A novela Caras e Bocas foi ousada ao colocar um chimpanzé no centro da trama; relembre os bastidores, os dublês, as entrevistas dos atores e outras histórias envolvendo Xico
Quem assistiu à novela “Caras & Bocas” em 2009 certamente se lembra de “Xico”. O chimpanzé que pintava quadros acompanhava Denis (Marcos Pasquim) e se envolvia nas confusões da novela acabou se tornando um dos personagens mais marcantes da produção. Criada por Walcyr Carrasco, a novela das sete apostou em uma presença bastante inusitada em sua história: um animal silvestre como personagem recorrente.
Mas colocar um chimpanzé no centro de uma novela das sete não era uma tarefa simples. Havia regras a seguir, cenas que precisavam ser adaptadas, cuidados específicos com o animal e toda uma estrutura preparada para as gravações.
Relembre 12 curiosidades sobre os bastidores de Xico.
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1. Xico era, na verdade, uma chimpanzé fêmea
Apesar de “Xico “ser um personagem masculino, quem dava vida ao chimpanzé era “Kate“, uma chimpanzé fêmea.
O própria Memória Globo confirma que “Xico” era interpretado por “Kate”, que na época participava das gravações acompanhada por profissionais especializados.
A escolha pode parecer apenas uma curiosidade, mas ajuda a dimensionar o trabalho da produção: “Kate” não estava simplesmente fazendo uma participação ocasional. “Xico” tinha uma trama própria e era um dos personagens centrais de “Caras e Bocas”.
Patrícia Kogut destacou durante a exibição da novela que a produção seria lembrada justamente por ter um macaco como personagem central, com uma trama exclusiva em torno dele.
E havia ainda outro detalhe: nem todas as vezes em que Xico aparecia na tela era Kate quem estava ali.
2. Xico não foi criado apenas para fazer graça
Antes de Xico aparecer, Denis (Marcos Pasquim) era um pintor que tentava sobreviver vendendo seus quadros na feira da Praça da República. Pai de Espeto (David Lucas), ele tinha talento, mas encontrava dificuldade para entrar no mercado de arte. O filho, insistente, consegue convencê-lo a procurar Simone (Ingrid Guimarães), dona de uma galeria que estava em busca de novos artistas.
É exatamente nesse momento que Xico entra na história.
O chimpanzé havia fugido de um circo onde sofria maus-tratos e acaba chegando à casa de Denis. Espeto se encanta pelo animal e passa a escondê-lo do pai. Quando Denis se prepara para receber Simone em seu ateliê, descobre que “Xico” havia feito uma verdadeira bagunça nas telas: borrões de tinta estavam espalhados por seus quadros.
O que deveria ser um desastre acaba se transformando na grande oportunidade de Denis. Simone fica encantada com aquelas pinturas e acredita que encontrou um artista de vanguarda. Denis percebe que finalmente pode conseguir o reconhecimento que procurava e aceita apresentar as telas como se fossem suas, mesmo sabendo que o verdadeiro autor era Xico.
A partir daí, a história de Denis e Xico deixa de ser apenas uma piada sobre um macaco que pinta. A dupla passa a sustentar uma das principais tramas paralelas da novela, envolvendo fama, mercado de arte e a própria autoria das obras.
Walcyr Carrasco explicou a ideia antes da estreia. Em entrevista ao NaTelinha, o autor contou que gostava de artes plásticas e, por conhecer esse universo, decidiu brincar com ele na novela. Sobre Xico, foi direto:
“O macaco Xico está na trama justamente para desmistificar o universo das artes, sempre de maneira muito engraçada.”
O própria Memória Globo resume a proposta da dupla: Denis era um artista com dificuldades para se inserir no mercado, mas acabou fazendo sucesso com telas que, na verdade, eram pintadas pelo seu amigo chimpanzé.
E a brincadeira ia além. Denis chegou a precisar incentivar Xico a pintar, oferecendo coxinhas de galinha como recompensa para que o chimpanzé voltasse às telas.
O sucesso dessa história foi tamanho que, em outubro de 2009, Patrícia Kogut escreveu que “Caras & Bocas” seria lembrada como “a novela que teve um macaco como personagem central, com uma trama exclusiva em torno dele”. Naquele momento, Xico já era considerado a estrela principal da trama da falsificação das obras de arte.
No fim de tudo, o chimpanzé que deveria ter sido apenas o responsável por uma bagunça no ateliê acabou colocando Denis no caminho da fama e também no centro de uma das maiores farsas da novela.

3. Algumas vezes, Xico não era Kate
Essa talvez seja uma das maiores curiosidades dos bastidores.
Otávio Reis era o dublê de “Xico”. Quando Kate não podia participar de determinadas cenas, o ator vestia uma fantasia de chimpanzé e assumia o personagem.
O mais curioso é que o próprio Otávio contou que havia informações que não podia revelar.
Em entrevista ao Extra, o ator afirmou:
“Por contrato não posso falar como essas cenas são gravadas.”
