Crítica: O Mau Exemplo de Cameron Post

O mundo está definitivamente enfrentando uma onda de conservadorismo nos últimos anos. Basta ver a vitória da extrema direita nas eleições de vários países, com destaque para os EUA e, muito provavelmente, o Brasil (este texto foi escrito no dia 21/10/18). Todos sabem que um dos maiores apoiadores dessa vertente politica são as igrejas ortodoxas e suas hordas de fiéis. Com conceitos retrógrados, esses grupos tratam, entre outros, da homossexualidade como um desvio religioso, que pode ser curado conhecendo os ensinamentos da bíblia e se conectando com Deus. Evidentemente, oferecem a tal “cura gay” para a comunidade e fazem lobby para que leis antiprogressistas sejam aprovadas nos congressos. Sua pretensão em influenciar boa parte da sociedade é clara.  Em O Mau Exemplo de Cameron Post” conhecemos uma dessas igrejas milagrosas e acompanhamos os jovens que são mantidos em vigília constante a mando de pais com costumes medievais.

A Cameron Post do titulo (Chloë Grace Moretz) é flagrada fazendo sexo com outra garota durante um baile de escola. Após isso, ela é enviada para um centro de recuperação para jovens gays no meio de uma floresta afastada. Nesse lugar os alunos “aprendem” a reprimir seus desejos homossexuais retirando de suas vidas elementos que os influenciam. Como exemplo há a garota que cresceu assistindo jogos de futebol americano com o pai, então, de acordo com a pseudo-psicóloga do grupo (Jennifer Ehle), esse fator foi predominante para moldar seus trejeitos masculinos. A tal psicóloga diz a Post que, o fato de ter perdido o pai e mãe muito cedo, aparentemente, desencadeou seu desejo por mulheres, já que não havia ninguém para lhe indicar o caminho correto. Situações absurdas como essas se acumulam durante toda a projeção, deixando quem tem o mínimo de sensibilidade de boca aberta.

Baseado no livro homônimo de Emily M. Danforth o filme é intimista em sua proposta e se apoia mais nos diálogos do que nos atos para criar conflitos. Post usa todo o seu sarcasmo para fazer frente àquelas pessoas que acham que a estão ajudando. Quando conhece os igualmente indignados Jane Foda (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck) ela  começa a pensar em fugir do local, ainda mais depois de um acontecimento importante no terceiro ato. Moretz trabalha bem com diálogos sarcásticos, mas também consegue expor todas as dúvidas próprias da juventude com suas expressões indagadoras e respondendo todas as perguntas com “eu não sei” ou “talvez” de forma inaudível.

Desiree Akhavan, diretora do longa, faz seus  Post abaixar a cabeça dentro da grande, porém opressora propriedade e enche de cantos escuros os seus cômodos. Por outro lado, coloca na alma daqueles jovens personagens a fagulha de luz que pode acabar com a escuridão. Esconder os sentimentos e o que os formam como seres humanos só trará mais sofrimento, o melhor é tentar a liberdade ao desatar as amarras de uma sociedade doente e, no processo, transformá-la. A história se passa em 1993, mas poderia muito bem ser nos anos 50 ou hoje em dia, já que a ignorância e as crenças baratas sempre estarão em batalha com a inteligencia.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo 

 

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