Crítica: Space Dogs

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Entre as décadas de 50 e 60, durante a corrida espacial disputada pelos EUA e a União Soviética, houve, talvez, os experimentos mais cruéis feitos com animais na história da ciência. Primeiro os russos enviavam a capsula Sputnik 2 com a cadela Laika a bordo. Depois foi a vez dos EUA enviarem o chimpanzé Ham. A principal diferença entre os dois é que Laika morreu após o entrar em órbita, enquanto Ham sobreviveu e voltou à terra. Mas, de fato, os dois sofreram muito entre a preparação e o envio ao espaço. Para homenageá-los, Elsa Kremser e Levin Peter fizeram “Space Dogs”, uma espécie de documentário, onde os principais personagens são cachorros de rua de Moscou.

O filme intercala imagens de arquivo das experiências da União Soviética com os registros dos cachorros de rua que vagam pela capital russa.  Apoiando-se na lenda de que todos os abandonados na cidade são reencarnações da cadela Laika, a câmera de Kremser e Peter os seguem às margens da cidade. São sem tetos, velhos, doentes e abandonados. Praticamente como objetos descartados. Com um tom filosófico e melancólico, “Space Dogs” aborda o dia a dia desses animais, como andarilhos a procura de comida e água.

Além dos cachorros, um chimpanzé também ganha atenção como a reencarnação de Ham. Porém, suas glórias de astronauta ficaram na vida passada, já que agora é apenas um animador adestrado de festas infantis. Juntando-se ao grupo, há ainda duas tartarugas, que representam suas irmãs que entraram em orbitar pelas mãos, novamente, dos russos no final dos anos 60. Três espécies exploradas que, ou são descartadas como lixo espacial, ou viram atração de circo e objetos para fotos.Os humanos são os grandes vilões dessa história de descaso e o naturalismo das imagens pode chocar aos mais sensíveis, principalmente quando são mostradas a cenas onde os cientistas enfiam os animais em máquinas rotatórias e nas capsulas apertadas, não sem antes espetar sondas em seus órgãos genitais e em suas veias. Ainda há certo choque em momentos protagonizadas pelos cachorros, como na cena sem cortes que mostra um gato sendo estraçalhado, para depois ter sua carcaça disputada violentamente. Evidentemente, é possível traçar um contraponto entre os dois casos: o instinto de sobrevivência do animal de um lado e a frieza despropositada do humano do outro.

Sim, além de homenagear, “Space Dogs” denuncia atos que ainda são comuns nos dias de hoje em laboratórios de pesquisa. No passado, a desculpa era a descoberta do cosmo, agora é o desenvolvimento de remédios e produtos de beleza.  O longa consegue cumprir o papel pensado pelos realizadores, e apresenta um formato diferente, sem a inclusão de atores humanos como protagonistas. Aqui o homo sapiens é mero figurante, com todo o merecimento.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo


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