Dizem por aí que para dar certo, uma peça teatral precisa chegar ao palco na hora certa. Em em pleno Setembro Amarelo*, mês dedicado à prevenção do suicídio no Brasil, o monólogo “O Homem Que Engoliu Um Chip” é uma adaptação comovente e honesta do livro “Todos os Cachorros São Azuis” do jornalista, escritor e artista plástico Rodrigo de Souza Leão. Diagnosticado com esquizofrenia, Rodrigo faleceu em 2009, em uma instituição psiquiátrica. Confira a seguir a crítica:
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Luzes apagadas e um som caótico de coisas se quebrando invade a plateia por todos os lados. Há um homem, que mal vemos ou ouvimos o que diz. Mas ainda assim, nos faz sentir. Muita coisa, inclusive. Desde o início, Manoel Madeira nos conduz pela jornada do louco – ou do esquizofrênico, se preferir – com todas as suas nuances elevadas à décima potência. Sentimos angústia, tristeza, compaixão. Tem também uma ironia que nos leva ao riso… Para logo em seguida, sentir culpa por estarmos rindo. O que sentimos é uma fração de um dia comum de alguém que vive com esquizofrenia.

Não demora muito para Manoel ocupar cada canto do espaço, com uma versatilidade gestual e uma intensidade de movimento impressionante. Vemos a generosidade do artista no cuidado com a preparação para tratar de um tema tão sensível e com tantas camadas a serem exploradas, que facilmente poderia cair em alguns clichês. Ele conversa com Rimbaud, fantasia com a enfermeira, imita o paciente que bate na cabeça… E se contorce, dança, corre ao tentar escapar das tentativas protocolares para trazê-lo de volta ao que chamamos de realidade. Essa atuação é um brinde à arte em sua máxima expressão. TODOG!
Adaptação do texto original é inteligente e cuidadosa
Mas o trabalho de Manoel não vem sozinho. A direção de Adriano Garib (que também faz a voz off) consegue transformar a estrutura compacta do Teatro Ruth de Souza num infinito que nos joga na solidão do protagonista que está num mundo que é pequeno demais para ele. A decisão de incluir trechos do depoimento de Rodrigo Souza Leão é muito humana, é impossível não se emocionar. No centro do palco, uma caixa que reproduz os circuitos de um chip, que o personagem engoliu mas que também nos engole cotidianamente. A sonoplastia e a iluminação completam a qualidade cênica.

Por fim, a dramaturgia de Ramon Nunes Mello é cuidadosa e inteligente. Inclui frases e expressões comuns, referências a obras cinematográficas sem perder vista a obra original. Os momentos em que o protagonista ri de si mesmo acontece dentro de um limite saudável, sem romantizar a loucura. Aos poucos vamos entendendo que não é uma história com um final feliz, considerando que cerca de 10% dos pacientes com esquizofrenia tiram a própria vida. Ao final, o espetáculo nos envolve emocionalmente de tal forma que somos levados a refletir sobre a fragilidade das instituições psiquiátricas e a nossa insignificância diante da complexidade do outro. “O Homem Que Engoliu Um Chip” precisa ser visto, revisto, e visto de novo.
* Sua vida é muito importante. Se precisar de apoio emocional, ligue 188 ou acesse cvv.org.br





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