Antes de enfrentar vampiros no cinema e se tornar um dos personagens mais cultuados da Marvel, Blade já ocupava um espaço incomum nos quadrinhos: o de herói que vive entre o mundo dos super-heróis e o horror sobrenatural
Muito antes de os Vingadores dominarem Hollywood, um herói da Marvel já provava que os quadrinhos podiam ser sombrios, violentos e incrivelmente lucrativos.
Quando se fala em Marvel, é comum pensar primeiro em Homem-Aranha, Homem de Ferro, Capitão América ou nos grandes nomes dos Vingadores. Mas existe uma outra porta de entrada para esse universo: aquela em que os super-heróis dividem espaço com vampiros, monstros, magia e criaturas sobrenaturais.
É justamente nesse território sombrio que vive “Blade”.
Conhecido como o “Caçador de Vampiros”, o personagem surgiu nos quadrinhos muito antes de conquistar o cinema. E sua trajetória é curiosa: criado como coadjuvante em uma revista dedicada ao Conde Drácula, Blade acabou se transformando em uma das figuras mais singulares da Marvel. Anos depois, protagonizou um filme que ajudou a demonstrar que adaptações de HQs poderiam funcionar perfeitamente longe do modelo tradicional e colorido dos super-heróis.
A origem de Blade: nascido no horror gótico

Blade é o alter ego de Eric Brooks, personagem criado pelo roteirista Marv Wolfman e pelo desenhista Gene Colan.
Sua primeira aparição aconteceu em Tomb of Dracula #10, publicado em julho de 1973. A estreia já deixava claro o caminho que a Marvel pretendia explorar: em vez de enfrentar criminosos comuns ou supervilões fantasiados, Blade estava imerso no universo do vampirismo e na caça a criaturas sobrenaturais.
O herói não nasceu como protagonista de uma grande franquia própria. Sua história começou dentro de uma publicação centrada no próprio Drácula. Contudo, a presença implacável do caçador mudou a dinâmica da revista. Com o passar dos anos, Blade roubou a cena, ganhou espaço em outras publicações e protagonizou aventuras solo, consolidando-se como o maior elo da Marvel com o horror gótico.
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O herói na fronteira entre dois mundos
Parte fundamental da identidade de Blade está em sua relação ambígua com aquilo que combate.
Nas diferentes fases dos quadrinhos, sua origem foi sendo aprofundada, mas a premissa central permaneceu: Eric Brooks está ligado à linhagem vampírica devido às circunstâncias trágicas de seu nascimento, mas não pertence completamente a ela.
Ele é um homem que vive na fronteira entre dois mundos. Conhece o inimigo por dentro, mas escolhe combatê-lo. É humano o bastante para representar e proteger os vivos, e sobrenatural o bastante para sobreviver em um mundo dominado por criaturas da noite. É essa dualidade que faz com que Blade funcione tão bem transitando simultaneamente entre o terror e a ação desenfreada.
1998: O cinema descobre o Caçador de Vampiros

Embora tivesse décadas de histórias impressas, foi o cinema que transformou radicalmente a popularidade do herói.
Em 1998, Wesley Snipes assumiu o papel de Blade no filme dirigido por Stephen Norrington e produzido pela New Line Cinema. O longa chegou aos cinemas com classificação indicativa para adultos (R-rated) e uma estética inconfundível que misturava artes marciais, sangue, ficção científica e roupas de couro.
Mais importante do que isso: era uma produção baseada em um personagem da Marvel que, naquele momento, estava longe do reconhecimento global de ícones como Batman ou Superman. O resultado comercial, no entanto, foi expressivo. “Blade: O Caçador de Vampiros” arrecadou cerca de US$ 131 milhões mundialmente, frente a um orçamento de aproximadamente US$ 45 milhões.
O cinema de super-heróis ainda não havia se transformado no fenômeno onipresente que dominaria o século XXI. O longa chegou antes de megasucessos como “X-Men” (2000) e “Homem-Aranha” (2002), provando para Hollywood que propriedades “obscuras” podiam sustentar grandes filmes de gênero. O sucesso pavimentou o caminho para uma trilogia, seguida por “Blade II” (2002), sob a direção magistral de Guillermo del Toro, e “Blade: Trinity” (2004).
O mistério de Morbius nos bastidores
Existe um dos detalhes mais curiosos de toda a história de Blade escondido nos extras do filme de 1998. Uma cena deletada do final mostra uma figura misteriosa observando o herói à distância. Rapidamente, o personagem foi associado a Michael Morbius, o Vampiro Vivo da Marvel, já que o roteirista David S. Goyer havia considerado o vilão para uma continuação.
O próprio Stephen Norrington trouxe uma reviravolta anos depois: segundo o diretor, a figura (interpretada por ele mesmo, por aparecer apenas alguns segundos) não precisava necessariamente ser Morbius, mas sim um personagem deliberadamente ambíguo para preparar terreno. A cena funcionou mais como uma porta aberta do que um roteiro fechado. Curiosamente, Morbius só chegaria ao live-action mais de duas décadas depois, em uma produção da Sony.
O retorno triunfal de Wesley Snipes no MCU

