Mouhamed Harfouch em “Meu Remédio” transforma as memórias e as dores de carregar um nome marcante em um espetáculo envolvente, divertido e profundamente reflexivo
O motivo do nome da peça “Meu Remédio”, interpretada em forma de monólogo pelo ator Mouhamed Harfouch, por si só é um pedaço do espetáculo que mistura comédia, compreensão e aceitação, partindo da premissa de um jovem brasileiro vivendo com esse nome entre os anos oitenta e noventa em pleno Rio de Janeiro.
A origem de um nome e o peso do legado
Na trama, o público descobre logo no início a curiosa origem da expressão que dá título à obra.
Fruto de um acordo entre seus pais — um pai sírio e uma mãe portuguesa —, coube ao protagonista carregar o fardo e a honra do nomes mais populares do mundo e o mais usado pelos homens árabes.
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Significando “o louvado” ou “digno de louvor”, o nome trazia consigo uma enorme carga cultural e responsabilidade familiar.
Se hoje a religião muçulmana conta com cerca de 2 bilhões de praticantes no globo e possui grande visibilidade, nas décadas de 80 e 90 a realidade no Brasil era bem diferente.
Para o jovem Mouhamed Teixeira Harfouch, apresentar-se na chamada da escola, fazer novos amigos ou tentar impressionar garotas tornava-se uma verdadeira saga cômica e, por vezes, espinhosa.
Com extrema leveza e sem cair no vitimismo, Mouhamed Harfouch relata anedotas hilárias sobre os momentos em que enfrentou visões preconceituosas ou desconhecidas sobre suas raízes.
As passagens por sua infância e juventude resgatam tipos marcantes de sua vida: familiares amorosos, vizinhos curiosos e amigos de infância que moldaram sua percepção do mundo e dele mesmo.
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Música, humor ancestral e brilho no palco
A encenação não se prende apenas ao texto falado. Para embalar essas memórias de forma lúdica e sensível, o ator esbanja talento ao integrar canções, danças, imitações e momentos de interação direta com a plateia.
O ritmo dinâmico ganha ainda mais força sob a direção precisa e gentil de João Fonseca, aliada à cenografia inteligente idealizada por Nello Marrese.
O cenário conta com um baú multifuncional que se transforma ao longo do show, revelando figurinos e disfarces inusitados que alimentam o tom brincalhão da montagem.
A entrega cênica de Mouhamed Harfouch consolida sua presença como um verdadeiro showman.
Carismático e com um charme que conquista o público logo na primeira cena, ele demonstra uma agilidade impecável na arte de contar causos.
Embora a narrativa passe pontualmente por reflexões que flertam com o discurso de autoajuda e se repitam em certos momentos, o espetáculo rapidamente retoma o prumo no seu terço final, entregando uma das homenagens mais comoventes e sinceras à família síria e às suas raízes.
Ao fim da sessão, fica claro que “Meu Remédio“ vai muito além de uma simples biografia cômica.
Trata-se de uma celebração sobre a identidade, um lembrete de que nosso nome é a primeira ferramenta com a qual nos apresentamos para as batalhas diárias da vida.
Uma experiência teatral completa, capaz de fazer rir, emocionar e provocar reflexões duradouras em espectadores de todas as idades.
*O espetáculo encerrou suas apresentações na capital de São Paulo e seguirá para o interior de São Paulo.
Imagem Destacada: Reproduçãoo/Instagram (@portalresenhando, @meuremedioteatro, @claudiaribeiro.movimento)



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