Entre a verdade e mentira, todos somos culpados

O que realmente é justiça? Qual o verdadeiro significado da verdade e porque ela se esconde tanto?! Quem é o culpado no meio do jogo de poder da sociedade, diante tantas queixas, e até onde vai a nossa certeza perante infinitas incertezas que circundam uma acusação?! – Eu poderia ficar um dia inteiro listando perguntas sobre falhas e precisões encontradas no cotidiano, e/ou disparar imputações sobre determinadas situações que julgo, eu, estarem corretas. Todavia, qual a evidência que prova que minha verdade é superior a outras?! – Em frente aos fatos podemos direcionar pensamentos fundamentados mas, até que isso aconteça, antes que se prove o contrário, ninguém é culpado! Será mesmo?!

“Race”, em cartaz no Gláucio Gil, dialoga com o público de forma desigual e mordaz, levantando diversos questionamentos (como esses citados acima) através de um texto que penetra a consciência como faca afiada. A premiada peça, que foi trabalhada pela primeira vez em 2009 na Broadway, conta os bastidores da construção da Defesa de um homem branco acusado de estuprar uma jovem, adulta, negra. A montagem brasileira chegou aos palcos no ano passado realizada pela Cia. Teatro Epigenia e a Paso D’Arte Eventos. O drama, produzido por Luciana Fávero, é excepcional e de extrema importância social. A produção aborda assuntos contundentes, presentes diariamente em nossa sociedade, escancarados durante séculos mas constantemente ludibriados. Em um dos pontos principais da peça, o preconceito racial, a máscara cai e, a partir daí, somos lançados em um realidade que muitos tentam fugir, mas nesse caso não tem mais volta. O serviço prestado pelos produtores é simples, porém voraz, instigante, explosivo, e, sem dúvida, comprova que é possível fazer uma peça de sucesso sem muitos apetrechos em cima do palco.

O texto, traduzido por Léo Falcão, foi escrito pelo genial escritor, dramaturgo e cineasta americano David Mamet. O autor é o responsável por criar uma ferramenta capaz de desnudar até mesmo o mais puro dos inocentes, deixando claro que a maxima indicada anteriormente (Todo mundo é inocente até que se prove o contrário), funciona também para o outro lado. Com uma narrativa bem estruturada, construída através de diálogos ácidos, agéis e inteligentes, colocados na hora certa para atiçar a memória do espectador, a peça te deixa frente a frente com os seus erros mais profundos, independente desses serem ou não relativos ao tema abordado nessa, provocando um redemoinho de emoções.

A direção de Gustavo Paso é serena, fluída, mas ao mesmo tempo arrebatadora e assustadoramente tensa. É sempre um prazer assistir um trabalho bem engendrado, calculado para que tudo se encaixe perfeitamente. A marcação é funcional, natural, pincelada com toques minimalistas que servem para impulsionar gradativamente o crescimento dos atores em cena.14037591_1577108909250184_939447132_oO Elenco, no geral, tem os seus momentos de destaque e a química entre eles funciona perfeitamente. Com personagens muito bem desenvolvidos, desde o preparo físico ao psicológico, ficamos vendidos aquelas figuras desde a entrada desses no palco. Mesmo emaranhados em uma teia complicada, na qual são debatidos assuntos mais delicados que outros normalmente alcançados, os atores conseguem apresentar uma composição fulminante, que arranca suspiros tão profundos que não seria exagero dizer que alma poderia chegar a pular do corpo. Entretanto, em alguns momentos, dois atores tomam a frente e transformam seus personagens em algo ainda mais possante. A começar por Heloisa Jorge, “Susan”, que fica boa parte do início praticamente em silêncio, muda, o seu olhar passeia pela a mesa do cenário e sua risada “contida” (a ponto de se libertar) reflete seus sentimentos, provocando angustia em diversos pontos, até seu desabafo diante o público. Momento esse decisivo no espetáculo, no qual o olhar acentuado da atriz torna-se penetrante. Já o outro, Gustavo Falcão, “Jack”, personagem principal da trama, faz jus a oportunidade de viver um papel tão forte e nos expõe uma interpretação quase que cinematográfica. Sua entrega é sincera, feroz, e sua gana pela personagem nos fazer identificar com esse, brincando o perigoso jogo da tentação entre uma vertigem emocional e outra.

A iluminação de Paulo Cesar Medeiros, muito bem pontuada, completa com sensatez a direção de Paso. A elaboração funciona como uma escada para as passagens de tempo e serve como combustível para intensificar ainda mais os conflitos ali apresentados.

O cenário, proposto pelo próprio diretor e Luciana Falcon, é moderno e prático, atendendo perfeitamente a história. O figurino, desenvolvido por Luciana, segue de forma audaciosa a contemporaneidade da peça, trabalhando com cautela as cores e tons. A escolha pelo vermelho que remete as emocões, contrapõe com inteligencia o cinza que, por sua vez, induz a algo mais frio, racional.

A trilha sonora de Andre Poyart também merece um destaque, mesmo não estando muito presente na peça é responsável, junto com a iluminação, pela nítida transição do tempo.

“Race” não é só uma simples peça de teatro. É um produto de utilidade pública, concebida com muita sapiência e sinceridade, que precisa ser visto várias e várias vezes. Somos entregues a uma rede de intrigas que se dissolve aos poucos até um final extasiante. Uma verdadeira obra prima, embora tenha sido lançada no ano passado, entra para o hall das melhores peças desse ano.

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Crítica: Race
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