Interrompendo a aposentadoria para um presente exclusivo ao Brasil no feriado da Independência, o astro de 79 anos embala o Palco Mundo com mais de duas horas de clássicos absolutos, resgate de “Skyline Pigeon” e elegância pop inabalável
Elton John tem intimidade com o Brasil, inclusive com o Rock in Rio. Foram duas participações no festival, em 2011 e 2015, ambas como “headliner moral”, por assim dizer. Na estreia, que era também o retorno do evento à sua casa depois de quase uma década acontecendo apenas na Europa, era para ter fechado a noite, mas trocou de lugar com Rihanna, que se apresentaria depois. Na segunda vez, foi co-headliner com Rod Stewart. Ambos tiveram direito ao mesmo tempo de show e a toda a potência de luz e som, mas Elton se apresentou primeiro e coube a Stewart encerrar os trabalhos daquele dia no Palco Mundo. Mas agora era diferente.
Elton John se despedira dos palcos na Suécia, em 2023, no último ato da turnê “Farewell Yellow Brick Road”, e sua aposentadoria estava decretada. Noticiava-se, inclusive, que o astro enfrentava problemas de saúde, entre eles uma enfermidade que lhe limitava a visão. Os brasileiros já estavam conformados de que a despedida havia ocorrido na tour conjunta com James Taylor, em 2017. Eis que o Rock in Rio o anuncia como headliner do quarto dia desta edição de 2026 (7 de setembro), para a incredulidade de muitos. E um bis tão especial não poderia ser de outra forma senão fechando a noite com toda a pompa. Não chegou a ser como na primeira edição do Rock in Rio Lisboa, em que houve um dia com Paul McCartney como única atração. O line-up do dia contou com Gilberto Gil (outro em vias de deixar os palcos), Roupa Nova com Guilherme Arantes e o americano Jon Batiste. Mas a data tinha dono. Bastava prestar atenção nos modelitos dos presentes, que traziam algum detalhe extravagante remetendo a Elton John, além de muitos óculos enormes ou em formato de estrela, marca registrada da carreira do ídolo.
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Se havia algum receio de que ele não compareceria de última hora, foi quebrado às 23h, quando o painel de LED que reveste o Palco Mundo começou a exibir nuvens com trovões e relâmpagos (algo que felizmente não aconteceu na Cidade do Rock — apenas uma chuva bem fina que ia e vinha, mas que não estragou a festa em momento algum). Logo em seguida, o próprio artista entrou no palco discretamente, sentou-se ao piano e, quando as luzes se acenderam, lá estava ele, executando as primeiras notas de “Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding”, abertura do clássico álbum “Goodbye Yellow Brick Road”, de 1973. Na sequência, quase como um medley (as músicas no show se encadeavam nessa dinâmica, com poucas pausas), veio o hit “Bennie and the Jets”. Trajando um terno de paletó amarelo fluorescente e camisa azul-marinho (combinando com a armação dos óculos), ele parecia estar homenageando o país ou o feriado da Independência (talvez ambos). Em “Philadelphia Freedom”, a quarta música do repertório, dava a nítida impressão de que a aposentadoria realmente fora esquecida.
A escolha das 23 faixas obviamente privileged os sucessos radiofônicos de alta rotatividade nas rádios adultas e FMs de música leve, como “I Guess That’s Why They Call It the Blues”, “The One” e “Sacrifice”, mas houve espaço para clássicos menos conhecidos. “Levon”, “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, “Someone Saved My Life Tonight” e “Have Mercy on the Criminal” compuseram a sequência de quebra no carrossel de hits, retomado com “Candle in the Wind” — feita para Marilyn Monroe, que teve seu centenário lembrado por Elton antes de ele executar a faixa.

A exemplo dos demais headliners do Rock in Rio, Elton John fez um ótimo uso do recurso de videowall do novo Palco Mundo, colocando montagens e mosaicos que se alternavam com imagens dos músicos em cena. Referências à cultura pop não faltaram. Em “Honky Cat”, era exibida uma sequência musical que traz a canção na sua cinebiografia Rocketman, de 2019; “Saturday Night’s Alright for Fighting” mostrava cenas de luta do cinema, desde filmes de artes marciais de Hong Kong, passando pelo Blaxploitation, Indiana Jones esmurrando um oponente em “Caçadores da Arca Perdida” e até o Popeye de Robin Williams, do filme de Robert Altman, dando uns sopapos. Já “I’m Still Standing”, hino bastante apropriado para a noite, exibia várias aparições de Elton John ao longo de sua carreira, incluindo sua versão em Os Simpsons, em South Park, no clipe de “Motown Song” (de Rod Stewart), no clipe de “Can You Feel the Love Tonight” (de “O Rei Leão”) e, claro, sua encarnação nos cinemas feita por Taron Egerton.
“Cold Heart” foi concessão explícita à parcela mais jovem da plateia, momento em que a banda de apoio se retirou do palco para dar lugar a uma pista eletrônica pré-gravada. Sozinho ao piano, Elton guiou o dueto virtual com uma Dua Lipa em dimensão colossal projetada no videowall do Palco Mundo. A breve pausa no purismo orgânico do show funcionou como uma manobra pop cirúrgica: uma ponte direta entre o catálogo clássico do veterano e a geração TikTok, provando que o sir britânico ainda domina como poucos a arte de acenar à contemporaneidade sem perder a elegância.
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Próximo do final, Elton John explicou que interrompeu sua aposentadoria porque não poderia deixar o público brasileiro sem seu agradecimento. Tanto que não deixou de incluir a música “Skyline Pigeon”, sua primeira composição com o lendário parceiro musical Bernie Taupin, que fez enorme sucesso no Brasil. Depois de mais de duas horas e dez minutos de show, chegou o momento de dizer adeus com “Your Song”. A plateia, que misturava gerações, saiu com um sentimento de recompensa, ciente de ter assistido ao que pode ter sido o último recital de um artesão pop, dono de alguns dos maiores clássicos do nosso tempo. Acompanhado por uma banda afiadíssima de veteranos (que inclui o baterista Nigel Olsson, que toca com Elton desde o início, e o guitarrista Davey Johnstone, outro parceiro de longa data), o inglês de 79 anos deixou o recado de que encerra as atividades, mas em plenas condições de continuar.
Setlist:
- Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding
- Bennie and the Jets
- I Guess That’s Why They Call It the Blues
- Philadelphia Freedom
- The One
- Tiny Dancer
- Sacrifice
- Honky Cat
- Rocket Man (I Think It’s Going to Be a Long, Long Time)
- Levon
- Sorry Seems to Be the Hardest Word
- Someone Saved My Life Tonight
- Have Mercy on the Criminal
- Candle in the Wind
- Goodbye Yellow Brick Road
- Sad Songs (Say So Much)
- Don’t Let the Sun Go Down on Me
- Crocodile Rock
- Saturday Night’s Alright for Fighting
- I’m Still Standing
Bis: - Cold Heart (com Dua Lipa no telão)
- Skyline Pigeon
- Your Song


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