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Crítica de TeatroEspetáculos

Crítica: Utopia D – 500 anos depois

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Convidado Especial
8 de fevereiro de 2018 3 Mins Read

UTOPIA D, de Thomas More, 500 anos depois, se torna um reflexo bem atual no palco pelo olhar de Moacir Chaves

Utopia D cartaz 1 e1517967158387

500 anos após Thomas More escrever sobre a sociedade alternativa e perfeita da República de Utopia, o diretor de teatro Moacir Chaves – considerado pelo crítico Nelson de Sá (Folha de São Paulo) como “uma autoridade na transposição de textos não teatrais para o palco” – leva ao cenário teatral carioca a peça: “Utopia D – 500 anos depois” encenada por Josie Antello e Julio Adrião. É impossível assistir sem associar as críticas profundas do texto ao contexto político social pelo qual o cidadão brasileiro tem vivido.

A obra de More é dividida em duas partes. A primeira critica as diretrizes inglesas da época e a segunda apresenta a legislação sob a qual vivem os utopianos. Dentre as inúmeras leis ideais criadas pelo autor, na república em questão não existe opressão do estado e nem fanatismo religioso. Além disso, a constituição é simples, objetiva e de fácil entendimento, tendo em vista que o judiciário brasileiro se torna cada dia mais assustador, o espetáculo se torna uma boa reflexão da nossa atual conjuntura. Tanto Josie Antello, que também assina a direção de movimento, quanto Julio Adrião, consagradíssimo por “A descoberta das Américas”, provam que são capazes de utilizar seus corpos com uma maestria inigualável. Os atores são molas em cena disponíveis para se tornarem o que bem entenderem.

A plateia fixa os olhos na atriz quando a mesma realiza uma sequência – que remete a uma dança com origem na Índia – e consegue enxergar cada personagem que constitui toda uma família interpretada por Adrião. O caráter humorístico e provocador são apostas felizes da direção que trazem proximidade e conexão para com o público.

Utopia Dd

Num certo momento do espetáculo, os atores repetem o que já disseram antes, um risco da direção que para alguns pode ser algo redundante, mas o mérito dessa escolha é oferecer a quem assiste um entendimento muito mais profundo. Além disso, os atores mudam drasticamente a maneira de dar o texto, logo, a sensação de estar assistindo a mesma coisa passa com rapidez.

Toda a funcionalidade do espetáculo é simples e objetiva – assim como em Utopia D. O cenário dispõe de poucos objetos – bancos pequenos, uma mesa de centro e uma caixa de som – e os próprios atores em cena operam o som através de um Ipod aparelhado a caixa. Os figurinos são simples, Antello veste algo um pouco mais requintado, mas no geral, trata-se de roupas neutras que oferecem uma fácil movimentação.

A iluminação está a serviço da dupla em cena, sempre colocando-os como protagonista e não o contrário. É importante salientar o que o próprio nome diz, trata-se de uma sociedade utópica cujo nome se origina do grego: “u” é um advérbio de negação e “tópos” significa lugar. “Não lugar”, portanto, ou lugar inexistente, é o modo irônico com que o pensador, um adepto fiel da igreja católica, batizou sua sociedade perfeita, logo, apesar de compor uma bela aula de cidadania, tanto o texto quanto a peça são sonhos distantes, quiçá impossíveis. Porém, assistir ao espetáculo é imperdível para quem quer rever, criticar e entender os dias de hoje. Moacir Chaves faz uma reflexão sobre as possibilidades da vida em sociedade, do sentido e da verdadeira necessidade de uma sociedade gerida por forças tão opressoras.


Por Rayza Noiá

Utopia Dd
Crítica: Utopia D – 500 anos depois
Sinopse
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