Em “Fùria”, Emmy Rossum, é agente do FBI que sobreviveu à violência e caça serial killer que passou pelo mesmo trauma
A série “Fúria”, nova aposta de suspense psicológico disponível na plataforma de streaming do Disney+ em parceria com o Hulu, entrega uma proposta geralmente fora do comum para as tradicionais produções investigativas.
A narrativa contagiante aposta em um díptico poderoso ao colocar duas mulheres em polos opostos de uma onda de assassinatos misteriosos. De um lado está a investigadora que tenta conectar os fatos; do outro, a responsável pelos crimes. Ao longo dos episódios, a produção aborda temas extremamente delicados e atuais, expondo as marcas do preconceito, da dor e da violência institucionalizada que ambas carregam no cotidiano.
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A trama ganha vida a partir do olhar de Alice Black, vivida por Emmy Rossum, atriz consagrada por seu papel em “Shameless”, recém-chegada às fileiras do FBI, a agente começa a investigar o caso após notar um padrão sinistro em duas mortes aparentemente isoladas.

As vítimas são homens pertencentes a famílias ricas e influentes, e o método de execução é idêntico: overdoses induzidas de maneira meticulosa para passar como acidentes ou fatalidades casuais. À medida que o enredo se aprofunda, vem à tona uma rede estarrecedora de impunidade e abusos indescritíveis contra dezenas de mulheres.
O cenário evoca paralelos imediatos com escândalos reais de grande repercussão nos Estados Unidos, como o caso de Jeffrey Epstein, o notório abusador que deixou centenas de vítimas e milhares de páginas de inquérito sem respostas definitivas. O roteiro se recusa a ficar apenas no mistério superficial e decide encarar uma ferida aberta: a dupla vitimização.
Na maioria dos casos de abuso, as pessoas agredidas sofrem o trauma da violência e, em seguida, passam pelo humilhante processo de desacreditação por parte das autoridades e da sociedade. A própria trajetória da protagonista ilustra perfeitamente essa dinâmica perversa. Quando ainda trabalhava como policial no distrito local, Alice Black foi covardemente agredida pelo companheiro de farda com quem mantinha um relacionamento desde a adolescência.

No entanto, o corporativismo machista dentro da corporação tratou de agir rapidamente para blindar o agressor. A jovem foi difamada, rotulada como instável e tratada como culpada por ter tido a coragem de denunciar um homem visto como um parceiro exemplar que cuidava da mãe doente.
O único ponto de apoio da agente no antigo distrito é Danny Kelly, interpretado por Scoot McNairy, recém-divorciado e abertamente apaixonado por Alice Black, o policial acaba pagando um preço alto por ter acreditado na palavra da amiga.
Ele passa a ser escanteado e tratado como um pária entre os colegas de trabalho. Contudo, essa dinâmica tensa precisa ser colocada de lado quando todos são forçados a colaborar em uma grande força-tarefa para identificar a misteriosa assassina antes que ela faça novas vítimas.
A condução dos trabalhos no setor de crimes sexuais fica sob o comando firme de Nora Washington, interpretada por Quincy Tyler Bernstine, afligida pelo cansaço extremo, pelo esquecimento institucional e à beira do alcoolismo, a veterana atua como o contraponto perfeito para o idealismo de Alice Black.
O cinismo de Nora Washington não vem da apatia, mas de anos de bagagem vendo o sistema falhar.

A supervisora sabe exatamente como essas histórias terminam: as punições raramente chegam aos verdadeiros culpados, enquanto as vítimas mais vulneráveis, como fugitiva(o)s e trabalhadora(e)s do sexo, permanecem invisíveis para o público e sem qualquer benefício da dúvida.
É exatamente nesse contexto de abandono que surge a figura aterradora da responsável pelos ataques: a jovem Catherine, interpretada por Lola Petticrew, entrega uma atuação marcante ao dosar vulnerabilidade e perigo na mesma proporção (porém com um tom acima do normal).
Vivendo como cuidadora de um adolescente acamado, mas muito inteligente e mordaz, mas constantemente atormentada por traumas do passado, a personagem transforma sua dor em uma busca implacável por retribuição contra os homens que perpetraram violências contra ela e contra quem amava.
A série não busca criar justificativas simplistas para os assassinatos, mas levanta reflexões necessárias sobre até onde vai a resposta de quem decide fazer justiça com as próprias mãos quando o sistema decide fechar os olhos para abusos degradantes.
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Mesmo recorrendo a alguns recursos conhecidos da televisão, como o contraste entre os chefes burocratas e a representação de personagens masculinos dentro de arquétipos específicos (o galã no papel de abusador, o homem mais normal, típico americano médio, desajeitado e mal arrumado é o príncipe encantado que a protagonista precisa), a produção não perde sua força principal.
Sob o comando de idealizadoras focadas em dar densidade ao enredo, o projeto se consolida como uma obra provocante, visceral e fundamental nos dias de hoje. Todos os episódios da primeira temporada de “Fúria” já podem ser conferidos no catálogo do Disney+.
“Fúria”, S1E8. Imagem Destacada: Divulgação/Hulu



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