O novo longa de Alejandro G. Iñárritu, “Digger”, aposta em grandiosidade técnica e em um elenco estelar, mas tropeça em um roteiro confuso que afasta o público
Assistir a “Digger”, o novo longa-metragem dirigido por Alejandro G. Iñárritu e estrelado por Tom Cruise, é uma experiência que exige bastante do espectador logo de início. Embora Iñárritu seja um cineasta talentoso e dono de uma filmografia marcante, é difícil não constatar que este não está entre os seus melhores trabalhos. Longe de apresentar uma abertura acessível, o filme é confuso do início ao fim. Para quem chega à sessão munido apenas da sinopse ou ciente de que se trata de uma obra de viés reflexivo, a projeção exige um exercício mental intenso, mas em um grau que beira o exagero. A estrutura narrativa é tão fragmentada que essa necessidade constante de decifração acaba esgotando quem assiste.
Essa sensação de atordoamento nasce do contraste gritante entre o apuro técnico da produção e a desorganização do roteiro. Visualmente, a fotografia assinada por Emmanuel Lubezki é magnífica, constituindo um verdadeiro espetáculo à parte e a principal âncora que prende a atenção do público à cadeira diante de tanta estranheza. Acompanhada por uma trilha sonora adequada e bem encaixada, a direção visual constrói uma atmosfera imersiva. Paralelamente, a caracterização dos personagens revela um cuidado exemplar, evidenciado por um trabalho primoroso de direção de arte e figurinos.
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Em meio a esse cenário complexo, um dos maiores trunfos da obra reside em seu elenco de apoio. A produção reúne nomes de peso da indústria, como Sandra Hüller, John Goodman, Riz Ahmed e Jesse Plemons, e a química estabelecida entre eles em cena é notável, injetando dinamismo e fôlego à projeção. O desempenho coletivo desse grupo talentoso eleva o nível da atuação geral.
No que tange ao protagonista, confesso que me surpreendi positivamente. Havia o receio de que a atuação de Tom Cruise pudesse soar fraca, visto que ele costuma habitar a mesma zona de conforto em blockbusters de ação, mas o resultado superou as expectativas iniciais. Não se trata de uma performance revolucionária, mas cumpre o seu papel com dignidade e correção. Até porque a própria proposta do texto dificulta uma medição precisa, uma vez que, em diversos momentos, os personagens assumem contornos propositalmente caricatos. Contudo, quando o roteiro abre brechas para revelar a humanidade por trás desses arquétipos, é possível se sensibilizar genuinamente com a entrega de Cruise, que se harmoniza muito bem com a sintonia do restante do elenco.

O grande abismo da obra, contudo, reside em sua espinha dorsal: o roteiro. O filme foi claramente concebido para ser visto como uma peça de prestígio, dotada de uma pretensão intelectual evidente e moldada sob medida para tentar figurar entre os indicados a grandes premiações por sua suposta carga dramática. No entanto, ao tentar abraçar o mundo e promover uma crítica social abrangente, tocando em temas que vão desde o meio ambiente até o comportamento humano, o roteiro acumula tantas frentes que acaba por não dizer nada de substancial.
As questões centrais resvalam perigosamente para o caricato de forma indigesta. Onde o espectador aguarda profundidade, a trama oferece atalhos; quando cria-se a expectativa de que um dilema será finalmente explorado com seriedade, o enredo subitamente se esquiva. Trata-se de uma grande confusão estrutural, algo difícil de descrever com precisão devido à falta de coesão na progressão dos fatos.
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Essa falha de comunicação com a plateia gera reflexos imediatos na sala de cinema. Durante a exibição, foi possível presenciar espectadores dormindo, enquanto, ao término da sessão, vários rostos confusos se entreolhavam questionando se haviam de fato compreendido a narrativa. A rejeição por parte da maioria do público foi evidente.
Apesar dessa recepção fria no presente, é perfeitamente possível que, daqui a alguns anos, “Digger“ seja reavaliado por círculos cinéfilos como uma obra incompreendida para o seu tempo. Todavia, nenhuma releitura futura anulará o fato de que o roteiro é o principal responsável por afundar o filme, sabotando uma produção que brilha intensamente em seus aspectos técnicos, na sintonia de seu elenco estelar e, sobretudo, na fotografia magistral de Emmanuel Lubezki.
Imagem Destacada: Divulgação/Warner Bros. Pictures



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