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Crítica

Crítica: Palace II – Três quartos com vista para o mar

“O prédio foi ao chão, e eu também fui”

Ainda nos créditos de abertura, o “selo” GloboNews já antecipa a veia jornalística de “Palace II – Três quartos com vista para o mar”. Pouco depois, contudo, a cartela de título sugere frescor na abordagem: o número romano II aparece horizontal, derrubado como as duas colunas do Palace. Em seguida, as personagens apresentam-se: “eu me aposentei”, “eu me mudei”. Comum a todos os discursos off-screen, manifesta-se o sonho de morar em um apartamento próprio, a pé da praia. Tomadas aéreas sobrevoam uma cintilante Barra da Tijuca, menina dos olhos de uma classe média emergente.

Esse sonho partilhado, como se sabe, rapidamente se reverteu em pesadelo. Construído com materiais de baixa qualidade, o prédio desabou. Hoje, passadas mais de duas décadas, os antigos moradores ainda buscam justiça. Sérgio Naya, à época deputado federal e dono da construtora, faleceu impune. Tampouco se localizaram todos seus bens para leilão e ressarcimento das vítimas.

“Lidar com o sentimento de injustiça”: em tal direção poderia caminhar o cineasta Rafael Machado. Para tanto, dispunha de uma vasta gama de imagens de arquivo, tanto midiáticas quanto familiares. Da instalação às pressas até o confinamento em hotel, passando pelo contato coletivo e pelas disputas judiciais, Machado refaz a linha temporal daqueles episódios. Muito mais interessantes que as imagens telejornalísticas – por vezes até desrespeitosas com o sofrimento das famílias – são, porém, as entrevistas conduzidas pelo diretor. Enquanto planos americanos deixam ver pedaços dos novos apartamentos – “cenários” inteligentemente escolhidos -, as personagens transportam-se para outros espaços, hoje restritos à memória.

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Entre elas, destaca-se Barbara Alencar, mãe de uma menina falecida no desabamento. A impressionante sobriedade de seu depoimento oferece uma série de eixos temáticos para o longa-metragem: oportunidades, infelizmente, desperdiçadas. Além do já mencionado “sentimento de injustiça”, cujas consequências transformam para sempre aquelas pessoas (“O sofrimento não faz bem para o caráter”, julga Barbara), há um incipiente esforço de presentificar a narrativa. “O Brasil ainda convive com muitos Sérgio Nayas”, deixa escapar a voz em off. Como não relacionar essa fala com outros casos recentes (a ciclovia Tim Maia, por exemplo)?

O filme, no entanto, parece mais preocupado com factualidades jornalísticas. “Você quer dizer mais alguma coisa?”, ouve-se ao fim do depoimento de Barbara. Mais apropriada que essa pergunta seria uma cuidadosa atenção ao que dissera anteriormente: “Eu quero ter o direito de me lembrar da minha filha sem me lembrar do Naya”. Nesse momento, esquece-se a contundência do silêncio, outrora tão bem trabalhada.

Estreante na direção, Rafael Machado oscila, enfim, entre questionadores silêncios e manipulativos estardalhaços – sobretudo por meio da crescente trilha musical. Em outras palavras: embora seu “cartão de visitas” deixe transparecer, vez ou outra, um certo domínio da linguagem cinematográfica, o produto final carece de um recorte mais convicto e de uma estética mais própria. Pode-se dizer, em certa medida, que “Palace II” subaproveita a riqueza de suas personagens.

* Exibido na mostra Expectativa do último Festival do Rio, o filme estreia no próximo dia 18, quinta-feira.

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Imagens e Vídeo: Divulgação/Pagu Pictures

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Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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