O sertão ganha asas, o preconceito perde o chão e o cinema brasileiro faz o coração voar!
Existem filmes que contam histórias. Outros nos fazem lembrar de tudo aquilo que a vida, na correria dos dias, insiste em deixar para trás. “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, pertence à segunda categoria. Com a delicadeza de quem entende que os sentimentos mais profundos nem sempre precisam de grandes discursos, o longa transforma uma relação familiar em uma experiência sobre afeto, liberdade, memória e o direito de uma criança descobrir o mundo sem precisar pedir desculpas por ser quem é.
Ambientada no interior do Ceará, a produção encontra no sertão muito mais do que um cenário. A paisagem, marcada pela força da natureza e pelas memórias de uma cidade que ressurge das águas de uma barragem, estabelece uma conexão poderosa com os personagens. É como se a própria terra guardasse segredos que o tempo tenta apagar, mas que o amor insiste em preservar.
No centro dessa história estão Gugu, um garoto sonhador apaixonado por futebol, e Dilma, sua avó, que o cria com liberdade e carinho. Quando a saúde dela começa a se fragilizar, o menino passa a enfrentar o medo de perder a convivência com sua maior referência afetiva e de precisar morar com o pai, Batista, um homem cuja relação com o filho é marcada por distâncias emocionais e conflitos.
Sem recorrer a fórmulas fáceis para arrancar lágrimas, “Feito Pipa” encontra sua maior força na intimidade dos gestos, na espontaneidade infantil e na capacidade de abordar assuntos difíceis sem transformar seus personagens em simples instrumentos de uma mensagem.
Elenco de protagonistas: três interpretações, muitas emoções

Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos formam o coração de uma narrativa que depende essencialmente da credibilidade de seus conflitos.
Yuri Gomes merece atenção especial. Como Gugu, o jovem ator carrega a história com uma interpretação que coloca a sensibilidade infantil no centro da experiência. Seu personagem não é apenas um menino diante de problemas familiares, mas uma criança com desejos, contradições, sonhos e uma maneira própria de experimentar a liberdade. O mérito está em preservar essa espontaneidade sem transformar a atuação em uma demonstração artificial de sofrimento.
Teca Pereira, por sua vez, oferece a Dilma a força de uma mulher que ama sem sufocar, acolhe sem impor e compreende a infância como um território que precisa ser protegido. Sua presença confere humanidade às situações mais delicadas, enquanto a relação com Yuri sustenta a dimensão emocional do filme.
Lázaro Ramos completa o trio como Batista, um personagem que exige mais do que a simples representação de um pai difícil. Seu trabalho contribui para que os conflitos familiares não se reduzam a uma disputa entre mocinhos e vilões, trazendo à trama a complexidade dos afetos mal resolvidos.
A conexão entre Yuri e Teca é o grande destaque dramático. Os dois representam uma relação que ultrapassa a ideia tradicional de parentesco e encontra no cuidado cotidiano sua expressão mais verdadeira.
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Direção: Allan Deberton solta a pipa sem perder o fio

Allan Deberton demonstra afinidade com histórias enraizadas na cultura brasileira e atentas à complexidade das relações humanas. Em vez de transformar o drama em um espetáculo de sofrimento, a direção privilegia a proximidade com os personagens e a força de seus vínculos. O equilíbrio entre infância, preconceito, envelhecimento e conflitos familiares é fundamental para que o filme mantenha sua identidade. A narrativa procura acolher as contradições sem abandonar a leveza que nasce da perspectiva de Gugu.
O resultado é uma obra que encontra sua força na sensibilidade, embora essa escolha também exija paciência de quem prefere histórias conduzidas por acontecimentos mais intensos e constantes.
Produção: o Brasil longe dos cartões-postais

Produzido pela Deberton Filmes em coprodução com a Biônica Filmes, o longa aposta em uma identidade regional que não precisa imitar padrões estrangeiros para alcançar o público.
A escolha de Quixadá, no interior do Ceará, é um dos elementos mais interessantes da produção. As paisagens do sertão, a presença da barragem e a relação entre a comunidade e o ambiente conferem personalidade à obra. O interior brasileiro não aparece como um pano de fundo exótico, mas como um espaço vivo, atravessado por lembranças, tradições e transformações.
Outro aspecto relevante é a origem do roteiro, inspirado nas memórias de infância dos realizadores no interior cearense. Essa ligação com experiências e referências regionais ajuda a explicar a autenticidade que a produção busca transmitir.
Roteiro: quando a memória vira um campo de batalha

Assinado por André Araújo, o roteiro articula o medo da separação, o preconceito e a fragilidade da memória sem perder de vista a experiência de uma criança.
Gugu enfrenta problemas que não deveria precisar resolver sozinho, mas sua maneira de reagir a eles preserva algo essencial da infância: a imaginação como refúgio e ferramenta de resistência.
A história também evita tratar a família como uma estrutura necessariamente harmoniosa. O afeto pode existir ao lado de conflitos, e a responsabilidade de cuidar nem sempre vem acompanhada da capacidade de compreender.
A principal ressalva está no risco de algumas situações dramáticas parecerem familiares a quem já conhece histórias sobre vínculos familiares e superação. Ainda assim, a identidade cultural e a delicadeza dos personagens ajudam a diferenciar a experiência.
Figurino e maquiagem: a identidade está nos detalhes

