainda conhece uma das presidentes do movimento, a bela Patrice (Laura Harrier). Após bom desempenho na sua primeira missão, é promovido para a ociosa inteligência da divisão. Em um dia típico, ao ler o jornal, encontra um anúncio com o telefone para novas ingressões na KKK da região e, seguindo o impulso do momento, liga para o número. Fazendo “voz de branco”, ele ganha a confiança do homem com quem tem a primeira conversa e rapidamente é marcado um encontro para que Ron receba os formulários de inscrição e faça uma entrevista. Evidentemente, o agente branco e judeu Flip (Adam Driver) é enviado em seu lugar para iniciar a investigação sobre possíveis atos violentos.

Com humor, o roteiro do longa retrata enfaticamente os membros da KKK como caipiras ignorantes, manipulados por notícias falsas relacionados a ataques de negros contra brancos (muito similar a um certo país da América do sul). Há muitos momentos de risadas durante a projeção, principalmente nas conversas por telefone que são hilárias ao trazerem seres surreais em suas falas ridículas.

Lee amplia a discussão sobre outros tipos de discriminações baseadas em visões deturpadas: Patrice é convicta em dizer que todo policial é racista e abusador, sem saber que Ron é um deles, a KKK também odeia judeus, e as mulheres do grupo são relegadas ao segundo escalão.

No entanto, contra toda essa onda preconceituosa, apresenta um personagem principal que se demonstra superior em suas atitudes diplomáticas. Ron não possui características violentas e, exceto em uma cena que serve de homenagem ao Blaxploitation, não é mostrado portando armas de fogo. Mesmo quando recebe a estapafúrdia ordem de fazer a segurança do líder da Klan, ele consegue uma atitude louvável (e provocadora) de, mesmo sendo constantemente humilhado, tirar uma foto abraçando um dos ofensores e o tal líder.

O ódio é combatido sem que nenhum tiro seja disparado, bem diferente do discurso belicista de Donald Trump. Esse que, inclusive, é lembrado com menções indiretas a seus slogans de campanha e diretamente em imagens da entrevista dada por ele depois dos ocorridos em Charlottesville. Há uma última aparição simbólica de Trump quando a bandeira norte-americana é mostrada de ponta cabeça e enchendo a tela. Suas cores fortes estão presentes, até que começam lentamente a dar lugar ao preto e branco.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 


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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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1 thought on “Crítica: Infiltrado na Klan

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