Crítica: O ano de 1985

“Ei, se você for antes de mim, você vai me esperar?”

A bandeira arco-íris popularizou-se, a partir de 1978, como símbolo LGBT. Inspirada na cultura hippie e na canção “Over the rainbow”, a profusão de cores lembra, ainda hoje, a histórica luta por direitos. Causa surpresa, nesse sentido, a decisão do cineasta Yen Tan (“Pit Stop”). Em vez das representativas matizes, o malaio-americano opta por seu extremo oposto. “O ano de 1985” (1985, 2018) é cinza: escuro como a angústia de seu protagonista.

Adrian (Cory Michael Smith), jovem publicitário radicado em Nova Iorque, retorna à casa dos pais, no Texas, para as férias de fim de ano. Manifesto em som e imagem, o conservadorismo interiorano esmaga a sua individualidade. Ao passo que rádios religiosas invadem seus ouvidos – bem como os do espectador -, mecanismos de dominação tornam-se cada vez mais visíveis. A título de exemplo, a bandeja do dízimo transita de mão em mão entre os fiéis da igreja, sempre acompanhada pela fotografia analógica rica em texturas.

Ensimesmado, o protagonista só encontra conforto no cão Landry. Desse modo, o roteiro – escrito pelo próprio Yen Tan, em parceria com o cinegrafista Hutch – confia a esses monólogos pequenas revelações sobre a personagem. Pequenas, por sinal, talvez seja mesmo o melhor adjetivo. Não há, afinal, quaisquer declarações assertivas a respeito de sua sexualidade. Sabe-se de uma antiga namorada, Carly (Jamie Chung), sabe-se de um relacionamento atual, mas jamais se busca uma definição. A sutileza do texto é o grande mérito da dupla.

Confortado de início apenas pelo cachorro, Adrian não tarda a descobrir “brechas”. A sensibilidade de Andrew (Aidan Langford), o irmão mais novo, chama a atenção. Contrariando as expectativas do pai, o menino negou os esportes e preferiu o teatro. É fã de Madonna e Bryan Adams. Já a mãe, Eileen (Virginia Madsen), também esconde um segredo. Nas últimas eleições, ela votou, pela primeira vez, em um democrata, o advogado Walter Mondale. Não acredita, enfim, na política belicista do republicano Ronald Reagan. Por fim, Carly, amiga e ex-namorada, compartilha com Adrian a condição de minoria. Enquanto investe na carreira de comediante stand-up, a descendente coreana tenta superar o preconceito. Tal postura discriminatória se verbaliza, aliás, na boca de Dale (Michael Chiklis), pai de Adrian. Ao chamar os vietnamitas do pejorativo “gook”, ele é logo repreendido pelo filho. 

Entre encontros e desencontros, o filme caminha na busca por uma compreensão mútua. Nesse trajeto, personagens transformam-se, inclusive, fisicamente: as diferenças entre o esbelto Adrian e o atarracado Dale, abismais à primeira vista, parecem, ao fim, quase dissolutas – se não totalmente, ao menos parcialmente. Não somente com o outro, porém, a reconciliação do protagonista é consigo mesmo. Andrew, talvez uma projeção do próprio Adrian, permite, segundo essa leitura, as pazes finais. Serena, a personagem pode então partir – seja para Nova Iorque, seja para o idílio.

“O ano de 1985” é o ano de 2019. A ausência de cores, para além do retrato de época, espelha toda uma marginalização da comunidade LGBT. De profunda beleza e angustiante tristeza, o longa-metragem, versão estendida do curta homônimo, chega ao Brasil com uma importante mensagem: a saída requer o diálogo.

* O filme estreia dia 25 de abril, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Supo Mungam Films

Crítica: O ano de 1985
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