Crítica: O Rei Leão

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Depois de 25 anos, “O Rei Leão” retorna aos cinemas em Live-Action.

Quem se emocionou ao assistir a animação de 1994, entende o peso da responsabilidade que caiu nas mãos dos realizadores dessa nova versão de 2019. Afinal, trata-se de uma das mais célebres obras da Walt Disney Pictures de todos os tempos. E sendo assim, “O Rei Leão (2019)” já mostra de cara o seu respeito pela obra da década de 90. Basta ver a cena inicial e notar que muitos dos planos que a compõem são exatamente os mesmos que os do desenho animado. Repetição essa que torna-se mais bem distribuída no decorrer do longa. A canção, apesar de ter sido regravada, não difere em nada da versão anterior.

No entanto, esse respeito pelo material fonte, apesar de funcional em alguns poucos momentos do filme, em hora alguma se mostrou realmente necessário (talvez compreensível, mas não necessário). Mesmo que se trate de um remake, ainda é um filme, e como tal, deveria buscar a sua independência e, de certo modo, andar com suas próprias pernas. O fato do filme se apoiar demais na animação de Roger Allers e Rob Minkoff  torna inevitável a comparação entre as duas obras.

Infelizmente, o roteiro de Jeff Nathanson acredita tanto na força do original, que acha que a própria nostalgia é o suficiente para fazer o filme funcionar. As falas são, na maior parte, exatamente as mesmas, e, quando há alguma mudança, ou é por uma tentativa de explicar situações que não foram explicadas na história anterior, que funciona em pouquíssimos casos, ou é para tornar alguma situação um pouco mais verossímil.

Assim como o roteiro, a direção de Jon Favreau não consegue mostrar a sua paixão na realização do projeto. Respeito pelo original sim, mas sem a mesma paixão. A começar pelo fato do diretor precisar mostrar a imponência de um determinado personagem ao apresentá-lo com uma trilha musical retumbante em um momento em que ela não se encaixa, ou uma certa canção feita para o filme, que é inserida sem contexto algum. A falta de uma pausa entre alguns diálogos, algo que poderia falar mais do que as próprias palavras, apenas evidenciam a artificialidade do longa. A sensação que o projeto passa é a que se trata de uma peça teatral, na qual o diálogo é o único recurso para o entendimento do público.

Contudo, o maior erro da direção de Favreau é o tempo que os fatos levam para acontecer. Na maior parte do projeto, os eventos são muito corridos, principalmente no segundo e terceiro ato. As mudanças de ideia, motivações e sentimentos acontecem de forma inverossímil e, por consequência disso, genérica. Algo que só potencializa a artificialidade citada acima. 

Porém, os deméritos do filme limitam-se apenas à direção e ao roteiro. Os acertos oferecem um forte contraponto aos erros do projeto. Primeiramente a escolha do elenco, que no caso dublaram os personagens. Donald Glover, dá voz ao protagonista Simba em sua fase adulta e merece seu destaque principalmente por sua voz nas canções, assim como a cantora Beyoncé Knowles-Carter, que dubla o par romântico do protagonista, Nala. A química dos dois tem seu ponto mais alto na consagrada canção “Can You Feel The Love Tonight”. Assim como a dinâmica entre JD McCrary e Shahadi Wright Joseph, que interpretam o casal na infância.

O alívio cômico do filme fica a cargo de Billy Eichner e Seth Rogen, que interpretam a divertida dupla Timão e Pumba. Seus personagens, ao contrário do resto do filme, fugiram um pouco dos maneirismos dos originais. Nessa nova versão, é possível perceber a presença de cada comediante, principalmente a de Rogen, que marca com sua voz e suas piadas características. James Earl Jones retorna ao papel de Mufasa com sua presença única e voz impostada que tornam o majestoso leão, um dos personagens mais amados da Disney.

 Todavia, as atenções devem ser voltadas para o ator britânico Chiwetel Ejiofor, que brilha em sua interpretação do cruel Scar. Diferente do ator Jeremy Irons, que dublou o antagonista na versão de 1994, Ejiofor intercala bem um tom contido para elucidar o calculismo do vilão e um leve descontrole, especialmente na canção “Be Prepared”, que teve seu arranjo refeito para ressaltar o vilanismo do leão, para mostrar sua determinação em tomar o trono.

Outro acerto certeiro é o visual hiper realista dos personagens. A qualidade da computação gráfica é tão alta que a partir de um determinado tempo, se esquece que se tratam de imagens criadas por computador, e acredita-se que o filme é de fato estrelado por animais. Embora as expressões dos animais, algo muito criticado nos trailers, sejam extremamente sutis, e quase imperceptíveis, não chegam a diminuir a experiência.

A escolha dos realizadores em se manterem fiéis à realidade, apenas transfere a externação de um sentimento dos personagens de uma expressão facial para uma expressão corporal. Por exemplo, em uma cena em que um leão está triste, suas orelhas estão baixas e seus movimentos estão mais lentos. Quando ele está amedrontado, seu corpo está mais encolhido. Além da perfeição das imagens, o som de cada personagem é certeiro para estabelecer não só a presença de cada personagem, como a carga que cada um deles tem na trama. Basta prestar atenção na diferença entre o rugido de Mufasa, Scar e Simba

Entretanto, o maior mérito vai para o compositor alemão Hans Zimmer, que retorna para a trilha musical do longa. O trabalho de Zimmer tem uma dupla função que é visível logo no início do filme. Primeira: Conectar o espectador com o mesmo sentimento que o desenho original proporcionou através das canções e manter as músicas consagradas sem quase nenhuma mudança em sua letra, arranjo ou ritmo. Cada personagem se encaixa perfeitamente na canção tema. Seus intérpretes não se prendem aos personagens, e acabam dando um pouco de identidade para as novas versões.  Segunda: pontuar a presença dos personagens e dos eventos do filme através da música de fundo. Diferente das canções, essas mudanças que funcionaram e muito bem para aumentar a nossa empolgação com momentos críticos do filme e, o mais importante, nos conectarmos com os personagens pela identidade que é criada para eles através da faixa.

O trabalho de Zimmer equilibra o respeito pelo material fonte e a paixão por ele, algo que é notado com clareza nos momentos em que a trilha assume um tom mais épico e acaba potencializando os momentos mais tensos do filme. Vale destacar aqui a cena da debandada e o clímax do filme. Antes os trabalhos da direção e do roteiro tivessem a mesma paixão do trabalho da composição da Trilha Musical.

O Rei Leão (2019) volta 25 anos depois com uma história simples, genérica, mas ainda assim, empolgante, visualmente deslumbrante, apaixonante e que continua a encantar os espectadores. 


Imagens e vídeo: Divulgação/Walt Disney Studios

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