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CríticaFilmes

Crítica: Um Banho de Vida

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Luiz Baez
19 de março de 2019 3 Mins Read
“Em um mundo onde as pessoas se isolam, temos medo um do outro.”

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“Essa história não trata de mais nada a não ser de uma contradição geométrica”, adianta a narração de Mathieu Amalric (“O Escafandro e a Borboleta”). Não, não é um filme sobre matemática. A tal contradição, na verdade, não passa daquela entre o círculo e o quadrado. Símbolo da liberdade, o primeiro perde suas características e ganha ângulos retos. Como? Por meio de uma moralidade “quadrada”, explica a voz em off.

Quadrada como a comida da escola. Quadrada como o fim de um relacionamento. Quadrada como a vida empresarial. Assim Bertrand (Amalric) apresenta os demais protagonistas de “Um Banho de Vida” (Le grand bain, 2018), sucesso de bilheteria em território francês.

Roqueiro frustrado, Simon (Jean-Hugues Anglade) lançou 17 CDs, todos de produção própria. Sem sucesso, contudo, hoje toca a guitarra em asilos e mora em um trailer estacionado ilegalmente. Sua verdadeira fonte de renda é a quadrada comida da escola. Trocando em miúdos, ele trabalha na cantina do colégio da filha.

Laurent (Guillaume Canet), por sua vez, é quadrado como o fim de um relacionamento. Engenheiro-chefe de uma construtora, ele concilia a pressão do trabalho com a gestão da família: ou, melhor, tenta conciliar. A falta de diálogo, afinal, pode ter desencadeado um problema de fala, sugere o fonoaudiólogo do filho.

Quadrado como a vida empresarial, por fim, Marcus (Benoît Poelvoorde) administra a Piscin’ Love, sua quarta empreitada falida. Sonhando ser Gordon Gekko, personagem de Michael Douglas na franquia “Wall Street” – composta pelos longa-metragens “Wall Street: Poder e Cobiça” (Wall Street, 1986) e “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (Wall Street: Money Never Sleeps, 2010) -, o iludido homem de negócios atesta os reveses do capitalismo.

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Compartilhando frustrações, Simon, Laurent e Marcus integram uma equipe de nado sincronizado masculino. É nessa situação que se torna possível uma transferência de desejos. Marcus pode não ser um empresário de sucesso. Laurent pode não ser um pai e marido exemplar. Simon pode não ser uma estrela do rock. Juntos, porém, são um time vencedor.

A hipótese da transferência ganha força, ainda, se analisada a dupla de treinadoras, Delphine (Virginie Efira) e Amanda (Leïla Bekhti). Impossibilitadas de vencer enquanto competidoras, elas depositam esperança nos desajustados pupilos.

Ao lado de companhias tão singulares, Bertrand encontra terreno ideal para recuperar-se da depressão. Em contraste com o mundo exterior, que lhe nega até o nome – ele precisa trabalhar sob a alcunha de Jean-Luc -, a piscina é o círculo não só de liberdade, mas também de resistência a uma vida quadrada.

Presenteado com complexas personagens e atuações dignas de estrelas do cinema francês, “Um Banho de Vida” oferece um interessante contraponto à burocratização do cotidiano. Conta, para tanto, além de um competente roteiro, com uma sólida direção de Gilles Lellouche (“Problemas de um Dorminhoco”). Entre a criativa metáfora geométrica e os jogos de zoom e reflexos, o cineasta desmascara, enfim, a supressão de individualidades em nome das aparências.

*  O filme estreia dia 21, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Pagu Pictures

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Tags:

Cinema FrancêsComédiaComédia DramáticaDramaFilme francês

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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