9 de dezembro de 2019

Uma prostituta sem olhos. Uma garota com o ânus no lugar da boca. Um adolescente que quer ter o corpo de sereia. É isso. Com seu desfile de figuras absurdas, é difícil evitar a enumeração ao introduzir “Pieles”, filme de estreia do jovem cineasta espanhol Eduardo Casanova que, em um delírio embrulhado em tons pastéis, pretende cutucar feridas abertas nas nossas relações sociais; anomalias que vendemos como normalidade.

Praticamente uma mistura do perfeccionismo de Wes Anderson, do kitsch de Pedro Almodóvar e da transgressão de John Waters, o longa traz uma Espanha em que pessoas com deformidades extraordinárias tentam tocar suas vidas em uma sociedade que as marginaliza. Entre histórias que se cruzam, conhecemos o drama dos mais fantásticos personagens.

Seu ponto de partida é Laura (Macarena Gómez), uma jovem com pele cobrindo o lugar onde deveriam existir olhos, que sobrevive fazendo parte de um catálogo de uma casa de prostituição em que deficientes fazem parte do “cardápio”. Infortúnio por qual não passa Samatha (Ana Polvorosa), mas que, em contrapartida, sofre por ter nascido com o sistema digestivo invertido, o que a impossibilita de ter uma vida normal.  Desrespeitando as regras de seu pai, um dia a garota decide sair de casa com o rosto descoberto e na sua aventura esbarra com Cristian (Eloi Costa), um adolescente com Transtorno de Identidade de Integridade Corporal (TIIC), que o faz querer amputar as próprias pernas. Ele não só não sente que seus membros inferiores não pertencem a ele, como gostaria de substituí-los por uma cauda de sereia.

Em conflito também está Ana (Candela Peña), uma mulher com parte do rosto comprometido por um tumor, que tem que contar para seu namorado Ernesto (Secun De La Rosa) que está de fato apaixonada por Guille (Jon Kortajarena), um homem que tem o corpo inteiro tomado por queimaduras. Já Vanesa (Ana María Ayala), graças a seu nanismo, é  intérprete de um ursinho cor-de-rosa protagonista de um programa multimilionário na televisão, porém, terá que enfrentar o empresário que a explora para realizar seu sonho de ser mãe.

Se há algo que Casanova não quer passar com seu primeiro longa-metragem é despercebido. Esteticamente fascinante, o projeto do cineasta de 26 anos coloca suas figuras incomuns em um universo onde tudo é simétrico, colorido e atrativo. Com um trabalho interessante de design de produção, não só chama a atenção pela concepção visual de cada personagem – que, particularmente, é de cair o queixo –, mas também pela criação dos espaços, tomados por roxo e rosa, excessivo na quantidade de objetos de decoração. O kitsch aqui não é um reflexo da natureza psíquica e das relações caóticas entre os personagens, mas um ornamento a sua aparência fora do normativo.

Na direção, suas peculiaridades e estranhezas são ressaltadas, muitas vezes, pelo uso rítmico do plano e contraplano e diálogos compostos com quadros em que os personagens falam diretamente para a câmera. Valorizando o artifício, planos vistos de cima registram objetos meticulosamente organizados sobre a mesa, a câmera dança para dimensionar a situação em que Laura nos é apresentada e um plano sequência, muito bem executado, nos mostra o destino final de seus protagonistas.

Tudo fica ainda melhor com a competência do elenco. Dada as limitações, Ana Polvorosa impressiona ao encarnar uma garota com o ânus no rosto: mesmo com metade do rosto pouco móvel devido à prótese, só com os olhos ela consegue expressar variações sutis no estado de Samantha, como insegurança, estupefação e curiosidade. Já Macarena Gómez, vendada em todo o processo de produção, é segura ao explorar o espaço que confina Laura e compõe uma personagem doce, que como ela mesmo constata, não pode ver, mas é sensível em perceber “outras coisas”.    

Entretanto, por mais ambicioso que o projeto seja, tanto temática quanto esteticamente, no segundo aspecto ele se sai melhor do que no primeiro. Elaborado demais no visual, no roteiro a discussão dá seus escorregões, caindo na superficialidade. Talvez seja o corte final curto – o filme tem apenas 77 minutos – e a quantidade de personagens, que façam com que o longa nunca dê muita profundidade psicológica eles. Em uma cena perspicaz, que subverte os melodramas novelescos, Ana questiona Ernesto por ter se apaixonado por ela só pela aparência, tendo a confirmação, a mulher afirma: “Eu sou mais que uma garota deformada”. Porém, nunca temos a oportunidade de ver isso na prática.

Além disso, é preciso comentar que para assistir a um filme que tem uma pessoa que, literalmente, defeca pela boca, é necessário ir preparado para ser chocado. Essas situações existem, são razoavelmente calculadas, mas uma delas ficaria melhor se o diretor tivesse apostado apenas na sugestão. O mesmo já não é possível dizer da cena final, que tem o objetivo de revirar nossos estômagos, mas se mostra necessária.

Provocativo, “Pieles” caminha entre erros e acertos, porém, é inequívoco em passar sua mensagem. Em uma época que cada vez mais nos atentamos à marginalização das diferenças, Eduardo Casanova não chega só como um novo nome para o cinema espanhol, mas como o representante de uma geração.

“Pieles” está disponível na Netflix.

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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