Às vésperas dos 20 anos da novela, atriz, empresária e mãe revisita sua primeira protagonista na televisão e compartilha lembranças dos bastidores e dos aprendizados que levou para a vida.
Estreada em 21 de novembro de 2006, “Vidas Opostas” completa 20 anos em 2026. A novela da Record apresentou ao público a história de Joana (Maytê Piragibe), uma jovem moradora do “Morro do Torto” que conciliava os estudos com o trabalho, e Miguel (Léo Rosa), um rapaz de realidade social diferente da sua. O romance entre os dois se desenvolve em meio a conflitos, diferenças de origem e obstáculos que colocam à prova a relação.
Determinada a construir o próprio futuro, Joana se tornou uma personagem marcante na trajetória de Maytê, que encontrou no papel sua primeira protagonista na televisão. Duas décadas depois, a atriz recorda os desafios das gravações e reflete sobre o impacto da experiência em sua vida pessoal e artística.
Em entrevista exclusiva à Woo! Magazine, Maytê revisita as memórias de “Vidas Opostas“, fala sobre a construção da personagem e compartilha os aprendizados que levou daquele período. A atriz também recorda momentos dos bastidores e conta que sente saudade da televisão e das novelas.
Leia a entrevista a seguir.
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A escolha de Joana
Jéssica Meireles: Maytê, você contou que mais de 200 atrizes participaram dos testes para viver Joana. Como aconteceu sua chegada a Vidas Opostas e de que maneira o trabalho anterior em Cidadão Brasileiro contribuiu para sua preparação?
Maytê Piragibe: O Avancini, diretor de “Vidas Opostas“, me viu numa cena como a guerrilheira Eleni Castro. E quando eu cheguei em ‘Vidas Opostas‘, eu cheguei muito preparada, porque eu já estava dentro da casa. A personagem Eleni, anterior à Joana, veio com essa força que era além da minha maturidade na época, e isso eu acho que foi uma grande preparação.
O desafio de interpretar Joana
J.M.: Joana tinha uma personalidade forte e enfrentava situações de muita tensão ao longo da novela. Como foi construir essa personagem e quais foram os maiores desafios durante as gravações?
M.P.: Joana era uma mulher comum, vamos dizer assim. Uma mulher que eu queria trazer muito essa naturalidade e essa verdade. Acho que o trabalho da Joana era muito abastecer a minha coragem, porque as primeiras cenas eram escalando e eu tenho medo de altura.
Ao falar sobre a preparação para as cenas de escalada, Maytê relembra o desafio de enfrentar o medo de altura durante as gravações no Cristo Redentor, cenário do início da história de amor entre Joana e Miguel.
M.P.: Então, a preparação aconteceu um pouco nesse campo do esporte dela, onde ela conseguia fazer sua grana extra e onde inicia a história de amor nas montanhas, no Cristo Redentor.
M.P.: Então, ali, aquela preparação era meio que se jogar, tanto que lá em cima do Cristo, eu tinha que pular ali aquele negócio, gente. E fazer a escalada ali, debaixo da mão de Deus, debaixo da mão de Cristo, foi o ápice do medo. Depois que eu fiquei pendurada ali, era como se eu estivesse sendo abençoada por Deus mesmo.
A construção da personagem também envolveu o trabalho coletivo do elenco e da equipe. Maytê destaca a importância de humanizar Joana, uma jovem trabalhadora, inteligente e estudiosa, cujas possibilidades eram limitadas pelas condições financeiras e pela vulnerabilidade social da comunidade onde vivia.
As lembranças das gravações
J.M.: A novela teve cenas externas na comunidade do Tavares Bastos. Como foi a convivência com os moradores e de que maneira essa experiência contribuiu para sua aproximação com o universo da personagem?
M.P.: Esse foi o meu grande workshop, ter a convivência da comunidade, onde a gente estava toda semana rodando as externas lá, sendo abraçada por essa comunidade.
A relação entre Joana e Rosário, interpretada por Roberta Santiago, também abriu espaço para abordar a maternidade solo, um tema que, segundo Maytê, ainda recebe pouca atenção na dramaturgia.
M.P.: A Rosário é mãe solo, que é um tabu na nossa sociedade. São poucas histórias da dramaturgia que focam esse desafio do maternar solo.
A atriz relaciona a sobrecarga feminina às responsabilidades enfrentadas por Joana ao longo da trama. Além de cuidar da família, a jovem precisava proteger as pessoas que amava e negociar a própria segurança diante dos conflitos da história.
M.P.: Não existe uma mulher que tenha descanso em relação a isso, porque o maternar, o nutrir, o prover e, no caso dela, o instruir, o educar, o proteger e o negociar, porque diante de toda a trama ela tinha que negociar a vida dela, da família dela, a segurança dela e do amor da vida dela.
Joana também se mobilizava em defesa dos moradores e liderava manifestações para proteger a comunidade.
