Crítica: O Sacrifício do Cervo Sagrado

O cinema grego vem ganhando destaque nos últimos anos por causa de suas histórias que fogem ao comum. O principal cineasta dessa nova onda é, sem dúvida, Yorgos Lanthimos, que passou a chamar a atenção com “Dente Canino” de 2009. Em 2015 ele dirigiu O Lagosta”, seu primeiro trabalho em solo Hollywoodiano. Seu talento em construir sequências com situações esquisitas, usando enquadramentos inspirados, além da grande habilidade na direção de atores são fatores que explicam o sucesso do diretor. Esse talento também pode ser conferido no novo “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, que possui no elenco Colin Farrell, Nicole Kidman, Alicia Silverstone e os novos expoentes Barry Keoghan e Raffey Cassidy.

Uma cirurgia de coração no início do filme serve para apresentar o cardiologista Steven (Farrel), que é casado com a oftalmologista Anna (Kidman). Os dois possuem um casamento aparentemente perfeito e moram numa casa de boneca em um bairro rico junto com seus filhos Kim (Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). A vida tranquila dessa família muda quando o garoto Martin (Keoghan) entra em cena. Martin é filho de um homem que morreu na mesa de cirurgia de Steven, o que faz com que o médico passe a se encontrar frequentemente com o órfão. Esses encontros são demonstrações de culpa por parte de Steve, mas ele disfarça esse sentimento dizendo que tem pena do garoto. Gradativamente Martin começa a demonstrar obsessão por Steven e um comportamento violento surge daí.

Misteriosamente, os filhos do casal ficam doentes e não conseguem andar ou mesmo comer. Martin parece ter algum tipo de poder nas crianças e diz a Steve que a cura só se dará quando houver o sacrifício de um membro da família. Lanthimos traça, a partir da possibilidade do sacrifício, toda a desconstrução do ideal da família perfeita que existe na cultura ocidental, especialmente nas com influência norte-americana. O pai nesse contexto é o causador dos problemas e aquele que precisa remediá-los e resolvê-los. A figura paterna como centro das atenções não é novidade na breve filmografia do cineasta, basta assistir o já citado “Dente Canino”.

É interessante notar como a câmera do diretor de fotografia Thimios Bakatakis dá atenção especial ao médico e como os pontos de vista são alterados de acordo com o ambiente onde ele se encontra. Nos inícios de cenas no hospital, ele sempre é acompanhado por um estranho plano sequência em plongé, que parece que está flutuando um pouco abaixo do teto, quase o esmagando. A sensação de que há algo o segue pelos corretores herméticos, como um ser sobrenatural, é evidente. As sequências na luxuosa casa mostram sempre os amplos espaços onde os personagens interagem, ao mesmo tempo em que há close-ups que enchem a tela e evidenciam toda a confusão mental pelo o que estão passando.

A escolha de planos também é responsável por evidenciar esse desequilíbrio mental. Em nenhum momento vemos diálogos acontecendo no meio do quadro. O deslocamento para a borda, onde o plano corta uma pessoa ao meio enquanto ela é encarada pela outra, é quase assustador. A forma com que os diálogos são apresentados também pode ser, no mínimo, incomum para quem está acostumado com as narrativas clássicas. Os atores os dizem de forma acelerada, sem traçar qualquer característica de personalidade. Parecem pessoas sem almas ou seres artificiais que precisam obedecer a uma programação. Possivelmente se trata de um artifício que tem por objetivo demonstrar o quão fora da realidade todos se encontram. A escolha de cores neutras nos figurinos e no design de produção ajuda a criar uma história que parece ser passada dentro de um sonho.

Lanthimos constrói um final impactante e consegue expor uma discussão moral que, apesar de cruel, não deixa de ser válida. Mesmo com seu estilo excêntrico, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” pode ser eleito o longa mais fácil do cineasta, já que segue um esquema de narrativa de thriller. São raras as obras que se propõem a desafiar o espectador, e quando uma delas aparece, é preciso ir ao cinema e conferi-la. É garantido que ela ficará presente em suas mentes por muito tempo.

Crítica: O Sacrifício do Cervo Sagrado
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