8 de dezembro de 2019

La La Land atinge uma veia. Sabe aquela que dá para sentir com os dedos no pescoço? Porque há um pouco de nós nos personagens interpretados por Ryan Gosling e Emma Stone (ótima escolha, aliás.). Emma é uma atriz com um quê de girl next door. Ela é bonita, mas não tanto. Ryan é impassível na maioria dos seus papéis e mesmo assim adorável. Ele não fala muito, o texto dele é sempre um subtexto. Que caiu na forma exata do pianista aficionado por jazz, porém não muito disposto a olhar para o futuro.

La La Land é sobre comprometer quem somos. É nostálgico e ao mesmo tempo não poderia ser mais HOJE. Vivemos tempos estranhos. Temos tudo, mas não temos nada. Temos democracia, mas representantes duvidosos. Há uma ausência generalizada, há uma ausência de ídolos e figuras verdadeiramente carismáticas, uma ausência de propósito. Não vivemos revoluções culturais gritantes. Nossas revoluções são lençóis freáticos que passam despercebidos entre nossos aplicativos e selfies. Há um desejo. Do quê? Não sabemos. Do mundo? Mas ele não cabe na boca.O filme resgata o sonho sem se doar muito a ele. Arrisco dizer que ele era necessário. Ele surge com uma cara de atemporal em um contexto histórico assustador e incerto, até mesmo para as celebridades mais bem pagas de Hollywood; Donald Trump é presidente por lá e nem mesmo Meryl Streep escapa desse cenário. A fotografia é precisa, a direção inteligente. E o Damien Chazelle acerta aqui com sensibilidade o que errou em Whiplash: quando a música entra ela ENTRA, ela é As Time Goes By em Casablanca.

Nós vemos e revisitamos sapateado (sem exageros), jazz, duetos, uma química lúdica, um romance bonito, mas delicado – sem as partes gráficas. Nós cantamos, rimos e choramos. Choramos mais do que rimos, no entanto. Mas a beleza sempre salva o dia. A cena mais bonita e doída em linguagem é a do jantar, em que todo artista sabe onde pulsa e se vê no espelho. Fazer, viver o sonho, mas que sonho é esse? O quanto nos comprometemos para chegar lá? Lá não é LA. Lá é o Rio de Janeiro, São Paulo, Aracaju ou Recife. Em todo lugar nos fazemos essa pergunta: “será que é isso mesmo?” Tudo bem fazer o que você gosta sem ser exatamente o que você gosta. Ou tudo bem fazer o que você gosta sem ser exatamente o que você gosta?

Bom, La La Land já é um clássico. Clássico contemporâneo, como deve ser. Um final feliz não cabe mais em nós, somos outros. E mesmo com a aurora em rosa e roxo e as estrelas e as cores, flutuamos e flutuamos, mas sempre pousamos no chão. O chão é um boleto, testes infinitos e um amor mais ou menos. Mas tudo bem. Talvez na próxima fase possamos desenhar outras resoluções, talvez a nova revolução resida em um improvável “felizes para sempre”. Veja La La Land. Nele cabe todo mundo, até quem não gosta de jazz.


Por Érika Nunes

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2 thoughts on “Por que La La Land tem um pouco de todos nós?

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