Segundo ele, a justificativa dada pela Globo era que revelar os métodos poderia comprometer a magia da televisão.
Ou seja, durante a exibição da novela, o público não sabia exatamente quando estava vendo Kate e quando Xico era interpretado pelo dublê.
4. Otávio Reis tinha apenas 1,55 m
A escolha do dublê também não aconteceu por acaso.
Otávio Reis tinha 1,55 m de altura e experiência circense, características que ajudaram na escolha para interpretar Xico nas cenas que exigiam o uso da fantasia.
O ator contou ainda que não podia ser fotografado sem a caracterização de Xico durante o trabalho.
Com o tempo, porém, o segredo deixou de ser tão secreto e o trabalho do dublê acabou sendo revelado pela própria imprensa.
5. Os atores mirins não podiam contracenar com Kate
Quem acompanhava a amizade entre Espeto e Xico poderia imaginar que David Lucas passava boa parte das gravações ao lado da chimpanzé.
Não era assim.
O ator explicou que suas cenas com Xico eram feitas com o dublê vestido de chimpanzé. Depois, as imagens eram unidas na edição para criar a interação entre os personagens.
Patrícia Kogut também registrou, durante a exibição da novela, que David Lucas, Isabelle Drummond e Miguel Rômulo não contracenavam diretamente com Kate.
Era um daqueles truques de televisão que funcionavam justamente porque o público não precisava saber como a cena havia sido feita.

6. Marcos Pasquim tinha uma relação diferente com Kate
Com Marcos Pasquim, a situação era outra.
O ator, que interpretava Denis, tinha contato direto com Kate e contou em entrevista a Patrícia Kogut que havia criado uma relação de proximidade com ela.
Pasquim chegou a definir a chimpanzé como “um anjo, um amor” e contou que ela tinha até um camarim próprio.
Em outra entrevista, ao Terra, o ator revelou que costumava chegar mais cedo nos dias de gravação para se aproximar de Kate e conversar com ela.
Essa relação acabou aparecendo também nas cenas.
7. Uma das cenas mais marcantes aconteceu quando Denis foi desmascarado
Quando a farsa das pinturas finalmente começou a ser descoberta, Kate participou de uma das cenas mais lembradas por Marcos Pasquim.
O ator contou que, durante a gravação, Kate o abraçou e beijou uma lágrima que escorria pelo seu rosto.
“Nessa hora, Kate me abraçou e beijou a minha lágrima. Ela fez por instinto e isso ficou marcado”, contou Pasquim.
A cena acabou funcionando tão bem justamente por parecer espontânea.
8. Até a tinta usada por Xico precisava de cuidados especiais
As famosas pinturas do chimpanzé também exigiam preparação.
Nas cenas em que Xico pintava, eram utilizadas tintas à base de amido de milho, para evitar riscos à saúde do animal.
Era mais uma adaptação necessária para uma produção que tinha um chimpanzé como personagem recorrente.
9. Gravar com Kate exigia uma rotina completamente diferente
Colocar uma chimpanzé no elenco fixo de uma novela não era simplesmente levá-la ao estúdio e começar a gravar. A produção de “Caras & Bocas” precisou adaptar a rotina das gravações para seguir as determinações do Ibama.
Em outubro de 2009, Patrícia Kogut revelou que as exigências eram bastante específicas: Kate não podia contracenar com crianças e sequer podia circular livremente pela cidade cenográfica. Por causa disso, o diretor Jorge Fernando e sua equipe precisaram fazer diversas adaptações no dia a dia da novela.
A Memória Globo confirma que as gravações eram realizadas de acordo com as normas do Ibama e acompanhadas por veterinários credenciados.
Kate tinha até camarim próprio
Os cuidados começavam antes mesmo de ela entrar em cena.
Em entrevista publicada por Patrícia Kogut em abril de 2009, Marcos Pasquim contou que a chimpanzé tinha um camarim próprio nos estúdios. O ator, que era quem mais contracenava com Kate, também falou sobre a convivência entre os dois:
“Essa macaca é bacana, um anjo, um amor” relembra Pasquim.
Pasquim contou que brincava muito com ela e revelou que Kate já era conhecida de alguns artistas. Segundo o ator, ela inclusive frequentava a casa de Xuxa.
A estrutura diferenciada para Kate ajuda a entender que a presença dela na novela exigia uma logística própria. Ela tinha espaço reservado, acompanhamento especializado e uma rotina de gravação diferente da dos atores humanos.
Marcos Pasquim criou um ritual para ganhar a confiança de Kate
A relação entre o ator e a chimpanzé também foi construída aos poucos.
Em entrevista ao Terra, Pasquim contou que, nos dias em que tinha cenas com Kate, costumava chegar mais cedo e entrar na jaula para ficar perto dela. Ele começou a imitar o comportamento dos próprios chimpanzés, fazendo o gesto de catar piolhos, depois de assistir a um documentário sobre os animais.
“Vi que os macacos fazem isso entre eles em um documentário na tevê e resolvi copiar para ganhar a confiança de Kate” relembrou o ator.
