Crítica: The End of the F***ing World

A adaptação dos quadrinhos de Charles S. Forsman, “The End of the F***ing World”, ficou responsável pelo Channel 4 que, através da parceria com a Netflix, permitiu que a série alcançasse um grande público. Com todas as doses possíveis de humor negro, palavrões e adolescentes considerado problemáticos (afinal, o Channel 4 criou o maior esteriótipo adolescente do mundo em Skins), durante oito episódios acompanhamos James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden).

James é um psicopata de 17 anos. Ele aponta características que explicam seu comportamento, aos 9 anos queimou a mão no óleo quente para sentir alguma coisa, tinha uma fixação em matar animais e nenhum senso de humor. Além disso, sua maior idealização era matar alguém. Do outro lado temos Alyssa (Jessica Barden), uma menina sociopata e bipolar, cansada da própria vida em que é menosprezada pela mãe e pelo padastro, cujos olhares são apenas para seus bebês gêmeos. Um dia, durante o intervalo de aula, Alyssa se aproxima de James o insultando, e os dois se aproximam por conveniência: ele, pelo desejo de matá-la e ela, por ver nele a de largar tudo pra trás. Assim, a dupla sai criando uma enorme bola de neve de problemas e descobertas pessoais.

James e Alyssa são o reflexo de jovens criados em famílias desestruturadas. Na narrativa, James presencia o suicídio de sua mãe e Alyssa, após rever seu pai, descobre que ele não é exatamente quem ela imagina. A frustração pessoal de cada personagem é muito evidente na atuação de Lawther e Barden. O casal não tem a menor química, mas isso nem é uma questão a se investir, pois individualmente os dois atores estão muito bem em seus papéis e seus personagens se complementam conforme a trama anda. A maior dificuldade é desvincilhar Alex Lawther de seu personagem Kenny em “Black Mirror”, no episódio “Manda Quem Pode”. O ator tem uma facilidade para interpretar personagens “esquisitos”,  por isso sua atuação se destaca independente de contracenar ou não com Barden. Mas, a menina também não decepciona com Alyssa.

A questão é que os comportamentos dos adolescentes são explicados por suas famílias, já que o pai de James não sabe como conviver com o filho e cria uma versão hiper cuidadosa paterna e a mãe de Alyssa não foge do esteriótipo machista de mulher que vive em função de homem. Por isso, a necessidade urgente dos dois filhos de sair do ninho e se aventurar sem pensar em consequências. Quem chega a essa conclusão após alguns episódios é a delegada Eunice Noon (Gemma Whelan, de “Game of Thrones”). Com sua parceira, a delegada Teri Donoghue (Wunmi Mosaku), elas assumem o caso dos dois jovens que, após cometerem um assassinato (evidentemente em legítima defesa) e assaltos de diversas proporções, começam a ser procurados pela polícia. O que por um lado prende o espectador a acompanhar a história dos dois, por outro questiona a necessidade de certas questões por parte do roteiro de Charlie Covell.

De dez palavras escritas no roteiro de Covell, nove são palavrões, a maioria expressados por Alyssa, que consegue fazer o público sentir pena e raiva de suas atitudes. Mesmo assim, a necessidade de atenção da protagonista verbalizada com tantos xingamentos incomoda, junto da a grosseria gratuita e a estupidez natural da personagem. Mas, a roteirista também investe em ir no mais profundo de ambos os personagens afim de sensibilizar o público para notar como tudo isso é culpa da família. No último episódio, Alyssa e James são novas pessoas, diferentes de quem eram no episódio piloto. James consegue se tornar mais sensível e Alyssa firma o pé no chão depois de 164 minutos nas nuvens.

Mas algumas coisas não são tão bem explicadas nessa primeira temporada, como o relacionamento pessoal das duas delegadas que diversas vezes, em uma narrativa bem lenta e sem começo e fim, é inserida no meio do caminho de crimes do casal protagonista. Em que isso é relevante pra trama? Não é explicado. Mas, pode ser que na próxima temporada ganhe mais destaque.

Agora, o melhor da série é definitivamente a trilha sonora, que mistura diversos estilos e é assinada por Graham Coxan. “Walking All Day” e “Angry Me” certamente merecem destaque. Além disso, a fotografia e os tons da série, que transparecem em seus personagens não passam despercebido, já que Alyssa usa tons mais quentes e James, mais frios. Essa característica também é essencial quando falamos que os personagens se complementam, mesmo sem química.

Por fim, “The End of The F***ing World” não é uma série pra todo tipo de público, é debochada, desbocada e sem nenhum tipo de pudor. Mas, como toda série que se propõe a falar da tão temida fase da adolescência, cumpre sua missão. Apesar disso, uma segunda temporada não soa necessária, mas alguns pontos foram deixados em aberto e precisam de um fim, assim, ela já foi renovada. A série está disponível em oito episódios na Netflix e a trilha sonora oficial pode ser encontrada aqui.

Crítica: The End of the F***ing World
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