Crítica: Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto

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Já perto do final de “Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto”, a atriz e humorista Nany People descreve a artista biografada como “o único expoente [da comunidade LGBTQ+] até hoje que fez de tudo: cinema, TV, teatro”. Essa declaração ressalta a enorme importância de se conhecer e divulgar a biografia de Rogéria, uma vez que, com toda sua popularidade e aceitação pelos mais diferentes setores da sociedade brasileira ao longo de sua extensa carreira, foi responsável pela abertura de inúmeras portas até então inatingíveis para indivíduos como ela. Ao mesmo tempo, a fala de People implicitamente também aborda a dificuldade, ainda hoje, de se estabelecer artistas polivalentes pertences a grupos minoritários em um país conservador como o Brasil. Portanto, ao se considerar essas duas informações, percebe-se “Rogéria…” como um filme socialmente necessário, por mais que não seja tão bem-sucedido artisticamente.

O grande trunfo do documentário de Pedro Gui é a presença da própria Rogéria. Um verdadeiro ícone camp, de personalidade forte e propositalmente teatral, a artista imediatamente captura a atenção e a empatia do espectador, seja com suas tiradas ácidas ou com suas divertidas histórias. Dessa forma, os melhores momentos do filme são exatamente aqueles que acompanham Rogéria, em um conjunto de imagens realizadas em 2016 (cerca de um ano antes de sua morte), andando em Copacabana enquanto relembra seus tempos de palco ou sentada em um sofá, concedendo entrevista ao diretor. São essas filmagens que contêm alguns dos trechos mais interessantes do longa, especialmente aqueles situados na Galeria Alaska, como quando Rogéria tira selfies com fãs e faz sempre a mesma pose ou quando constata que a boate onde se apresentava décadas atrás, hoje abriga uma filial da Igreja Universal. Esses momentos, por mais descompromissados que sejam, sutilmente abordam temas pertinentes, como o culto à celebridade, os limites entre a pessoa pública e o indivíduo, e o conservadorismo, que visa ocupar (e apagar) espaços de transgressão e contestação.

Além disso, o diretor aproveita a popularidade e a visibilidade de uma figura como Rogéria para abordar a questão do gênero, ainda tão incompreendida e rejeitada por parcela da população. Por ser a “travesti da família brasileira”, como ela mesma se descrevia, a biografada representa uma ótima porta de entrada para essa discussão, uma vez que permite tratar do assunto de forma séria, mas sem necessariamente falar apenas para convertidos. A certa altura, a atriz Betty Faria, admitindo a sua própria confusão em relação a tantas denominações de gênero, afirma que Rogéria lhe ensinou muito do que sabe sobre o assunto e que ela, caso fosse das gerações mais novas, continuaria sendo uma ótima professora. O diretor Pedro Gui parece compartilhar dessa visão, uma vez que dá a Rogéria a plataforma para falar abertamente sobre sua relação com gênero e sexualidade, a qual ela comenta com muito bom humor e com um vocabulário bastante coloquial. Obviamente, há limites para essa abordagem – o assunto é deveras complexo; certos termos não são usados da mesma forma nos dias atuais; poucas respostas concretas são dadas, uma vez que a ambígua relação homem-mulher em Rogéria faz parte de seu apelo (o “duplo sentido” do camp, como diria a crítica Susan Sontag) –, porém ela desempenha um importante papel de, ao menos, introduzir esse tipo de discussão no grande público, sem, de um lado, descambar para a galhofa pura e simples, e do outro, isolar aqueles que possuem pouco conhecimento sobre o assunto.

Entretanto, “Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto” sofre com escolhas equivocadas de direção. Como forma de evitar reduzir seu filme a uma sequência de talking heads e montagens de manchetes de jornal e trechos de filmes e programas de TV, o diretor emprega, em determinados momentos, o uso de performances como forma de complementar as histórias contadas pelos entrevistados. Entretanto, Gui nunca encontra um tom em comum entre elas (ora remetem a apresentações de drag queen, ora a teatro filmado), como também pouco acrescentam de fato às falas da própria Rogéria e daqueles que frequentavam seu círculo de amizades. No final das contas, as performances apenas atrapalham o ritmo do documentário e ocupam um espaço que poderia ser usado para desenvolver mais os debates levantados pelo filme.

Em resumo, “Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto” é claramente um projeto feito com bastante afeição à sua biografada (vide a legenda que a denomina como “estrelíssima”) e que apresenta uma boa introdução à sua trajetória pessoal e profissional, como também à sua visão de mundo. Todavia, ao se limitar a apenas 82 minutos de duração e ser um tanto indeciso quanto à forma de contar a história de sua personagem, o longa de Pedro Gui acaba não se aprofundando mais, o que o impede de atingir todo seu potencial.


Imagens e vídeo: Divulgação/Pagu Pictures

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