Antigamente eu fazia apostas com o Universo. Se quisesse muito fazer algo, mas me faltasse coragem, as coisas eram definidas de acordo com as cores das blusas de estranhos na rua.

Por exemplo: se eu desejasse muito um livro, mas o dinheiro estava curto – e eu ainda assim achava que dava pra comprar – escolhia na minha cabeça duas cores de blusas (quanto mais diferente melhor!).

Uma cor para “sim, compre o livro”, e outra para “tá doida?! Nada de livro esse mês.” E lá ia eu pela rua, fanática pelas pessoas e suas camisas.

Nem sempre a resposta era positiva. Mas o Universo é sábio em tudo que faz. [E eu nem tão resiliente assim.].

Uma vez, um ex-namorado me deixou no trabalho e disse que ia assistir uma exposição. Eu, calejada com os chifres que a vida me dera, desconfiei que ele não ia sozinho.

(Chifres são coisas fantásticas! Uma vez que a pessoa os ganha, se fossem visíveis a olhos nus, a gente até poderia emprestar a cabeça para que as pessoas passassem a mão neles. Sério… eles dão sorte!)

Enfim… Depois de muitas negativas, ou “deixa de ser maluca, eu estava sozinho.“, resolvi apelar pro Universo.
Se eu entrasse no metrô e encontrasse alguém com a camisa do Brasil, lá estava sendo corna outra vez. Se não visse ninguém, ok… eu só estava dando voz às minhas esquisitices.

Pois bem; metrô em horário de rush é o oh! Reza pra conseguir entrar e deixa a maré te levar na hora da saída. Isso quando você só consegue descer a base do grito: “mermão… sai da frente!!!!!”
E olha lá… nessa maré de gente cansada querendo voltar pra casa, quem foi o peixe que me empurrou pra fora?! Um senhor TODO em verde/amarelo.

Cara… Sério… a gente nem estava em época de copa do mundo. Não tinha jogo do Brasil. E as manifestações  da CBF estavam longe de acontecer. O que aquele homem estava fazendo no Metrô, oito horas da noite, vestido com o uniforme (sim UNIFORME) da seleção brasileira?!

Se não era o Universo falando “acorda, minha filha”, então era uma coincidência muito da infeliz. Mas pouco tempo depois meu namoro acabou, e o Universo provou que estava atento a tudo que eu fazia (e pedia!).

Depois que comecei a trabalhar em Botafogo, eu comia na mesma padaria, sentava no mesmo lugar e pedia exatamente na mesma coisa: suco de laranja e pão no bafo.

[Pão no bafo: o cara pega um pão francês, passa manteiga, dá um susto nele na chapa e pah! Pão no bafo!… Aqui precisava fazer esse adendo, porque sempre imaginei o padeiro baforando meu pão antes de me servir… ]

Na padaria, do lugar onde eu ficava, dava para ver uma senhora, também sempre no mesmo horário, limpar a janela.
Era o meu presságio de um dia bom.
Chamava isso de “Milagre da segunda-feira.”

No dia que ela não estava lá, nossa. Dava um nó na garganta, um aperto no peito. Deixar aquela janela suja seria a mesma coisa que emporcalhar todo o meu dia.

O tempo foi passando, o dinheiro apertando… A vida ficando mais rápida…
Passei a levar o café de casa.
Comia no colégio ou no metrô (onde o tempo me permitisse) e não via mas a senhora na janela.

Hoje, um ano depois, deixei o café em casa e estou aqui na padaria.
A moça tá lá limpando a janela.
Um senhor veste uma camisa do Brasil.
O Universo me abençoa de maneira una.

No final, cheguei a conclusão que mudanças são “in”. São feitas de atitudes e não de palavras.

A janela vai estar limpa e a minha segunda também.

Hoje vai ser um dia feliz!!!


Sympla

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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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7 thoughts on “Crônica de um dia bom.

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