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CríticaFilmes

Crítica: Viver para Cantar

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
11 de outubro de 2019 2 Mins Read

Outlook shrvpc5mA arte é o reflexo da sociedade, por isso não é de se estranhar que inúmeros filmes atuais estejam discutindo os efeitos destrutivos do capitalismo exacerbado. Geralmente, no centro das histórias, há um personagem ou um grupo de personagens que lutam contra o poder avassalador do dinheiro. No Brasil, só para dar um exemplo, há “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho, que mostra a resistência de uma mulher de meia idade ao se negar a vender seu apartamento para uma grande construtora.

É fácil lembrar de “Aquarius” quando a trama de “Viver para Cantar” de Johnny Ma começa a tomar forma. Nele, uma trupe de atores, que apresenta uma espécie de ópera chinesa, enfrenta a iminente demolição do teatro onde está instalada, em um bairro pobre de uma grande cidade chinesa. No local, pretende-se construir imponentes edifícios (como em “Aquarius”), só que a líder da trupe não aceita a demolição, e fará de tudo para conseguir manter o teatro (como a personagem de Sônia Braga).

O filme de Mendonça Filho fala sobre memórias sendo destruídas em prol do lucro, o de Ma é similar, mas incluí a arte na equação. A cultura antiga vira escombros de um canteiro de obras comandado por corporações. Os jovens tecnológicos, que formam seus gostos pela internet, não terão acesso a essa cultura, ela ficará apenas nas lembranças dos idosos, até que esses a levem ao esquecimento da morte.

Viver para Cantar

Em “Viver para Cantar” essa morte é definida quando o colorido das maquiagens e dos figurinos dos atores, assim como o lúdico da cenografia do palco, dão lugar ao cinza da poeira dos restos de concreto demolido. Essa é a visão de um China refém de uma força que polui seu ar, destrói sua cultura e corrompe sua população.

Em um país superpopuloso, onde as pessoas são tratadas como semi-escravas, todos se acostumaram a apenas abaixar a cabeça e receber seu misero salário no final do mês. Não possuem tempo para se preocupar com arte. Os artistas até tentam se sustentar em seus ofícios, mas a pressão que vem das dívidas os impede de viver plenamente. Sempre estão procurando algo minimamente relevante para empregar suas habilidades.

O que resta é transformar a destruição e o desamparo por meio da ilusão. Em certo momento, monta-se um musical onde a música antiga ressoa em meio dos ferros retorcidos. Só assim para que o fardo da vida não acabe de soterrá-los de vez.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo. Ele ainda não possui trailer disponível.

 

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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