A estratégia aparentemente funcionou. Pasquim se tornou o ator que mais contracenava com Kate e passou a ter uma relação bastante próxima com ela.
Anos depois, o próprio ator ainda lembraria das cenas com a chimpanzé como momentos especiais da carreira. Em entrevista ao Extra, afirmou que foi “muito bacana” interagir com um animal durante as gravações.
Flávia Alessandra guarda uma lembrança inusitada de Kate
Anos depois, Flávia Alessandra também relembrou a convivência com Kate no Altas Horas.
A atriz contou, de forma bem-humorada, que Kate tinha seu próprio camarim e uma cesta de frutas preparada especialmente para ela à tarde.
Flávia também destacou que o contato com a chimpanzé era limitado justamente porque ela continuava sendo um animal selvagem:
“Ela tinha todo o seu resguardo, seus privilégios como tem que ter porque é um animal selvagem” relembra a atriz.
Mas a lembrança que mais ficou para a atriz aconteceu longe das câmeras.
Quando Kate precisava atravessar os corredores do Projac, segundo Flávia, todos precisavam entrar nos espaços e evitar barulho e aglomeração para não chamar a atenção da chimpanzé.
E então vinha uma das cenas mais curiosas dos bastidores:
“Ela passa de pantufa de ursinho e de capuz cinza, moletom, como se fosse box, sabe? Pelo corredor olhando assim” conta Flávia.
Flávia contou a história entre risos e carinho e classificou aquela imagem como “uma coisa fofa”. No fim, resumiu sua lembrança de Kate de maneira simples:
“Kate é realmente adorável.”
A imagem é quase cinematográfica: enquanto os atores circulavam pelos corredores do Projac, uma chimpanzé passava por eles de moletom cinza, capuz e pantufinhas de ursinho, com todo mundo dando espaço para a pequena estrela chegar ao seu destino.
Para quem assistia à novela, Kate era Xico. Para o elenco, ela também era aquela presença inusitada que tinha camarim, cesta de frutas e até um figurino próprio para circular pelos bastidores.
10. Xico ganhou uma companheira na reta final
Quando a novela “Caras e Bocas” já caminhava para os últimos capítulos, Xico ganhou uma nova história.
Em dezembro de 2009, Aluísio recebe uma macaquinha que seria comercializada ilegalmente. Xico fotografa a chegada do animal e a imagem ajuda os personagens a perceberem o esquema.
Depois, ele se aproxima da fêmea e acaba ajudando a libertá-la.
A história ainda rendeu cenas dos dois juntos na casa de Denis. A nova personagem também reforçou a discussão sobre o tráfico de animais selvagens que a novela vinha desenvolvendo.
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11. Kate não foi o único chimpanzé associado à novela
Outro detalhe pouco lembrado é que Kate não foi o único chimpanzé envolvido na produção.
Registros posteriores da Globo identificaram Kendy, nascida no Beto Carrero World, como a intérprete de Junior.
A existência de outros animais ajudava a produção a trabalhar diferentes situações da trama sem depender exclusivamente de Kate.

12. A história de Xico lembra um caso real
Existe uma curiosa coincidência envolvendo a trama das pinturas.
Em 1964, na Suécia, um chimpanzé chamado Peter teve pinturas apresentadas como obras de um suposto artista francês chamado Pierre Brassau.
Críticos chegaram a avaliar e elogiar as telas antes de descobrirem que o verdadeiro autor era um chimpanzé.
A história lembra bastante o que acontecia em “Caras & Bocas”: um chimpanzé produzia as pinturas enquanto elas eram apresentadas dentro do mercado de arte como se fossem obras de um artista humano.
Uma novela que realmente ousou
Hoje, lembrar de Xico pode parecer apenas uma daquelas lembranças divertidas das novelas dos anos 2000.
Mas, olhando para os bastidores, a ideia era bem mais ousada.
A novela “Caras e Bocas” colocou um chimpanzé no centro de uma trama, criou uma história envolvendo arte e falsificação, abordou o tráfico de animais, utilizou dublê e edição para contornar as limitações das gravações e ainda trouxe outros chimpanzés para a história.
E o mais curioso é que tudo isso funcionou tão bem que Xico acabou se tornando uma das figuras mais lembradas da novela.
Depois dessa novela, é difícil lembrar de outra novela desse mesmo porte que tenha apostado de forma tão aberta em um animal silvestre como personagem central e se disposto a reorganizar sua produção para tornar essa ideia possível.
Não era apenas colocar um chimpanzé diante das câmeras. Era lidar com restrições, adaptar a rotina dos estúdios, criar uma estrutura própria para o animal e, ainda assim, construir uma história em que ele tivesse importância real para a trama.
No fim, todo esse esforço acabou fazendo parte da própria identidade da novela. No meio de romances, vilões, galerias de arte, falsificações e confusões, foi justamente um chimpanzé quem roubou a cena.
Imagem Destacada: Divulgação/Memória Globo


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