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CríticaFilmes

Crítica: Utøya – 22 de Julho

Rodrigo Chinchio
22 de outubro de 2018 3 Mins Read

eK4pwtFT9J0PdaIHQwJlbHMZ12YÉ difícil acreditar que a Noruega foi palco de um dos atentados terroristas mais sangrentos da Europa, com mais de setenta e sete pessoas mortas e outras centenas feridas. Em “Utøya – 22 de Julho” o diretor Erik Poppe mostra de forma crua os momentos de terror no acampamento que dá o nome ao filme. No fatídico dia, inúmeros jovens filiados ao partido trabalhista faziam um tradicional encontro fraternal, quando um homem, em posse de um arsenal de guerra, disparou contra todos que via pela frente. Com ideais da extrema direita, o sujeito acreditou estar fazendo uma limpeza em seu país, livrando-o das diversidades. Tanto que, em seu julgamento, se declarou inocente por ter agido em legitima defesa. Além da ação no acampamento, ele também explodiu uma bomba em um prédio do governo.

O filme que conta essa história começa com Kaja (Andrea Berntzen) se dirigindo para a câmera e proferindo as seguintes palavras: “Vocês nunca entenderão. Deixe que eu mostre”. No entanto, no momento seguinte, é possível perceber que ela está falando com a mãe pelo fone de ouvido plugado no celular e não com o espectador. A partir desse momento, a câmera seguirá Kaja em um plano sequência de uma hora e meia (na verdade, se trata de um falso plano sequência, onde os cortes são imperceptíveis), levando ao pé da letra a sua promessa de mostrar o que aconteceu.

Poppe filma como se sua câmera fosse um dos jovens se escondendo na floresta para fugir do assassino. Então, assim que Kaja encontra um esconderijo em alguns arbustos, a câmera se esconde junto com ela e, quando ouve o barulho dos tiros ao longe, se movimenta para “olhar” o que está acontecendo, como se fosse uma pessoa levantando a cabeça cuidadosamente por cima de um obstáculo. O assassino em si nunca é mostrado claramente, para, evidentemente, não humanizar o terrorista ou mesmo dar voz as suas loucuras (assim como faz o filme 22 de Julho de Paul Greengrass, que fala sobre o mesmo assunto). Também não há violência gratuita, por isso, o sangue serve apenas para reforçar o drama.

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Para filmes que exploram um único plano sem cortes, é muito importante que o elenco esteja afiado. De outra forma, a força dramática se perde. Os atores precisam ser de qualidade, já que interpretações ruins não poderão ser cortadas na montagem. Aqui o elenco se destaca, principalmente com uma protagonista competente em construir o desespero de forma gradual enquanto procura sua irmã pela floresta. Ela é uma das líderes do grupo, então, tenta ajudar os outros, sofrendo com eles. Berntzen entrega um desempenho contido para não destoar do clima do filme e cair no campo teatral.

O naturalismo que lembra um documentário é importante para chocar e alertar que aquilo realmente ocorreu em um país que possui alta qualidade de vida, onde a educação, a cultura e a ciência são extremamente valorizadas e a democracia é praticada plenamente. O que será então de repúblicas pobres economicamente e, principalmente, intelectualmente se algo do tipo as atingir? Será que suas frágeis instituições sobreviriam ou seriam desfeitas? Infelizmente, com essa pergunta, é impossível não associar aquela Noruega de 2011 com o Brasil de 2018/2019, enquanto esse texto toma forma. Basta torcer para que a violência vista lá não se repita aqui, e mais inocentes percam a vida por causa da visão de mundo deturpada de algum maluco fascista.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 

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Me siga Escrito por

Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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