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CríticaFilmes

Crítica: O Regresso

Daniel Gravelli
1 de fevereiro de 2016 5 Mins Read
Quando o filme torna-se obra de arte

O Regresso

“Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas”
(Confucio)

 Ninguém pode dizer que sua vida acabou, senão você mesmo! Enquanto ainda existem motivos, mesmo que ínfimos, para continuar lutando, sua força de vontade pode ser o maior aliado em uma guerra pela sobrevivência.

Diferentes enredos se espelham nessa abordagem, sendo utilizados em diversos livros e seus argumentos fictícios espalhados pelo mundo. Entretanto, por mais difícil que possa ser, também fazem parte da memória de pessoas que presenciaram de perto o feito realizado por alguns e, em outros casos, vivenciaram na própria pele o acontecimento. Baseado em fatos, a história do explorador estadunidense Hugh Glass se encaixa perfeitamente em uma dessas, mesmo que de todas as suas proezas apenas uma fica no imaginário popular.

Abordada em algumas adaptações, seja através de poema, livro ou no faroeste “Fúria Selvagem”, dirigido por Richard C. Sarafian, a vida de Glass serve de inspiração para muitos, devido sua experiência e extrema determinação para manter-se vivo, independente dos motivos de sua luta. Os últimos iluminados por sua trajetória foi o escritor Michael Punke, que pesquisou e desenvolveu o livro “O Regresso” em 2002, e o premiado diretor mexicano Alejandro Gonzalez Iñárritu, que acaba de lançar uma verdadeira obra prima nos cinemas de todo mundo. Levando o mesmo título do livro, “O Regresso” chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 04 de fevereiro provando os motivos de ser considerado um dos melhores, ou talvez o melhor filme do ano.

A história se passa em 1822, durante uma expedição para território inexplorado no oeste americano, e gira em torno de um grupo de comerciantes guiados pelo explorador Hugh Glass. Durante o trabalho, Glass é atacado e ferido seriamente por um urso. Entre a vida e a morte, é abandonado e enterrado vivo pelos próprios companheiros. Contudo, acaba conseguindo sobreviver e parte à procura de vingança contra aqueles que o deixaram para morrer.15064115_1613551125605962_164417476_oA produção, que envolve nomes como o próprio Iñarritu, Paul Green, Brett Ratner, entre vários outros, é de uma primazia absoluta, fornecendo ao projeto tudo o que esse precisava para se tornar o produto que é. Com belíssimas locações, efeitos hiper-realistas, cenas perfeitamente realizadas, o filme é uma poesia única e sem duvida alguma vai entrar para galeria de grandes produções do cinema.

O roteiro, escrito por Alejandro G. Iñarritu e Mark L. Smith, embora utiliza-se do livro de Michael Punke, acaba não bebendo completamente da fonte. O ensejo de manifestar com fidelidade a jornada do ser humano contra as adversidades, propõe uma narrativa simplória para qualquer viajante de primeira viagem. Contudo, aqui, é agregado também um paralelo construtivo e positivo entre o ódio e o amor, combinados poeticamente na invasão reflexiva aos momentos de tensão que consomem cada vez mais as personagens. Todavia, algumas falhas pertinentes chamam atenção em pequenos momentos do filme e as mesmas são alarmadas devido a falsa linguagem falada em determinada época (nesse caso 1822). Tanto o personagem de Tom Hardy, quanto os franceses, utilizam-se de um vocabulário muito moderno para articularem-se em algumas cenas. Entretanto, o erro não permanece durante o filme que se mantém muito bem com diálogos verossímeis na maior parte da história.

A direção, também de Alejandro, é impecável e arrebatadora. Enquanto muitos diretores escolhem planos ao acaso, o seu trabalho torna o filme ainda superior. Sua decupagem de direção, que utiliza-se de câmera em movimento, Closes, muitos plongée e contra-plongée, é responsável não só por contar esse trágico trecho da história do explorador e sua determinação, mas também por revelar os pontos altos e baixos da vida, a linha tênue entre a superioridade e a inferioridade. E, Iñarritu faz isso com sabedoria enquanto provoca uma explosão de emoções (nos atores e espectadores) que culmina em sentimentos poderosos e atitudes igualáveis.15101919_1613551135605961_1667883048_oO mago Emmanuel Lubezki, é o responsável por uma impactante, sufocante e sublime fotografia. O desenho composto por ele através de cores e tons que se transformam de acordo com o sentimento da personagem é magistral, deixando-o perto de seu terceiro Oscar consecutivo. Entre magníficos planos gerais e sequências bem realizados, somos apresentados a um filme que utiliza-se de recursos naturais para criar um verdadeiro espetáculo.

O elenco funciona perfeitamente. A química criada no set, sem duvida, deve ter sido levada para vida. Mas quatro específicos atores fizeram a diferença, a começar por Leonardo DiCaprio que prova de uma vez por todas sua competência na pele de Hugh Glass. Em uma performance esplendorosa, o ator causa aflição e angustia com uma atuação sincera e sem depender de mecanismos e/ou muitos diálogos (Essa é mais uma prova de que nem só de diálogo vive uma interpretação memorável). Em seguida temos o excelente Tom Hardy, antagonizando DiCaprio, ao viver John Fitzgerald. Embora faça mais um de seus excêntricos personagens, Hardy expõe uma construção forte com trejeitos e olhares marcantes. Domhnall Gleeson, sempre carismático, faz o Capitão Andrew Henry e convence mais uma vez. O jovem ator Will Poulter, responsável por dar vida a Bridger, se revela com um personagem desafiador perante grandes nomes da indústria.

A direção de arte, design de produção e figurino, caminham lado a lado com um trabalho formidável. Muito bem detalhado, a competência dos profissionais nesse setor não fica a desejar nem por um segundo criando veracidade para cada uma das cenas e materiais utilizados nessa.

O experiente Ryuichi Sakamoto e Carsten Nicolai, concebem uma deslumbrante trilha sonora incumbida de ajudar a transportar o espectador para o contexto. Com uma leveza única, a música torna-se ainda mais perfeita ao se encaixar com o som e a mixagem, promovendo um contraponto entre esses e o silêncio explicito e/ou simbólico em determinadas passagens.

Com uma montagem rápida e eloquente, “O Regresso” torna-se ainda mais assustador, e não me refiro a isso direcionando ao medo em si, e sim a irreprovável qualidade do filme e trabalho realizado por cada um dos envolvidos. É impossível não gostar do mesmo como um todo. Não trata-se apenas de mais um filme e sim uma remodelação de como se fazer cinema em uma época devastadas por continuações e remakes mal feitos.

Produção
10
Roteiro
10
Direção
10
Direção de Fotografia
10
Elenco
10
Direção de Arte
9.5
Figurino
9.7
Trilha Sonora
9.5
Reader Rating2 Votes
8.5
9.5

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Tags:

CinemaLeonardo Dicaprio

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Me siga Escrito por

Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é especialista em comunicação de alta performance, apaixonado pela arte e pelo seu potencial na conexão humana. É diretor, produtor, ator, roteirista, e acumula mais de 30 anos de experiência no mercado cultural. Adora cozinhar e descobrir novidades sobre o mundo.

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