Na véspera de encerrar a era dos grandes festivais, o mestre da MPB transforma a imensidão do Palco Mundo em uma celebração afetiva, resgata laços com a edição de 1985 e acena para a despedida com surpresas no repertório
Gilberto Gil acabou de fazer sua turnê de despedida, a “Tempo Rei”. Tecnicamente aposentado, aceitou o convite do Rock in Rio 2026 para se apresentar no Palco Mundo antes de Elton John, que também dava sua última canja no festival carioca. Apesar de toda a grandiosidade do palco principal (com o imenso videowall exibindo grafismos e fotos de perfil do artista), o show nesta segunda-feira teve um clima intimista, como se fosse um encontro informal com o público — um verdadeiro presente.
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De fato, coube a Gilberto Gil, aos 84 anos, a missão de preparar o terreno para a já histórica despedida do astro internacional. O que se testemunhou no gramado da Cidade do Rock, contudo, esteve longe de ser um mero show de abertura. Foi uma aula magna de MPB, atravessada por um sentimento solene de celebração e pela inevitável sombra do frisson em torno da última apresentação do inglês.
A relação entre Gil e o festival confunde-se com a própria gênese do evento. Em 1985, quando o Brasil ainda ensaiava seus primeiros passos na redemocratização, o mestre baiano foi uma das vozes fundamentais a pisar na poeira da primeira Cidade do Rock, ajudando a traduzir a utopia do festival para a linguagem e o balanço da música brasileira. Quatro décadas e uma coleção de clássicos atemporais depois, ver Gilberto Gil ocupando aquele mesmo espaço em 2026 não foi apenas um exercício de nostalgia; foi um testemunho vivo da construção da identidade cultural do país.

O setlist não seguiu o estabelecido na última excursão. Gil abriu com “Cérebro Eletrônico” e seguiu com “Pela Internet”, em uma dobradinha reflexiva quanto aos novos tempos. Houve também covers de Bob Marley — “Rebel Music (3 O’Clock Roadblock)” —, Rita Lee (“Ovelha Negra”) e Barão Vermelho (“Pro Dia Nascer Feliz”). Liminha foi chamado ao palco para tocar baixo em “Vamos Fugir”, canção em que foi parceiro do baiano. “Só você, Giló”, brincou o músico e produtor (ex-baixista dos Mutantes, sempre bom lembrar). “Eu não, tem muita gente”, replicou o cantor, aos risos.
Entre arranjos luminosos e um repertório desenhado com a precisão de quem domina as massas há gerações, Gil fez uma pausa para encarar a multidão e contemplar a passagem dos anos. Ao relembrar a estreia de 1985 e notar a longa travessia até o presente, o artista soltou a frase que congelou o ar no gramado: “Talvez seja o último”. A declaração provocou uma reação imediata de incredulidade e afeto, arrancando suspiros, aplausos e protestos da plateia em uma recusa coletiva de aceitar o fim de uma era. “Pra descansar um pouquinho”, justificou, antes de emendar um alentador “Vamos ver, quem sabe?”. A hesitação em assumir compromissos com grandes festivais não surge ao acaso: embora não descarte encontros bissextos e projetos pontuais, Gil encara a rotina exaustiva de grandes eventos como um ciclo que se aproxima de seu encerramento natural.
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Enquanto os acordes finais ecoavam pela noite carioca, a certeza que pairava sobre a Cidade do Rock era a de que Gilberto Gil não precisa mais provar nada ao mercado. Sua passagem pelo Palco Mundo neste feriado serviu para reafirmar que o tempo — essa entidade à qual ele dedicou tantos versos e reflexões brilhantes ao longo da carreira — sempre foi seu maior aliado. Ao acenar para uma multidão que relutava em deixá-lo partir, o gigante da MPB não encerrou apenas mais um show no Rock in Rio; ele selou sua trajetória no festival com a dignidade, a elegância e a paz de quem tem a exata medida de sua contribuição para as artes.
Setlist
- Cérebro eletrônico
- Pela internet
- Andar com fé
- Toda menina baiana
- Rebel Music (3 O’Clock Roadblock) (Bob Marley & The Wailers)
- Vamos fugir
- Realce
- Palco
- Superhomem – A canção
- Ovelha negra (Rita Lee)
- Pro dia nascer feliz (Barão Vermelho)
- Esperando na janela (Targino Gondim)
- Maracatu atômico (Jorge Mautner)
- Divino maravilhoso (Caetano Veloso)
- Aquele abraço / Funk-se quem puder
- Atrás do trio elétrico (Caetano Veloso)
Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@LARAVALENCAN)


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