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CríticaFilmes

Crítica: Suspiria (1977)

Convidado Especial
9 de novembro de 2018 5 Mins Read

sus4“Suspiria” é um filme de terror clássico dirigido por um dos mestres do gênero, o italiano Dario Argento, que ganha um remake lançado esse ano. O filme mostra uma jovem americana chamada Suzy Bannion (Jessica Harper) que viaja à Alemanha a fim de ingressar em uma conceituada academia de ballet, com uma aura de mistério e mortes estranhas de pessoas ligadas ao local, a protagonista descobrirá que não se trata apenas de uma escola de dança.

Logo na cena de abertura no aeroporto, cores vibrantes saltam à tela, principalmente a iluminação avermelhada que banha a protagonista, ao caminhar até a porta, que dá para a rua, onde uma tempestade acontece, a montagem alterna entre um plano da garota vista de frente andando em direção a saída, acompanhada do som ambiente do aeroporto e um plano subjetivo da visão da protagonista aproximando-se da porta.  

Aqui, o som ambiente dá lugar a uma trilha misteriosa e sugestiva que funciona quase como um aviso a personagem para não seguir em frente, quando ela cruza a porta, temos um plano detalhe do mecanismo que abre, deixando a recém chegada passar e fecha com um som seco e cortante, parecendo não apenas um mecanismo banal encontrado em qualquer porta automática mas sim uma armadilha que acaba de capturar sua presa.

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A trilha sonora composta pela banda de rock progressivo “Goblin” dá a atmosfera que o filme precisa, com um tema que se repete e acrescenta progressivamente elementos como sussurros que além de manter o suspense, funcionam como um lembrete de um mal invisível que ronda a personagem, a qualquer hora podendo dar as caras. Além disso, contribui para o ambiente onírico que permeia toda a produção, em vários momentos o longa parece retratar um sonho/ pesadelo.

O crédito disso não está apenas na música,  mas também na fotografia, marcada por cores fortes e luzes que não se prendem ao realismo, conferindo composições ora coloridas, ora monocromáticas, sendo comum termos cenas inteiras totalmente vermelhas, verdes ou azuis. A escolha por planos abertos com bastante profundidade de campo (principalmente em cenas internas) com leves distorções nas extremidades da imagem, causadas pelo uso de uma lente grande angular (lente de grande angulação usada frequentemente para captar grandes espaços ou campos) também contribui para o clima de fantasia presente na obra, além de aproveitar ao máximo as suas locações.

Se a trilha funciona como um mal invisível que está a espreita, a montagem, alinhada com movimentos de câmera específicos em momentos de tensão só salientam essa sensação, um  exemplo é a cena da morte do pianista cego, uma das melhores do longa, onde acompanhado de seu cão guia o homem sai de um bar e caminha por ruas pouco habitadas e silenciosas, a trilha volta a aparecer e em um plano aberto e mostra o homem chegando na Königsplatz (praça alemã que detém um conjunto de edifícios históricos que datam do século XIX), ele e seu cão estão completamente sozinhos e o animal começa a latir em diferentes direções.

Aqui, temos uma variação de planos próximos com planos extremamente afastados, o homem tenta acalmar o cachorro, talvez uma forma subconsciente de acalmar-se, porém seu medo é evidente, ele muda de direção e dá as costas a câmera, que o segue em um travelling (movimento onde a câmera não é estável e desloca-se pelo cenário), a montagem corta para outro travelling, mas dessa vez mais afastado que move-se lateralmente atrás de colunas e aqui a sensação é que o espectador está vendo através dos olhos de um predador invisível que atormenta-o, aqui, mais desesperado que antes, essa sensação aumenta quando uma enorme ave de mármore em um dos edifícios é mostrada. Em seguida, o filme corta para uma câmera subjetiva que imita a movimentação de uma ave dando um rasante próximo ao homem, o espectador mesmo podendo enxergar toda cena é posto no mesmo lugar que o pianista já que não faz ideia de onde virá o ataque e o desfecho consegue ser surpreendente.

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O roteiro conta uma história simples sem muitas reviravoltas e as coisas mais marcantes do filme não são seus diálogos, talvez o espectador mais acostumado a filmes modernos, principalmente os blockbusters ache o ritmo um pouco lento em alguns momentos já os que primam por um filme mais “realista” podem torcer o nariz para algumas escolhas criativas, como a cor mais clara e chamativa do sangue ou alguns efeitos práticos como um morcego que ataca Suzy em uma determinada cena (esse efeito, em específico, realmente não envelheceu muito bem).

Porém, não se prender a uma certa verossimilhança é um dos fatores que tornam o filme icônico e visualmente fascinante, onde não só uma ótima fotografia, a qual já comentamos aqui, alinhada com uma deslumbrante direção de arte, que faz da academia de dança, com seu hall de entrada azulado, seus corredores avermelhados, suas portas altas com  maçanetas na altura da cabeça dos atores, um personagem tão vivo quanto qualquer outro, mas também da narrativa cinematográfica que nunca é deixada de lado em detrimento dessas características, vide uma das cenas em que uma aluna, amiga da protagonista está no quarto com ela e tenta alertá-la sobre os perigos ocultos da casa e seu desespero em sair dali.

A personagem principal, porém acaba adormecendo, a câmera afasta-se e sobe até a altura do teto, ficando atrás de uma lâmpada, que apaga e o quarto em que elas estão fica inteiro esverdeado, isso pode parecer apenas uma opção estética, mas mostra o domínio narrativo da direção, que sabe que se simplesmente o quarto ficasse esverdeado sem antes mostrar a lâmpada apagando o espectador poderia ficar perdido, entretanto ao filmar desse jeito, o espectador sabe que mesmo podendo enxergar as duas personagens elas estão no escuro.

“Suspiria” é uma obra prima, uma ópera gótica que parece ter saído dos sonhos (ou pesadelos) de seus realizadores, ganhando vida nas telas do cinema e que, com certeza merece seu lugar de destaque no panteão dos grandes filmes de terror de todos os tempos.


Por Augusto Dias

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Tags:

filme de terror

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