Ricardo Darín parece onipresente no cinema argentino. A quantidade de produções em que aparece é considerável, sendo reconhecido com facilidade por quem quer que seja, de seu país de origem ou não. No entanto, não é apenas nesse sentido que sua presença se faz, já que, para além de quantidade, há sempre muita qualidade nela. Torna-se então curioso que esse ator se transforme numa espécie de símbolo do audiovisual argentino, representando tudo aquilo que costuma a render elogios nele. Não é diferente em O Segredo dos Seus Olhos”, filme em que acaba sendo, inevitavelmente, a figura central.

Darín atua como Benjamin Espósito, oficial de justiça que, aposentado, resolve escrever um livro baseado num caso ocorrido décadas pássadas. Caso em que participou de forma ativa, acerca de um estupro seguido de assassinato. Ele não se convence da solução dada, a princípio, e se propõe a ir além, ato que gera consequências e complicações. Aquilo que já o marcou fortemente de início vai se aprofundando e tomando outra proporção, envolvendo outras pessoas. É essa a história que vai sendo apresentada, na mesma medida em que o presente se desenvolve em paralelo.

É bastante difícil  definir gênero ou classificações fechadas para o filme, que contém em si pitadas de suspense, drama, investigação policial e, até mesmo, romance. Essas facetas são bem desenvolvidas e não conflitam entre si, demonstrando grande harmonia dentro da obra. Isso se torna necessário também ao compreendermos que essa abrangência dela se dá através de seu protagonista, que perpassa por todas essas questões. Seria natural imaginar que, ao longo de décadas, Espósito estaria envolto em questões diferentes entre si.

Outro pilar de sustentação para tal variedade são os aspectos técnicos apresentados. Em primeiro lugar, a direção passeia sem problemas por tais estilos, e faz isso de forma discreta. Movimentos de câmera existem, contribuindo para certo clima intimista e de investigação psicológica que se instaura, dentro de como vemos closes nos rostos dos personagens, por vezes. Ainda assim, vez ou outra ela aparece de forma mais contundente, como o épico plano-sequência que se passa no estádio de futebol. A tensão crescente é criada com eficácia e apuro dos realizadores.

A montagem cria transições criativas e interessantes entre passado e presente, que inclusive usam de rimas visuais muito interessantes, feitas com muita fluidez. Somado a isso, a fotografia estabelece diferenças enormes entre os diversos momentos temporais, que vemos pelos tons crus e realistas do presente contrapostos pelo amarelado e avermelhado que o passado possui. A coloração, aliás, não é feita de forma gratuita, corrobora com os sentimentos e questões do protagonista. Como o que é visto são memórias, faz sentido dar certo ar de subjetividade para elas, vemos tudo por um ponto de vista em especial.

Embora menosprezado, vez ou outra, o som cumpre bem seu papel aqui. A trilha é minimalista, toca em cenas nas quais há alguma virada psicológica dos personagens, algum acontecimento significativo, algum ponto de mudança. Podemos dizer que ela se manifesta de forma catártica dentro do universo dos protagonistas. O restante do design de som possui importante função também, reforçando e sonorizando esse tipo de questão presente em tela. Quando Espósito vê a cena do crime que investiga pela primeira vez, por exemplo, fica fora de si. Notamos isso porque já não ouvimos mais as falas de seu interlocutor, que agora tem parte da trilha do filme as sobrepondo. Aquilo é o caos que se estabelece na mente desse indivíduo.

Assim, “O Segredo dos Seus Olhos” é cativante. Desenvolve bem todos os aspectos que pretende sem se perder, retratando a evolução de um homem por suas memórias e de que forma se prende a elas. É um drama que envolve, incomoda e cria melancolia ao mesmo tempo.


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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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