Dormiu na sala porque era mais fresco. Não lembra se a televisão desligara sozinha ou se alguém havia feito isso para ela. Mas lembra que estava assistindo um programa onde as pessoas, para ganhar muito dinheiro, precisavam encontrar seu par ideal.

Esses realities da vida pós-moderna. “Tem que dar match”. Daí ela foi procurar que diabos essa palavra significava. Match: Pode ser jogo, partida… par. (É o dicionário quem diz, mas podia ser coisa dita pela vida.). [Ainda que a vida dissesse isso de maneira mais tupiniquim].

O relógio despertou uma, duas, três… algumas muitas vezes. Aquela ressaca pós carnaval não a deixava levantar. Não sabe se sonhou ou se realmente escutou um filhote de cachorro chorar a noite toda. Ela tem cinco –cachorros-não-filhotes. Uma família. Um pai, uma mãe e três filhas. É bem mais estruturado que muita família de gente.

Enfim levantou. Cada cachorro no seu lugar. Cada bagunça também. Como vício pegou o celular e descobriu que ele não carregou. Não é só a vida que anda torta… as tomadas da casa também.

Foi ao banheiro. Banheiro sem porta. Privacidade não tem mais nem no banho. Pedreiro bom… pedreiro legal… achou que a onda era tirar todas as portas da casa. E depois de dar prejuízo (hoje mais emocional que financeiro), foi embora falando que ela era caloteira. Aff… Ela quis pagar. Pagar em telhas, oras. Ele quem não quis receber. Sério, quem em sã consciência pede vinte e oito telhas e só usa sete?! E o pior…acha que isso é normal… “sempre sobra um pouco de material”, ele disse.

Abriu a janela para deixar o sol e o calor entrarem. Recebeu cinco lambidas no nariz, de “bom dia, mãe”. Isso a faz se sentir viva todos os dias. As lambidas, o sol, a janela… porque porta não tem, mas janela… essa é para a alma.

Sentou no sofá para dar uma organizada na cabeça. Acabou o carnaval. Ano Novo às avessas agora, enfim, as coisas iam começar. Ou não… sua aluna mandou mensagem dizendo que não poderá ir à aula hoje. E ela pediu demissão do outro trabalho porque pode não ter dinheiro, mas tem ética. E um nome… um nome a zelar.

Em tempos de crise, pedir demissão foi um ato de coragem. Ou de loucura. O fato é que nessa de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, ela preferiu não arriscar. Carrega consigo que se ela faz tudo certo, o Universo conspira a seu favor. E na boa… muita farinha dá prisão de ventre e ela não tem nem porta no banheiro.

Mas… justa com ela, com os alunos… com o nome a zelar, resolveu que ia cumprir o aviso prévio. A-v-i-s-o-p-r-é-v-i-o. Meu, isso poderia ser usado na vida. Se você não gosta mais de alguém, por exemplo, avisa com um mês de antecedência. E aí outra pessoa pode passar por todas as fases (choro, tristeza profunda, raiva…) com justificativa e tempo pra acabar. Daí, um mês depois ela ia viver vida nova.

Dia desses, sua mãe estava lhe ensinando a cozinhar coração de galinha. “Coração, tanto de galinha, quanto de boi, quanto mais cozinha, mais duro fica.”. Estávamos falando de comida, mas carrega isso para sua vida e vê isso não faz sentido?!

[Acho que o coração dela cozinhou demais.]

Olhou o relógio, 08:57…

Bora levantar que o carnaval acabou.

Ou não… só mais cinco minutinhos.


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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4 thoughts on “Crônica do coração de galinha

  1. Eu acho que essa crônica é bem atual kkkk mas pensando bem tudo no final estará no eixo correto inclusive as posições das tomadas e com porta e tudo

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