“Para um, a vida é o futuro; para outro, o passado”

O cenário é o Ateneum, um dos três componentes da Galeria Nacional Finlandesa. Lá encontram-se o marchand Olavi Launio e seu neto, Otto. Nenhum lugar melhor para aprender sobre arte do que o museu com a maior coleção clássica do país, julga o avô. De repente, porém, estão diante do simbolista Simberg. Em Iltaa kohti (1913), um idoso veste-se de preto e carrega consigo uma bengala. De mãos dadas, acompanha-o uma criança toda de branco. A orientação vertical do quadro não permite saber aonde vão. A resposta está no título, jamais apresentado pelo filme: iltaa kohti, em direção à noite – não a noite do fim do dia, mas, em última instância, o fim da vida.

Dessa introdução, pode-se inferir que “O Último Lance” (Tuntematon Mestari, 2018) não é um exercício metalinguístico sobre a arte – caso contrário, seria ainda mais indesculpável o seu convencionalismo estético. Trata-se, acima de tudo, de uma narrativa sobre relações familiares. Como a decrépita figura que representa Nicklas Simberg, pai do simbolista, Olavi parece caminhar em direção à noite. A princípio solitário, o marchand ganha a companhia de Otto – como a Nicklas juntara-se o neto, Tom Simberg. Compartilhar a paixão com o herdeiro: nisso convertem-se os derradeiros momentos da vida do protagonista.

Fichado pela polícia, Otto enxerga no avô a única esperança de conseguir um estágio. Olavi, por sua vez, precisa de alguém para fiscalizar a galeria. Troca de interesses no início, a relação rapidamente evolui para uma amizade. Juntos, o rebelde jovem e o ranzinza marchand debruçam-se em um intenso processo de pesquisa. Olavi está convencido de que um artigo em leilão é obra do realista russo Ilya Repin. Se quer negociá-lo, contudo, precisa provar a autoria. Infelizmente, é a partir desse momento que o longa-metragem se perde.

O que poderia evoluir para uma interessante crítica à sociedade do consumo não passa de uma moralista defesa da arte sacra. O homem representado no quadro, aparentemente um monge ou camponês, corresponde, na verdade, a Jesus Cristo. Por isto Repin não assinara: voltada ao culto religioso, a pintura dispensa a noção de autoria. Esse culto Olavi quer substituir por outro, qual seja, o culto ao dinheiro. Semelhante atitude, na diegese da narrativa, é passível de punição.

Penhorar a aliança, confiscar a poupança do neto, vender sua galeria: de tudo faz o protagonista para concretizar a compra. Não obstante as implicações de suas atitudes, a roteirista Anna Heinämaa e o diretor Klaus Härö (“O Esgrimista”) ainda lhe reservam o benefício da dúvida. O leiloeiro Dubrowski, afinal, oferece um caricato e ganancioso contraponto.

Seria Olavi movido pelo egoísmo ou pela preocupação em deixar uma herança material para a família? Respondendo a essa pergunta, Heinämaa e Härö escancaram toda a ingenuidade do projeto. Para eles, pouco importam as condições reais de Otto e sua falida mãe, Lea. Está em jogo apenas o tempo desfrutado ao lado do cobiçoso – porém querido – avô.

* O filme estreia dia 18, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Distribuição/Cineart Filmes


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Luiz Baez

Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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