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CríticaFilmes

Crítica: Um amor de vizinha

Avatar de Convidado Especial
Convidado Especial
11 de novembro de 2017 3 Mins Read
O chato mora ao lado

umamordevizinhaPOSTER

Ingredientes saborosos nem sempre resultam em um prato delicioso: depende do preparo, da mistura com outros elementos que podem não ser tão bons. “Um amor de vizinha” é o produto final de uma receita bem fraquinha: atores consagrados, alguns diálogos bem escritos, mas a fórmula é desgastada e falta tempero.

O estranho é que o diretor e o roteirista do longa já foram responsáveis por obras de sucesso. Apenas para citar exemplos significativos, Rob Reiner dirigiu “Harry e Sally: feitos um para o outro” e Mark Andrus roteirizou “Melhor é impossível”. Aliás, o personagem de Jack Nicholson no filme de 1997 tem um ponto em comum com o de Michael Douglas em “Um amor de vizinha”: a rabugice.

Oren Little é um corretor de imóveis que insiste em vender a própria casa por um valor bem superior tentando agradar possíveis compradores usando uma estratégia politicamente incorreta. Enquanto isso, mantém residência numa espécie de microcondomínio chamado “Pequena Shangri-La”, onde constantemente atazana os moradores, seja reclamando das crianças ou bloqueando o espaço destinado ao estacionamento de forma a causar problemas a uma vizinha grávida, que teria dificuldade para sair de casa no caso de uma emergência.

Depois de anos, seu filho Luke (Scott Shepherd), ex-viciado em heroína, aparece com a notícia de que tem uma filha prestes a completar dez anos de idade e que como irá ter que cumprir pena de nove meses na prisão, pede que Oren tome conta da neta. É claro que ele recusa, mas Luke leva a menina mesmo assim, e quem acaba por acolher a criança no início é Leah (Diane Keaton), a vizinha.

Embora o roteiro seja morno, as falas de Oren são interessantes por sua acidez e sinceridade constante e inadequada. Leah canta em um restaurante e ele propõe agenciá-la para que ganhe um cachê melhor. O modo que encontra para tentar convencê-la não é nada elogioso: “Já vendi casas mais velhas que você e em condições muito piores”. Quanto à Diane Keaton, embora seja inegável o talento da atriz, neste papel ela parece fazer uma versão madura de um personagem seu de décadas atrás: Annie Hall (“Noivo neurótico, noiva nervosa”, direção de Woody Allen). Tudo por conta de seus trejeitos e do modo de falar. Sterling Jerings, como Sarah, a neta, é bastante natural e carismática. Dentre os coadjuvantes, a atriz Frances Sternhagen (Claire, que trabalha na imobiliária) poderia ter sido mais aproveitada, já que sua participação, ainda que pequena, não passa despercebida por sua fina ironia.

umamordevizinha2

“Um amor de vizinha” é um filme de diálogos. Não há muito destaque em aspectos como fotografia e enquadramentos. Uma exceção neste sentido é a abertura do filme em que uma tomada aérea percorre desde um local com muitos barcos ancorados, passa por ruas arborizadas, segue o carro de Oren até chegar ao cemitério em que sua esposa está sepultada. Funciona para prender a atenção no início, mas não passa disso. Outra fraqueza do filme é a inconsistência da trajetória de Oren, em questões de comportamento: sabemos que, na maioria das vezes, ninguém é apenas bom ou ruim, mas ele sofre transformações pouco críveis considerando o tempo dos acontecimentos no filme.

Levando em conta a previsibilidade do roteiro, é difícil entender porque Diane Keaton e Michael Douglas se interessaram por esse trabalho. Será que a tão cultuada juventude em Hollywood tem diminuído suas oportunidades de fazer bons papéis? Ao mesmo tempo, vem acontecendo um crescimento de filmes que tem como protagonistas pessoas já na terceira idade, o que é bastante positivo, afinal essas pessoas existem, tem uma vida, interesses e desejos, e já foram por tempo demais ignoradas pela indústria cinematográfica. Espera-se que atores mais velhos continuem ocupando um espaço de destaque, mas de preferência em produções mais bem feitas, a altura de seus talentos.


Neuza Rodrigues

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Comédia RomânticaMichael DouglasNetflix

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