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Crítica

Crítica: Pacarrete

O filme “Pacarrete” de Allan Deberton vem arrebatando prêmios e corações em diversos cantos do Brasil ao contar a história de uma dançarina de balé já idosa – a Pacarrete do título, interpretada por Marcélia Cartaxo – que quer se apresentar na festa de aniversário da cidade onde mora. O problema é que balé clássico não faz parte das preferências da população da pequena Russas, no Ceará, então a secretaria de cultura do local barra a apresentação, frustrando a pretensão da artista de voltar aos palcos.

A personagem possui uma cultura erudita que não se encaixa na realidade em que vive, e por isso sonha com uma vida europeia ao transformar sua casa em uma réplica abrasileirada de um apartamento parisiense do passado. Para tanto, a direção de arte dá um charme burguês para o local, com o bom gosto dos móveis antigos. O ar vintage transporta a mulher do interior do Ceará à Paris dos anos 50, e o figurino característico das parisienses daquela época complementa o charme que exala de Pacarrete.

Bom, mas a cultura e o apuro estético não eximem Pacarrete de sua personalidade difícil, o que limita sua rede de relacionamentos na sua irmã Chiquinha (Zezita de Matos), na empregada Maria (Soia Lira) e em Miguel (João Miguel) o dono de um bar. Nesse microcosmo, ela é a dona das atenções, a protagonista dos shows diários. Cartaxo constrói essa personagem em uma atuação sensível e segura, indo da arrogância à tristeza de forma cômica e melancólica.  Também recebe a ajuda das atuações acima da média do elenco de coadjuvantes, o que valoriza ainda mais seu trabalho.

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Outro elemento agregador é a direção de Deberton, que desenvolve a narrativa em tom de fábula, com uma câmera que praticamente flutua entre os personagens, mas sem nunca ser invasiva. O ótimo trabalho do cineasta é ratificado em uma cena primorosa no terceiro ato que, ao som de “We Don’t Need Another Hero” de Tina Turner, mostra Pacarrete em um momento de tensão e desespero correndo entre um cômodo e outro, enquanto é vigiada através de um plano fixo em plongée, que só a perde de vista quando essa sai do quadro. A sensação é que Deus observa o momento caótico da vida daquela mulher de forma impassível, como se ela fosse apenas um objeto de estudo.

Sim, o estudo de personagem é através da artista, impedida de mostrar sua arte, que encena o lago dos cisnes em um teatro vazio. Solitária, a bailarina vai ao chão do palco enquanto as luzes se acendem, entregando o fim da sua peça, assim como o fim da sua história, talvez de sua vida. “Pacarrete” é um filme sensível sobre o envelhecimento, memórias e arte.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo.

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Imagem e vídeo: Divulgação/Deberton Entretenimento

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Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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