10 de dezembro de 2019

Quando a Netflix começou a fazer suas próprias produções, surpreendeu muita gente pela qualidade que elas tinham e por dar espaço para assuntos mais tensos e considerados tabus da sociedade em geral. O serviço de streaming já falou sobre depressão, suicídio, universo LGBT, bullying e vários outros temas complicados.

Aprofundando ainda mais os conflitos que cada um pode enfrentar, “O Mínimo Para Viver” estreou dia 14 de julho no portal, contando a história da adolescente Ellen (Lily Collins), que sofre de anorexia. Depois de passar por várias internações, a jovem é forçada a se consultar com um novo médico que tem um método um tanto controverso para tratar distúrbios alimentares.

A clínica mais é uma casa aconchegante, com 7 jovens que estão em tratamento e vivem e convivem, trocando suas experiências. Eles são acompanhados por enfermeiros 24 horas por dia, passam por consultas com o médico e uma psicóloga e têm pouca privacidade, já que o lugar não tem portas para evitar que eles usem de truques para continuar mergulhados em suas doenças.

Desde que estreou “13 Reasons Why”, a Netflix vem enfrentando um grande turbilhão ao falar sobre assuntos mais sérios. Apesar de todo o potencial positivo que a série mostrou, sendo capaz de trazer uma discussão sobre a depressão, o bullying e o suicídio, a falta de cuidado ao tocar no assunto e a glamourização da depressão, foi algo duramente criticado dentro da obra. O mesmo ocorreu com “To The Bone”, nome original desta produção, que vinha sofrendo severas críticas mesmo antes de estrear.

Algo positivo do longa é que, diferentemente da série, “O Mínimo Para Viver” não glamouriza o problema do qual fala. Não é algo legal, não é algo bonito e também não é algo que os outros devem sentir pena ou culpa. A “cura” vem da própria pessoa, ela apenas precisa saber e entender qual vai ser o tratamento, porque ele já existe e está disponível de várias maneiras e em vários lugares.

Na verdade, o tratamento do Dr. Beckham (Keanu Reeves) não é nada controverso. A única coisa que ele faz é ser totalmente transparente e honesto com seus pacientes, não deixando eles se sentirem culpados ou vitimizados e também não sentindo pena ou vitimizando-os. Se eles querem sair dessa, ok, ele estará lá para ajudar, mas ele não será o motivo, ele será a ajuda. Basicamente, o que o tratamento oferece é uma maneira mais dura e brusca para cada um, e isso, obviamente, pode ser difícil de lidar.

O roteiro não é algo que espanta ou choca. Você não verá cenas de pessoas vomitando – e talvez isso seja mesmo para ter um cuidado e não dar ideias a quem é suscetível a esse tipo de distúrbio – ou em hospitais com gente morrendo. Apesar do cuidado, ele nunca será um filme como “Garota, Interrompida” foi. Não é corajoso pra isso e muito menos profundo. Na verdade, é até mesmo incomodo o quão ele pode ter falhas. Como, com enfermeiros inteligentes que sabem todas as manhas de seus pacientes, alguém não acharia um saco de vômito debaixo da cama? É de deixar qualquer um incrédulo (apesar que em “Girl, Interrupted” há uma cena em que a personagem de Brittany Murphy esconde restos de frangos debaixo de sua cama, mas o filme retratava uma época mais antiga, onde esconderijos estavam sendo descobertos, por exemplo).

Lily Collins é uma boa atriz, sem dúvidas. Sua figura esquelética é assustadora e o fato dela ter sido elogiada e estimulada a se manter como estava é espantoso porque é possível ver os ossos dela saltando em cena. Collins, que já passou por distúrbios alimentares antes, faz um bom trabalho como Ellen/Ellie. Como co-estrela do filme temos Keanu Reeves, que faz o médico. É um personagem crível, mesmo que não esteja na bolha que Reeves costuma se dar bem – filmes de ação – e o ator consegue se destacar usando um pouco de seu charme e carisma. O filme ainda conta com Lili Taylor, de “A Invocação do Mal”, entre outros jovens atores.

Tecnicamente, o filme é quase impecável. Possui bons enquadramentos, um bom trabalho de sonoplastia, figurino, arte… Nada novo, mas também nada que compromete o resultado. A diretora e roteirista do filme, Marti Noxon, que também tem um histórico lutando contra anorexia, entrega um trabalho mediano nas duas áreas, sem superar expectativas. O roteiro caiu na velha máxima do filme juvenil: interessante, mas quadradinho. Inclusive, mesmo com os vários pontos importantes, ainda temos um casal feito sob medida para agradar, como em vários filmes dramáticos juvenis que sempre tem um par só para preencher algumas linhas. A direção também ficou no meio termo, em uma linha muito longe do corajoso e memorável, mas perto do mediano. É uma obra que deve ser vista, mas não terá o mesmo resultado que “Garota, Interrompida”.

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Marya Cecília Ribeiro

Marya Cecília é goiana de nascimento, mora em São Paulo há seis anos e ainda assim não consegue lidar com o clima 4 estações em um dia que rola nessa cidade.
Tem umas manias esquisitas, tipo ver um filme que gosta várias vezes, mas esta tentando lidar com isso (ou não). Falando nisso, ela não faz questão nenhuma de ser normal, então podemos apenas seguir em frente!

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2 thoughts on “Crítica: O Mínimo Para Viver

  1. Gostei mto dá crítica, achei mto desnecessário esse romance do filme e achei que o filme fosse se aprofundar um pouco mais no assunto da anorexia..

    1. Oi, Guilherme,

      Acho que muita gente não gostou do romance. Eu fiz o texto no mesmo dia que o filme estreou, pouca gente havia visto. Mas, agora, quase 10 dias depois, eu vejo gente falando muito desse nosso incomodo, então acho que muitas pessoas preferiam que não tivesse. E sobre aprofundar-se mais, eu também pensei, mas acho que eles quiseram cuidar para que fosse visto sem causar tantos danos

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