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Crítica

Crítica: Silêncio

Em meio à violência e à corrupção dos universos que cria, existe uma moralidade cristã subcutânea no cinema de Martin Scorsese. A sacralidade muitas vezes se materializa através de singelos detalhes e construções visuais: crucifixos e ícones santos que ornamentam paredes e tatuam a pele de personagens, cadáveres em pose de crucificação – às vezes de fato crucificados –, indivíduos que em pé abrem os braços, também remetendo à imagem de Jesus Cristo na cruz; um mundo em que sacro e o secular caminham lado a lado.

Em sua filmografia, o tema não fica só na sugestão. Além de seus venerados “Taxi Driver – Motorista de Taxi” (1976), “Os Bons Companheiros” (1990) e “Cassino” (1995), o cineasta, que na juventude queria ser padre, colocou para fora sua relação com a religiosidade através de filmes como “A Última Tentação de Cristo” (1988) e “Kundun” (1997) e agora, após 30 anos de espera, realiza-se com a chegada de sua última obra às telas: “Silêncio”.

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Adaptado do romance homônimo de Shusaku Endo lançado em 1966, o novo filme dirigido por Martin Scorsese – que também escreveu o roteiro ao lado de Jay Cocks – é uma vigorosa reflexão sobre a natureza da fé e a persistência da crença diante de obstáculos que a colocam à prova. Adotando um tom austero ao longo de seus 161 minutos de projeção, “Silêncio” relata a jornada de dois padres jesuítas portugueses, Sebastian Rodrigues (Andrew Garfield) e Frascisco Garupe (Adam Driver), que no ano de 1640 vão para o Japão em busca de Cristóvão Ferreira (Liam Neesom), mentor dos jovens párocos, que há anos embarcou em uma missão catequizadora no país e nunca retornou. Na época, era proibido o culto cristão em terras japonesas, que puniam com violência – até com a morte – não só os catequizadores como os fiéis, conhecidos como kirishtans.

Estruturando a história em três momentos (uma breve introdução narrada por Ferreira, o percalço dos padres contado pelo ponto de vista de Rodrigues e o desfecho relatado por um cronista holandês), o longa é uma prova da segurança que Scorsese atingiu nesses mais de 50 anos de carreira. Bem sucedido em fazer o espectador se compadecer com o drama vivido por Sebastian, em sua direção abusa de planos subjetivos que nos obrigam a olhar, sob sua ótica, o sofrimento dos que estão a sua volta.

O diretor ítalo-americano não nos poupa das situações de extrema dureza: com uma câmera estável e um quadro médio, testemunhamos três homens crucificados no mar morrerem afogados; em um plongeé – recurso que registra a cena de cima – vemos um personagem decapitado ser arrastado na areia, figura que minutos antes acompanhamos, pelos olhos do padre, o momento da mutilação. Entretanto, apesar da dor, ele também consegue evocar delicadeza, como mostrar em primeiro plano a entrega de um crucifixo do sacerdote a um dos camponeses devotos, o que se repete durante a separação entre os dois, e a forma como capta os elementos da natureza, como a queda das gotas da chuva, a movimentação do mar e o crepitar do fogo – na única cena em câmera lenta do filme, o movimento das chamas rima com o que é executado pelo indivíduo em foco.

Por falar em técnica, a sonoplastia faz jus ao título do filme. Sem trilha sonora, a produção privilegia os sons diegéticos  – que acontecem na “vida real” da narrativa – e com o belíssimo trabalho da equipe de edição, somos imersos em cada barulho produzido pela floresta e pelo oceano, ambientes em que boa parte história se desenrola. Já a fotografia poderia dar uma aula para outros longas. Mesmo com peso dramático da trama, Rodrigo Pietro não cai na escolha óbvia de filtros acinzentados com o objetivo de ressaltar a severidade do enredo: mesmo com uma paleta de cores sóbrias, o filme não fica chapado e é eficiente em aproveitar a sua variedade cromática, conseguindo transformar planos em verdadeiras obras de arte.

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Mesmo ostentando um leque de qualidades, “Silêncio” não é perfeito. “O preço por sua glória é o sofrimento deles”, diz o inquisidor ao padre interpretado por Andrew Garfield. Soando às vezes maniqueísta, no filme os nativos cristãos sofrem porque são assassinados pelos próprios japoneses que os obrigam a cultuar o budismo, não pelo fato de que um grupo de homens brancos veio a seu país impondo aos mais pobres uma religião que substitua a originada no seio de sua cultura. Pelo contrário, em muitos momentos o longa faz com que os europeus saiam como os heróis que lutam contra os “malvados” asiáticos.

Da parte dos japoneses, até existem momentos de reivindicação. “Nós temos nossa religião padre, uma pena que vocês não perceberam”, afirma o tradutor das autoridades ao sacerdote em cativeiro. O problema é que a representação desses personagens é tão bidimensional e vilanificada, que se torna difícil compadecer-se com o seu drama.

Todavia, o conflito que ocupa o centro das atenções no filme não é o embate entre crenças, mas sim a crise individual na fé. Por suas quase três horas de duração, acompanhamos Sebastian Rodrigues entrar em questionamento da própria missão e lutar contra a dúvida de que sua religião é uma ferramenta de amparo ao sofrimento da vida terrena. Andrew Garfield entrega uma atuação sólida e consegue ir de um jovem padre esperançoso a um homem de sanidade mental fragilizada, que tenta manter-se crente mesmo diante do constante horror que o cerca.

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Eu rezo, mas estou perdido. Será que estou rezando para o silêncio?” Ter que esconder-se na floresta para conseguir dedicar-se a sua fé. Silêncio. Enfim morrer depois de tanta tortura e sofrimento em vida. Silêncio. Tentar falar com Deus e não obter resposta. Silêncio. O que fazer quando no alto do desespero quem deveria nos mostrar o caminho não nos responde? Essa é a questão que Martin Scorsese esperou 30 anos para trazer às telas e com beleza consegue mostrar uma resposta ao fim de sua explanação cinematográfica.

Para os que creem ou não, “Silêncio” é um filme duro, às vezes de difícil digestão, porém sensível ao tocar em um tema tão delicado quanto a fé. Talvez não seja a obra mais brilhante, ou que permanecerá em nosso imaginário quanto outros títulos do cineasta veterano, mas que é complementar às ideias, muitas vezes nas entrelinhas, presentes no universo Scorseseano.

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1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

2 Comments

2 Comments

  1. felipe

    1 de maio de 2017 at 17:51

    oi gente
    gostei muito desse site, parabéns pelo trabalho. 😉

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