Durante muito tempo, “Blade: Trinity” parecia ser o ponto final definitivo da interpretação de Wesley Snipes. Até que veio “Deadpool & Wolverine” (2024).
Snipes voltou ao papel em uma das maiores surpresas do filme. O retorno, idealizado por Ryan Reynolds e Shawn Levy, não foi concebido apenas como uma piada com o passado, mas como uma celebração do legado que Snipes havia construído na era pré-MCU.
O personagem aparece no Vazio, a realidade para onde a TVA (Autoridade de Variância Temporal) envia indivíduos e restos de universos podados. Integrado à resistência contra Cassandra Nova, o Blade de Snipes entrega uma camada metalinguística evidente, fazendo provocações sobre a existência de um “novo Blade” no cinema. Não era apenas um retorno nostálgico; era o reconhecimento de que, para grande parte do público, a imagem de Blade continua inseparável de Wesley Snipes.
O fantasma do Blade de Mahershala Ali

A ironia do retorno de Snipes é que, enquanto ele era ovacionado nos cinemas, o aguardado reboot de Blade no Universo Cinematográfico da Marvel afundava nos bastidores.
A Marvel anunciou Mahershala Ali como o novo Blade em 2019, durante a San Diego Comic-Con. Era para ser a entrada definitiva do lado sobrenatural no MCU. Ali chegou a fazer uma breve participação vocal na cena pós-créditos de Eternos (2021), mas nunca vestiu o manto em live-action. O personagem também chegou à aparecer nas animações spin-offs do MCU, em “Marvel Zombies”, assumindo o manto do Cavaleiro da Lua. Apesar dos traços de Ali aparecerem no personagem, o ator Todd Williams, foi quem deu voz ao personagem.
O projeto enfrentou um severo development hell (inferno de desenvolvimento): Com a excessiva troca de diretores Bassam Tariq deixou o projeto em 2022, pouco antes das filmagens. Yann Demange assumiu, propondo uma abordagem R-rated fiel ao herói, mas também abandonou o longa em 2024. Em 2025, Kevin Feige admitiu que o estúdio havia passado por quatro versões diferentes da história, não querendo simplesmente “colocar Ali em um traje e mandá-lo caçar vampiros” sem um roteiro sólido.
Uma das ideias mais ousadas, revelada pela figurinista Ruth E. Carter, situaria o filme na década de 1920, com Blade chegando a Chicago em meio ao universo de Al Capone. Quando a produção parou, parte desse guarda-roupa histórico foi reaproveitada em “Pecadores”, filme de vampiros de Ryan Coogler.
Mas, talvez a maior rasteira tenha sido uma ironia: Mahershala Ali treinou arduamente por mais de um ano para viver o herói. Com o desmanche do projeto, ele acabou utilizando as habilidades desenvolvidas em “Your Mother Your Mother Your Mother”, filme dirigido justamente por Bassam Tariq, o primeiro diretor a abandonar o longa da Marvel.
Em julho de 2026, o inevitável foi confirmado: Mahershala Ali declarou publicamente que havia seguido em frente e que o filme não aconteceria com ele. Feige também reconheceu sua frustração por não ter conseguido tirar o projeto do papel com o ator. Até o momento, o longa não possui novo intérprete anunciado, deixando o lado sobrenatural do MCU sem seu principal ponto de entrada.
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Por que Blade continua sendo tão interessante?

Talvez seja justamente porque ele não pertence completamente a lugar nenhum. Blade é Marvel, mas também é horror. É um herói, mas vive cercado por criaturas que normalmente ocupariam o papel de monstros. É uma figura sobrenatural que combate o próprio sobrenatural.
E essa mistura explica por que o personagem combina tão bem com outubro. Enquanto outros heróis representam o lado mais luminoso da cultura pop, ele abre uma passagem para a parte mais escura desse universo: vampiros, Drácula, monstros, magia e histórias de terror.
Por isso, conhecer Blade é também descobrir que a Marvel possui uma longa tradição de histórias sobrenaturais muito anteriores ao MCU.
E talvez seja esse o verdadeiro motivo pelo qual o Caçador de Vampiros continua sendo uma figura tão particular: antes de existir uma Marvel dominada por franquias de super-heróis, já havia um homem atravessando a noite em busca de monstros.


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