M.P.: Ela era uma grande militante da comunidade.
J.M.: Vidas Opostas marcou sua estreia como protagonista na televisão. Ao olhar para aquele período, quais lembranças permanecem mais fortes e o que essa experiência representou para sua trajetória como atriz?
M.P.: Essa personagem foi a minha primeira protagonista na TV. Eu tinha já protagonizado no teatro.
A rotina de gravações exigia dedicação constante, com trabalhos que se estendiam ao longo da semana e a preparação dos textos fora dos estúdios. Maytê conta que passou 17 anos trabalhando continuamente em novelas, tanto na Globo quanto na Record.
M.P.: E, ao mesmo tempo, o tempo da dedicação é um tempo muito profundo, de gravações ininterruptas, de trabalhos de domingo a domingo. Que o tempo que você está em casa, você está decorando muito texto para estar nessa indústria, e que eu tive o privilégio de estar 17 anos sem parar nas novelas, tanto na Globo quanto na Record.
Durante as gravações de “Vidas Opostas“, a atriz enfrentou um problema de saúde que a levou a ficar internada por uma semana. Apesar da gravidade do episódio, ela se recuperou e conseguiu concluir a novela.
M.P.: Eu fiquei doente no meio da novela. Consegui me recuperar e fechar com chave de ouro. Fiquei internada. Pouca gente sabe. Fiquei uma semana internada por conta da minha garganta.
Ao recordar a gravidade do que viveu naquele período, Maytê revela:
M.P.: E eu quase morri fazendo essa novela.
Joana, Miguel e as diferenças sociais
J.M.: A novela colocava frente a frente realidades sociais muito diferentes: de um lado, Joana, que precisava estudar e trabalhar para construir seu futuro; de outro, Miguel, que vinha de uma realidade financeira completamente diferente. Quando você olha para Vidas Opostas hoje, como enxerga essa discussão sobre desigualdade social e falta de oportunidades?
M.P.: Falando da desigualdade social nossa é uma grande tristeza a gente olhar hoje a gente perceber que em 20 anos a gente caminhou curto nesse sentido.
A trajetória da personagem também ressalta a importância da persistência e dos estudos diante das dificuldades.
M.P.: Mas existe uma coisa também chamada obstinação, que a Joana trouxe isso como referência. Mostrando e revelando que é possível ter resiliência e disciplina porque dentro das condições que ela tinha ela não parava de estudar.
J.M.: E quando pensamos na relação entre Joana e Miguel, você acredita que o romance dos dois também ajudava a questionar as divisões sociais? Como você enxerga essa história hoje, quase 20 anos depois?
M.P.: O amor venceu tudo, né? Porque dentro do lugar íntimo, a coisa mais importante era o amor, né?
Ao falar sobre o casal, Maytê também aborda as diferenças sociais e o sentimento de pertencimento que atravessa a relação dos personagens.
M.P.: E também esse lugar social de pertencimento. Que obviamente, desde que o mundo é mundo, é dividido por essa questão de territórios, antigamente pela burguesia, aristocracia, e nesses novos movimentos também, cada um ocupando diante dos seus privilégios e os seus espaços de pertencimento.
O que Joana deixou em sua vida
J.M.: Ao rever a novela quase 20 anos depois, o que mais chama sua atenção na personagem? Que lugar Joana ocupa hoje em sua trajetória pessoal e artística?
M.P.: E ela era uma mulher muito consciente, muito à frente da sua época, uma menina muito precoce. Que me ajudou a amadurecer e me trazer essa responsabilidade até hoje, diante da minha vida pessoal, artística, olhando as minhas fragilidades, sendo grata pelos meus privilégios e trabalhando muito para me transformar numa mulher cada vez melhor.
A experiência também contribuiu para a maneira como Maytê compreende a relação entre atriz e personagem.
M.P.: Eu acredito que as personagens escolhem a gente.
Depois de explorar outros caminhos profissionais e desenvolver novos projetos, a atriz conta que voltou a sentir falta da televisão e das novelas.
M.P.: E eu sinto que agora, assim, né? Que eu voltei a morar no Rio, voltando para as minhas raízes, eu tenho sentido muita falta e saudade da televisão, das novelas.
Ao final da conversa, Maytê agradece o carinho do público e o interesse por sua trajetória.
M.P.: Eu sou muito grata por ser atriz e sou muito grata por você gostar do meu trabalho e por tanto carinho que eu recebo.
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Quase duas décadas depois, Joana permanece como uma personagem importante na trajetória de Maytê Piragibe, tanto pela estreia como protagonista na televisão quanto pelos aprendizados que a atriz associa à experiência. Ao revisitar os bastidores e as escolhas da personagem, a entrevista resgata as memórias de uma novela que continua presente na lembrança de quem acompanhou sua história.

Imagem destacada: Divulgação /Maytê Piragibe (Foto: Lucas Henrique)


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