Crítica: O Professor Substituto

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Desde o início de “O Professor Substituto”, duas forças travam um intenso embate. O sol escaldante se opõe ao piso de concreto em que um professor se choca após se jogar de uma janela; opulentes antenas de energia se impõem sobre uma plantação; as chaminés de uma usina nuclear chamam atenção junto a um lago. Essa silenciosa disputa entre os elementos da natureza e as obras da intervenção humana serve de ponto de partida para o debate que rege o novo filme de Sébastien Marnier.

Seu título original, “L’heure de la sortie” (“A Hora da Saída”, em tradução livre) é de uma perfeita ambiguidade. Ao mesmo tempo em que, num sentido literal, faz referência ao término das atividades escolares, subjetivamente, ele trata da própria mortalidade do ser humano. Afinal de contas, a morte é “a hora de saída” definitiva.

O professor substituto que dá nome ao filme, Pierre (Laurent Lafitte), é um homem de 40 anos que há pouco retomou suas atividades acadêmicas. Ele sabe que, para alguém de sua idade, ocupa um cargo menosprezado dentro da hierarquia de seu campo profissional. Entretanto, isso não o impede de tentar concluir sua dissertação de mestrado sobre Franz Kafka ou aceitar o desafio de ensinar para uma turma de jovens dotados. Além disso, ele mantém uma rotina de exercícios físicos, fazendo jus à máxima “mente sã, corpo são”. Logo, não é de se surpreender que Pierre tema o envelhecimento e a morte, como ele mesmo deixa claro à certa altura do longa.

À essa figura, Marnier opõe um grupo de seis alunos liderados por Apolline e Dimitri (Luàna Bajrami e Victor Bonnel), dois dos estudantes mais bem-avaliados do colégio onde Pierre leciona. À primeira vista, o comportamento hostil desses jovens parece ser apenas provocação para cima do professor novato, mas com o passar do tempo, fica cada vez mais claro que suas atitudes fazem parte de um intricado plano de manipulação psicológica.

Fora da escola, esses adolescentes produzem filmes amadores, através dos quais expõem a sua visão de mundo. Combinando manifestos com filmagens de catástrofes naturais, pessoas em situações de risco e abate de animais, essas obras constroem a imagem de um planeta à beira do colapso, materializando o conflito homem versus natureza e expondo o potencial destrutivo desse embate.

Dessa forma, pode-se entender a dualidade que rege “O Professor Substituto”. Pierre, por somente na meia-idade ter conseguido tomar as rédeas de sua vida, só tem olhos para o seu próprio futuro e corre contra o tempo para alcançar seus objetivos. Por outro lado, os jovens super inteligentes já atingiram o nível de realização pessoal desejado e, por isso, conseguem parar de pensar em si mesmos e abrir os olhos para o mundo à sua volta, onde não encontram um sentido para continuar vivendo.

Assim, através da ameaçadora trilha sonora de sintetizadores e do crescente surgimento de elementos que beiram o sobrenatural, Sébastien Marnier cria um opressivo ambiente de paranoia, à medida que Pierre conhece mais dos motivos para o comportamento estranho de seus alunos. Nesse sentido, a presença de Kafka como objeto de estudo do protagonista toma uma dimensão interessante. O escritor tcheco morreu pouco antes de completar 41 anos, justificando a corrida de Pierre contra o tempo.

Ademais, a recorrente figura da barata (provável alusão à “Metamorfose”) aos poucos se ressignifica. Inicialmente um mero bicho a ser exterminado com uma chinelada, posteriormente a barata se torna uma possível forma de resistência. Seria a transformação em inseto, como ocorre com Gregor Samsa na novela de Kafka, a única forma de sobrevivência do ser humano em um planeta cada vez mais hostil à sua presença?

A escolha de Laurent Lafitte como protagonista, portanto, é bastante acertada, uma vez que sua postura imponente e feições brutas contrastam com a impotência de Pierre frente à uma situação que parece fugir de seu controle. O que é ainda mais exacerbado em seus confrontos com Apolline e Dimitri, nos quais seu porte físico se apequena frente à enorme destreza dos alunos em atacar seus pontos fracos apenas na base da palavra.

Durante uma aula de música, os jovens interpretam “Pissing in a River” de Patti Smith, cujos versos “sou um escravo/sou livre” parecem definir os pontos de tensão entre as personagens. Para Pierre, o tempo o escraviza e a manutenção de seu bem-estar físico e mental o liberta; em contrapartida, para os alunos, o mundo à beira da destruição e o capitalismo causador disso os aprisionam, enquanto escolher se livrar dessa existência através do suicídio é uma libertação. Ao fim de “O Professor Substituto”, Sébastien Marnier argumenta que, apesar das diferenças, na “hora da saída”, esses dois lados acabam se encontrando.


Imagens e vídeo: Divulgação/Supo Mungam Films

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