Uma sequência aguardada por muitos e esquecida por tantos, o que esperar da Família Owens desta vez!
Quase trinta anos após o longa original de 1998 ter desafiado o cinismo da crítica para se converter em um dos maiores clássicos cult daquela década, a Warner Bros. Pictures traz de volta a icônica dinastia Owens. Em “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” (2026), reencontramos o aconchego sobrenatural e o drama doméstico que tornaram a obra de Alice Hoffman inesquecível.
O novo filme consegue equilibrar a urgência de uma nova era com o peso maduro de feridas geracionais que nunca fecharam completamente. Retornar a um universo clássico após todo esse tempo é um feitiço arriscado. O resultado é tocante e charmoso, uma obra madura, visualmente suntuosa e se fazendo necessária, entendendo que o verdadeiro magnetismo da franquia não reside nos truques de mágica, mas sim nos laços familiares de suas protagonistas.
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Elenco de protagonistas: alquimia renovada e o peso da linhagem

A força motriz desta sequência reside na manutenção da indomável química entre Sandra Bullock e Nicole Kidman. Bullock entrega uma Sally Owens intencional, marcada por uma contenção terna que reflete seus anos de ausência nas telas, enquanto Kidman brilha ao injetar uma vibrante vivacidade e vulnerabilidade em sua madura Gillian. O retorno magnético das tias interpretadas por Dianne Wiest e Stockard Channing ancora a produção à sua raiz excêntrica.
No entanto a grande surpresa são as inclusões de Joey King e Maisie Williams como as filhas de Sally. King assume as complexidades de sua personagem com uma energia crua, já Williams aparentemente serviu como coadjuvante de luxo, destaque para a aquisição de Lee Pace que com seu carisma enigmático serve como perfeito contraponto a história funcionando como o elo acadêmico da narrativa, e tem também uma menção honrosa a Xolo Maridueña.
Direção: o toque europeu na feitiçaria americana

Sob o comando refinado da dinamarquesa Susanne Bier, o universo de Massachusetts expande suas fronteiras geográficas e emocionais com uma transição elegante para o Reino Unido. Bier abandona os excessos cômicos típicos do final dos anos 90 e opta por uma abordagem atmosférica, focando-se no intimismo das relações e na opulência melancólica dos cenários britânicos. A cineasta filma o cotidiano mágico não como um espetáculo de pirotecnia, mas como uma extensão natural da rotina feminina, tratando o sobrenatural com o respeito e o mistério de um drama de linhagem histórica.
Produção: resgate patrimonial de um universo afetivo

Capitaneada pelas próprias protagonistas ao lado da produtora Denise Di Novi, a produção de “Feitiço de Amor” exala respeito pela nostalgia dos fãs sem se render ao mercantilismo barato. Fica evidente o cuidado orçamentário em reconstruir a clássica estética da mansão Owens e transportá-la para as locações no Reino Unido, expandindo o escopo visual e preservando a intimidade cenográfica que ditou o tom do primeiro filme. É um design de produção inteligente, focado em criar um ambiente tangível e acolhedor.
Roteiro: Conectando cicatrizes literárias do passado e presente

O texto coescrito por Akiva Goldsman e Georgia Pritchett baseia-se diretamente na obra “The Book of Magic”, de Alice Hoffman. O roteiro acerta ao transicionar o foco para as consequências do tempo e a dor do amadurecimento familiar, apresentando uma ameaça mística que serve como metáfora para os segredos não ditos entre mães, filhas e tias.
Se por um lado o texto brilha em diálogos repletos de sabedoria e ironia afiada, peca pontualmente no segundo ato, onde o excesso de subtramas envolvendo a nova geração atropela momentaneamente o ritmo de desenvolvimento da quebra da maldição ancestral, embora flerte com algumas convenções do gênero, acaba soando bem providencial em certas situações e mesmo assim a narrativa conseguiu manter o foco no emocional das personagens.
Figurinos: a alta costura do gótico contemporâneo

Os figurinos nesta sequência atuam como uma crônica silenciosa do amadurecimento das personagens. Sally ressurge em tons sóbrios, terrosos e texturas pesadas que refletem seu casulo emocional, enquanto Gillian desfila tecidos fluidos e sobreposições ousadas que homenageiam sua eterna alma livre. As matriarcas da família Owens são um show à parte, sempre impecáveis, e a transição para as personagens de Joey King e Maisie Williams introduz uma estética gótica urbana e moderna, estabelecendo visualmente o contraste entre a tradição das bruxas veteranas e a rebeldia da nova geração (mesmo estando em um Centro Médico). Lembrando, quando em Londres um vestido e uma jaqueta preta se tornam segunda pele em qualquer ocasião.
Trilha sonora: Ecoando melodias de uma noite enluarada

Se o clássico de 1998 imortalizou hinos pop e momentos descontraídos na cozinha, a nova trilha instrumental equilibra o saudosismo com uma sonoridade mais melancólica e instrumental. Há sutis e arrepiantes acenos melódicos a temas clássicos como os acordes de “The Cure” de Olivia Rodrigo, que surgem no plano de fundo para evocar memórias afetivas, misturando-se a novos arranjos de cordas que ditam a urgência e o suspense das provações vividas na Europa.
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Efeitos visuais: O triunfo do truque prático sobre o digital

Em uma decisão artística louvável para a Hollywood atual, a produção optou majoritariamente pelo uso de efeitos práticos e ilusões de estúdio em detrimento do excesso de telas verdes e CGI (que também foram bem utilizados sem excessos). As manifestações sobrenaturais das chamas que tremulam e oscilam à manipulação de elementos naturais possuem peso físico e textura orgânica na tela. Isso amplia o senso de realismo mágico e preserva o charme artesanal da mitologia construída há décadas.
Conclusão
“Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” (“Practical Magic 2”) cumpre a complexa promessa de honrar seu legado sem se tornar uma mera cópia nostálgica. Mesmo com as polêmicas em torno de substituições e o desabafo de Evan Rachel Wood nas redes sociais ao descobrir que não voltaria para a sequência (o mesmo aconteceu com Alexandra Artrip e Aidan Quinn) não abalou o elenco e o andamento da história.
O filme prova que a verdadeira força de sua narrativa nunca esteve nos feitiços ou nas maldições, mas sim nos laços inquebráveis de mulheres que encontram sua maior força umas nas outras. É uma obra tecnicamente bem feita e emocionalmente sincera que certamente tem a premissa de encantar os velhos devotos e enfeitiçar uma nova geração de espectadores.
Imagem Destacada: Divulgação/Warner Bros. Pictures



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