Retorno ao seu lado mais angst, “PITTY” traz sem exageros ou apelo mecanicamente nostálgico a estética dos primeiros trabalhos
Lançado na última sexta-feira (16), “Pitty” marca o retorno da roqueira baiana com seu primeiro álbum de inéditas desde “Matriz” (2019), um trabalho que, em nossa opinião, permanece como o mais inventivo de sua discografia, sem que a experimentação sacrificasse a essência que a tornou um dos nomes mais reconhecíveis do rock brasileiro no mainstream.
De lá para cá, a cantora acumulou conquistas, emplacou parcerias de destaque e manteve seu nome em circulação, embora a divulgação do novo disco tenha seguido uma cartilha relativamente tradicional, com ações como a campanha no metrô de São Paulo, sem necessariamente apostar em uma presença tão massiva nas redes sociais.
A escolha de “Sobremesa” como single de estreia, aliás, foi bastante acertada. Não apenas por se tratar da faixa que abre o álbum, mas porque a canção nos leva direto ao recheio: em pouco mais de três minutos já oferece uma boa amostra das intenções temáticas e estéticas do trabalho.
As comparações com a sonoridade dos primeiros discos de Pitty não são exageradas, especialmente em um momento de renovado interesse por essa fase de sua carreira, impulsionado, mais recentemente, pela turnê comemorativa de vinte anos de “Admirável Chip Novo”. Há algo de familiar no modo como a cantora articula urgência, inquietação e uma certa impaciência diante da vida, mas também na maneira como faz da própria linguagem uma extensão de sua identidade artística.
LEIA MAIS
Ira! revisita clássicos desplugados em noite especial na Lapa
Marilyn Manson no The Town 2027 | Qual o Motivo da Controvérsia?
Slash no Brasil em 2027 | Datas, venda de ingressos e a nova era de ‘Flying Blind’
Pitty tem uma voz inconfundível, mas sua assinatura não se limita à interpretação: seu estilo é fácil de reconhecer e difícil de replicar. A roqueira, que provavelmente era uma criança atentada do tipo de ler dicionários de cabo a rabo, parece conservar esse gosto pela palavra em suas escolhas lexicais. Em “Sobremesa”, a sensação é a de um gosto adquirido.
Pode fazer torcer o nariz na primeira escutada, sobretudo à medida que as imagens se acumulam e a ideia parece se afastar de qualquer associação imediatamente intuitiva, mas há algo ali que acaba grudando na cabeça. A mensagem, por sua vez, é relativamente clara: não há tempo a desperdiçar, uma preocupação que remete a um dos temas recorrentes de ACN, presente, por exemplo, em “Semana que vem”.
O mais interessante, contudo, é que Pitty não precisa recorrer a imagens inteiramente inéditas para surpreender. Ainda que articule lugares-comuns, a cantora consegue escapar da previsibilidade: não sabemos exatamente quais serão os versos seguintes, seja pela maneira como as rimas são construídas, seja pelas combinações de palavras que, embora familiares, não aparecem necessariamente juntas no uso cotidiano. É como se ela partisse de estruturas reconhecíveis para, em seguida, desviá-las ligeiramente do caminho esperado. A metáfora pode soar estranha, e os versos podem até reforçar essa impressão, mas a estranheza não é gratuita; faz parte do mecanismo que sustenta a canção.
Outra qualidade de Pitty — e talvez uma das mais subestimadas — é não ter vergonha de soar cafona. Isso não é um defeito a ser tolerado, mas uma de suas melhores qualidades, desde os primeiros trabalhos. Na era da hiperperformance, em que frases de efeito e referências cuidadosamente calculadas parecem estar sempre à disposição, há algo refrescante em uma artista que, tantos anos depois de sua estreia, continua demonstrando uma fé quase obstinada no próprio trabalho.
Algumas canções de seu repertório, como “O Lobo” e até “Noite Inteira”, carregam uma dramaticidade que hoje pode soar particularmente datada, como frutos reconhecíveis de suas respectivas épocas. Nem por isso deixaram de produzir impacto ou de ocupar um lugar importante em sua discografia.
Em vez de tentar atualizar artificialmente sua identidade ou de se apoiar apenas na nostalgia de uma carreira consolidada, Pitty parece confortável em revisitar elementos que sempre fizeram parte de sua música. A diferença é que, desta vez, o trabalho se mostra consideravelmente menos engajado politicamente do que “Matriz”. Isso, por si só, não constitui um demérito: uma artista não precisa transformar cada novo disco em um manifesto, e a ausência de uma intervenção política mais explícita não significa necessariamente um empobrecimento temático. O problema aparece em outro lugar.
Se “Sobremesa” estabelece uma identidade interessante e cria expectativas razoáveis para o restante do álbum, as faixas seguintes não conseguem sustentá-las com a mesma consistência. A familiaridade com a melhor fase da cantora, que inicialmente funciona como um reencontro bem-vindo, começa a pesar quando as composições não apresentam o mesmo poder de síntese ou a mesma inventividade. O disco tem uma abertura que convida à escuta, mas nem sempre encontra, depois dela, motivos igualmente convincentes para manter o ouvinte por perto.