O universo visual dos personagens precisa dialogar com o ambiente, com suas condições de vida e, principalmente, com suas personalidades. Nesse contexto, figurino e maquiagem são importantes para construir uma realidade reconhecível, sem transformar o sertão em uma imagem folclórica.
O figurino, assinado por Gabriella Marra, e a direção de arte de Dayse Barreto integram a construção desse universo visual.
A proposta ganha relevância quando a aparência dos personagens respeita suas individualidades e a liberdade de Gugu para explorar diferentes formas de expressão. A maquiagem, nesse sentido, pode representar muito mais do que um recurso estético: também se relaciona à descoberta da identidade e à possibilidade de existir sem medo do julgamento alheio.
Fotografia: o sertão rouba a cena, mas não os personagens

A fotografia de Luciana Baseggio e Daniel Donato encontra no interior cearense uma oportunidade de construir imagens com identidade própria.
Quixadá oferece uma geografia visual marcante, e a presença da barragem acrescenta uma dimensão simbólica à história. As ruínas reveladas pela diminuição das águas remetem ao passado, às lembranças e àquilo que permanece escondido até que alguma mudança torne impossível continuar ignorando sua existência.
O grande mérito dessa ambientação está na possibilidade de fazer a paisagem dialogar com os sentimentos dos personagens. O sertão não precisa ser idealizado nem reduzido à seca para revelar sua beleza. Sua força está justamente na diversidade de texturas, formas e significados.
Trilha sonora: o sentimento no seu próprio ritmo e uma canção como memória afetiva
A música tem a responsabilidade de acompanhar uma história em que os silêncios e os pequenos gestos possuem tanto peso quanto as palavras.
A produção da trilha sonora fica a cargo de Fred Silveira, enquanto a composição musical é assinada por João Victor Barroso.
Poucas escolhas musicais conseguem dialogar tão intimamente com uma história quanto “Time After Time”, clássico de Cyndi Lauper. Presente em diferentes momentos do filme e também cantada pelos próprios personagens, a canção ultrapassa a função de acompanhar as imagens e se transforma em parte da memória afetiva daquela família.
Sua recorrência cria uma conexão entre gerações, reforçando a cumplicidade entre Gugu e Dilma e trazendo à superfície lembranças, ausências e sentimentos que nem sempre encontram espaço nas palavras. É uma escolha especialmente feliz, porque a música não precisa explicar o que os personagens sentem. Basta começar a tocar para que o espectador compreenda a dimensão daquele vínculo.
Ao final, torna-se quase impossível não continuar ouvindo essa canção na cabeça ou sentindo sua melodia no coração.
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Prêmios e Oscar: a pipa brasileira já ganhou altitude
“Feito Pipa” chega à temporada de premiações com um currículo expressivo. Em setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais escolheu o longa para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do “Oscar 2027”.
Antes disso, a produção conquistou dois importantes reconhecimentos na Berlinale, em fevereiro: o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus.
No Festival de Gramado, em agosto, recebeu os Kikitos de Melhor Direção, para Allan Deberton; Melhor Atriz, para Teca Pereira; Melhor Ator Coadjuvante, para Lázaro Ramos; e Melhor Filme pelo Júri Popular, além de uma menção honrosa para Yuri Gomes.
O reconhecimento internacional também inclui o prêmio de Melhor Interpretação para Yuri Gomes no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias e os prêmios Maguey de Melhor Filme e Melhor Interpretação, concedido a Teca Pereira e Yuri Gomes, no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara.
Em outubro, o longa conquistou mais três prêmios no festival Out On Film, em Atlanta, incluindo Melhor Longa-Metragem de Ficção, Melhor Direção e Melhor Interpretação para Teca Pereira.
Essas conquistas demonstram que o filme já ultrapassou a condição de simples aposta nacional. Entretanto, representar o Brasil não significa estar automaticamente entre os indicados ao “Oscar”. A seleção dos cinco finalistas ainda depende da votação da Academia de Hollywood. O caminho é promissor, mas a disputa permanece aberta.
Conclusão
“Feito Pipa” (2026) é um daqueles filmes que encontram grandeza nas coisas pequenas. A força de sua história está na relação entre um menino e sua avó, na beleza do interior brasileiro e na coragem de abordar preconceitos sem esquecer que, antes de qualquer debate, existem pessoas tentando encontrar seu lugar no mundo.
Yuri Gomes e Teca Pereira formam uma dupla especialmente tocante, enquanto Lázaro Ramos acrescenta densidade aos conflitos que movimentam a trama. A direção de Allan Deberton e a identidade regional da produção reforçam a sensação de que o cinema brasileiro tem muito a dizer quando olha para suas próprias paisagens e histórias.
Sua recorrência cria uma conexão entre gerações, reforçando a cumplicidade entre Gugu e Dilma e trazendo à superfície lembranças, ausências e sentimentos que nem sempre encontram espaço nas palavras. É uma escolha especialmente feliz, porque a música não precisa explicar o que os personagens sentem. Basta começar a tocar para que o espectador compreenda a dimensão daquele vínculo.
Imagem Destacada: Divulgação/Deberton Filmes



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