Crítica: Paranorman

Amigos de outro mundo

Ser diferente em nossa sociedade é matar um leão por dia, principalmente quando se é criança e a discriminação ocorre dentro da própria escola. Há quem diga, desprezando a importância de se falar sobre o assunto, que “hoje tudo é bullying”. Esse tipo de comentário minimiza a gravidade do problema. Felizmente, há filmes direcionados ao público infantil que tocam no assunto sem didatismo ou sermão. “Paranorman” é um deles.

Norman é um menino solitário e melancólico, considerado esquisito porque se comunica com fantasmas. Em seu caminho para a escola, encontra uma série deles – de perfis variados, diga-se de passagem – e os cumprimenta como velhos conhecidos. Em casa, é com a avó (já morta) que conversa, para aborrecimento do pai, Perry, que não deseja vê-lo transformar-se em alguém como Prenderghast, tio do menino por parte de mãe. Outro esquisitão com conexões sobrenaturais.

Visualmente, o filme capricha nos detalhes. Tanto a abertura quanto os créditos finais apresentam palavras escritas em letras como as usadas nas produções de terror de antigamente. No quarto de Norman há objetos como pantufas com cara de monstro e um despertador no formato de uma mão saindo do túmulo. Há bastante uso de enquadramentos de cima para baixo, mostrando o trajeto de Norman em várias situações, como quando, na escola, abre caminho no meio dos estudantes que o hostilizam, ou atravessando a floresta. Isso reforça o fato de que sua jornada geralmente é solitária. Mas há na história um personagem muito curioso, Neil, cujo otimismo é literalmente uma graça de se ver: sofre bullying não apenas por ser gordinho, mas por suar, ser alérgico, ter síndrome do intestino irritável e portar uma lancheira com desenho de gatinho. Todos esses “motivos” são listados por ele com muito orgulho, sem nenhuma ponta de vergonha, e ainda diz, com um ar sábio: “Não dá para deter os valentões. É parte da natureza humana. Se você fosse maior e mais burro, provavelmente seria um valentão também”. Sua constante empolgação é um contraponto para a melancolia de Norman, mas não há juízos de valor no filme sobre o temperamento dos dois meninos. Apenas são como são, e ponto.


Um aspecto muito positivo do filme, ainda na parte visual, é que os personagens foram desenhados caracterizando tipos bem diversos, mas que nos fazem recordar pessoas que vemos no dia a dia. A mãe de Norman, por exemplo, tem pouco queixo e até uma barriguinha proeminente. Mitch, irmão de Neil, tem ombros e peitoral largos, desproporcionais ao resto do corpo, algo comum a fortões obcecados em aumentar a massa muscular que esquecem que isso também pode ser feito abaixo da linha da cintura. As falas dos personagens também estão bem de acordo com o perfil de cada um, sendo um dos melhores destaques a irmã de Norman, jovem fútil preocupada com a aparência e afetada ao se comunicar, tanto verbalmente como no gestual.

No entanto, o roteiro de Chris Butler (que divide a direção com Sam Fell) é bastante frágil e confuso. A cidade em que se passa a história, Blithe Hollow, foi palco de perseguição às bruxas trezentos anos atrás, como aconteceu de verdade em Salem, no estado de Massachusetts. Por isso, existe uma maldição que paira sobre o lugar. O tio de Norman o encarrega de deter os eventos malignos que porventura possam ocorrer, e para isso é preciso ler um determinado livro no lugar em que a suposta bruxa vingativa foi enterrada. Nesse meio tempo, zumbis invadem a cidade. No entanto, os acontecimentos se arrastam, o que pode gerar um certo desinteresse por parte do público, seja ele de que idade for. Há momentos com alguma ação, que justamente por se estenderem por tempo demais, acabam sendo tediosos. Por mais atrativo que seja um filme no aspecto visual, se existe uma história a ser contada, é preciso ritmo para segurar a atenção. Nesse sentido, Paranorman deixa a desejar.


Neuza Rodrigues

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