“Armadura” retoma os paralelismos e parece brincar diretamente com a metáfora de “Na sua estante” (2006). Conscientemente ou não, a sonoridade também evoca aquele disco, embora sem se limitar à nostalgia. Há frases provocativas, algumas das quais talvez soem mal aos ouvidos de quem enxergue nelas um tom de rivalidade feminina, mas é difícil negar o apelo da produção: gostosa, dançante, com um teclado que pede, bate-cabelo. É uma das faixas em que a familiaridade com a Pitty de outrora funciona a seu favor, sem que o reencontro pareça mecânico.
COMPRE AQUI
POP! ROCKS: Michael Jackson – Smooth Criminal #345
POP! ROCKS: Michael Jackson – Thriller #359
Dangerous vinyl
Já “Não à Deriva” apresenta os riffs mais elétricos do álbum e é sua faixa mais acusticamente pesada. Também tem potencial para single e constitui nosso terceiro exemplo de que a Pitty do “Admirável Chip Novo” está a todo vapor, sem que seja necessário forçar a comparação. Se não conhecêssemos sua discografia, seria difícil dizer se a canção foi lançada hoje ou há vinte anos — e não estamos falando de uma sonoridade datada.
Chegamos, então, a “Amiga,”, grafada assim mesmo, com vírgula e aspas. Sem restar sombra para dúvida, uma diss track dirigida a Gaby Amarantos, o que torna a audição particularmente sorumbática diante do episódio envolvendo as duas artistas. É o ponto mais baixo do álbum: daquelas faixas que nos fazem interromper a escuta por um instante e perguntar, sinceramente, “o que está acontecendo?”.
Amiga
Te lacro porque te amo
Te exponho em via pública
Porque preciso te ensinar essa lição
Pitty sempre teve um talento particular para dobrar e desdobrar as expectativas da oralidade, explorando as possibilidades da língua sem necessariamente se prender àquilo que esperaríamos de uma composição convencional. “Fracasso” (2009), por exemplo, é um caso em que essa habilidade produz resultados dignos de nota. Aqui, porém, a impressão é outra: em vez de uma desconstrução deliberada, temos algo que se assemelha a um sorteio de palavras. A provocação não se converte em impacto, e a faixa termina soando mais desconcertante do que transgressora.
A partir daí, o álbum não oferece grandes destaques. Há uma aparência de produção mais simples, quase caseira, que pode até combinar com a proposta de um disco autointitulado, mas que nem sempre encontra nas composições o contraponto necessário. Se o magnetismo da atitude permanece, falta um pouco daquela precisão nas letras que tantas vezes fez de Pitty uma compositora acima da média.
“Prazer, Universo” é o segundo grande tropeço do trabalho: a canção coloca no mesmo liquidificador a temática do karma e da retribuição, as amizades interesseiras e uma impaciência divertida, mas não consegue transformar essa mistura em algo particularmente memorável. Podemos lembrar, por associação, de “You First”, do álbum mais recente do Paramore, que trabalha com elementos semelhantes, embora a partir de outra sonoridade. A comparação é inevitável porque “Prazer, Universo” parece ter todos os ingredientes para ser uma das faixas mais potentes do disco: a raiva juvenil que a baiana sempre teve de sobra, o gosto pela provocação e a disposição para não deixar desaforo sem resposta. O resultado, ironicamente, contradiz a urgência de “Sobremesa” e acaba soando… morno.
Ah lá, seus boletos chegaram, baby
Achou que demorou e que não iam vencer?
Uma hora a conta vem e chega de pendura
Mais do que explanado, parasita colhe e suga
Depois que tira o que interessa, vai embora
Buscando outro hospedeiro, né? Prioridade
“Cuidada” e “Nó”, por sua vez, conduzem o trabalho a um território mais melancólico, encerrando a sequência com uma sensibilidade que contrasta com os tropeços anteriores. “Que bênção, poesia pra nos expressar”, verso que fecha o álbum, funciona como uma dedicatória sincera e tocante. Ouvido em retrospecto, ganha um gosto agridoce: depois de um disco que nem sempre consegue dar forma às próprias inquietações, a frase parece sintetizar algo que a cantora ainda tem a oferecer, mesmo quando as canções ao redor não alcançam todo o seu potencial. Pitty continua tendo ginga, e isso não é pouca coisa.
Particularmente, saímos da experiência com a sensação de que o álbum ficou aquém do que poderia ser. Com sinceridade, porém, isso pouco importa para uma artista que está sempre em movimento — e nem estamos falando apenas da fisicalidade, ela que preenche um palco como poucos. Pitty voltou, trouxe sua mensagem e compartilhou suas reflexões mais recentes. Que bom que continua na ativa. Com um trabalho mais interessante aqui e ali, não há como dizer que não estaremos, na próxima vez — e nas próximas —, sempre a postos para ouvir o que tem a dizer. Desta vez, não foi um amém, mas tudo bem: ela não precisa provar nada para ninguém, não é? Ganhamos uma boa sobremesa.
Imagem Destacada: Reprodução/YouTube (@pitty)



Sem comentários! Seja o primeiro.