Musicando

Simpatia, Amor e Reggae

No ultimo sábado, 19 de março, a Fundição Progresso foi tomada por um clima leve, com muito reggae e canções inesquecíveis. No palco da casa subiram a banda Chimarruts trazendo vários sucessos de seus 15 anos de estrada e, mais tarde, Armandinho e banda, que além de tocar o novo single “Eu Sou do Mar”, com a presença e participação do Vitor Isensee, também relembrou os grandes músicas de sua carreira.

Foto; Divulgação/Lucas Alves
Foto; Divulgação/Lucas Alves

Quando cheguei a casa ainda estava um pouco vazia, mas o publico já começava a se aglomerar em frente ao palco. Era uma grande expectativa, afinal ambas as atrações não faziam shows no Rio há um bom tempo. Enquanto não começava, o reggae já estava solto na Fundição, onde o publico já se divertia e tomava uma cerveja gelada.

Por volta de meia noite, a banda Chimarruts subiu ao palco para o delírio da plateia. A Fundição Progresso a essa hora já estava bem cheia, mas o publico ainda estava chegando e até o final do show a casa teve quase toda a sua ocupação preenchida. A música de abertura foi “O Sol”, que já veio aquecendo todo mundo. Porém, foram outros grandes sucessos da banda que sacudiram e emocionaram a plateia.

“Versos Simples” talvez tenha sido a música mais arrebatadora da noite, mas as músicas “Do Lado de Cá” e “Saber Voar” também fizeram da noite um momento especial, junto com a versão de “Meu Erro”. Além disso, o Chima fez uma ótima homenagem a Bob Marley e ainda cantou músicas do Ponto de Equilíbrio e “Sorri, Sou Rei” do Natirruts.

Foto: Divulgação/Bárbara Roots.
Foto: Divulgação/Bárbara Roots.

O show, que durou quase uma hora e meia, chegou ao fim deixando um clima de amor, paz e muita felicidade no ar. No intervalo, Djs assumiram a animação com o melhor do reggae, nacional e internacional, para manter a vibe. Enquanto isso, saí do camarote e fui ao camarim para bater um papo com a banda. Lá fui muito bem recebido por todos, mas o clima de euforia era tanta, que não deu pra conversar com todos os integrantes.

Segundo o Nê, se eu conseguisse juntar toda a banda para dar uma entrevista depois do show eu seria a primeira pessoa a conseguir isso em quinze anos de estrada. Infelizmente não foi dessa vez, mas ele, a Tati e o Rafa responderam minhas perguntas e você confere agora com exclusividade!

@opauloolivera: Encontramos na internet sempre a história da banda contada por outras pessoas, então gostaria que você, como um dos fundadores, nos contasse como foi a formação da Chimarruts.

Nê – Uma parte da banda, o Diego que é o baterista, o Sander que é o guitarra e o Rafa que é o vocalista, tinham uma banda de rock no nosso bairro. Eu também tinha uma banda e já tocava, éramos vizinhos e um dia eu vi eles num jornal de bairro e pensei: “Pô esses caras são músicos também, a gente precisa se encontrar”. Quando acabou essa banda de rock, o Rafa teve a ideia de montar uma banda de reggae e começou a juntar a galera. Nisso, era o boom do reggae em Porto Alegre, muitas bandas estavam nascendo, você batia em uma arvore e caiam 10 bandas de reggae. Acabou sendo uma coisa natural, o estilo, por que estava no momento. Todos nós éramos vizinhos, tirando a Tati que conhecemos mais tarde em um coral de cursinho. Então começamos a tocar nos parques da cidade, por falta de grana, uma vez que não podíamos pagar um estúdio, nós acabávamos ensaiando no parque. Nós ensaiávamos no parque, fazia as composições também por lá e quando fechávamos a música a galera já saía cantando. Quando, a noite, chegávamos no show a galera já sabia a letra e já cantava as músicas que tínhamos composto a tarde. A galera de Porto Alegre participou direto do processo inicial da Chimarruts, então a banda era a “banda da galera”.

@opauloolivera: Como surgiu o nome da banda? Acredito que “Chima” venha do chimarrão, mas quem sugeriu esse nome?

Nê – Na época, a galera estava na duvida e acabou surgindo vários nomes engraçados, misturando um monte de coisa. Aí, um amigo nosso falou “Pô, Chimarruts”, quando estávamos sentados no Parque da Redenção, e na hora a galera abraçou e virou o nome. Um nome que nos representa e representa também nossa cultura, de onde nós viemos, que surgiu de forma espontânea através de um amigo.

Foto: Divulgação/Bárbara Roots.
Foto: Divulgação/Bárbara Roots.

@opauloolivera: Conte-nos uma história engraçada que a banda passou. Que você possa contar, é claro.

Tati – Uma história engraçada?! Ave Maria! (Risos). Acho que uma banda pra ter história tem que passar por coisas engraçadas. As vezes, é uma coisa triste que a gente passa que depois relembramos como uma coisa interessante, (risos) para o aprendizado. Uma vez, uma história que me marcou muito na Chima, foi no primeiro ando da banda, quando estávamos com o disco independente, e um pessoal de empresa de turismo contratou a gente para ir à Ilha do Mel, no Paraná. Iríamos com umas excursões de 15 anos e tal, e seriamos nós te tocaríamos para eles. Chegamos no bus “Chimarruts desce!”, já fomos humilhados no começo da excursão. Tínhamos que esperar as pessoas sentarem e o que sobrasse de lugar era nosso. Na época não tínhamos dinheiro pra nada, éramos magrinhos porque não tínhamos dinheiro para comer mesmo (risos). Hoje já está todo mundo com o rosto bem “roliço”, graças à Deus! Mas no começo era muito perrengue. Então, não tínhamos lanche, não tínhamos nada. Chegamos lá, o lugar onde iríamos tocar tinha fechado e só tinha um outro lugar para tocar, enfim… Não tínhamos onde dormir, não tínhamos o que comer, não tinha luz na Ilha do Mel, era tudo muito “rusts” e estávamos no meio da estrada. Começamos a fazer uns mantras, a tocar flauta, a música sempre nos tirou desses perrengues assim, foi quando entramos numa energia e o único padeiro da ilha olhou para nós, tudo “uns mendigos” sentado e falou “Vamos para minha casa.”. Então, ficamos na Ilha do Mel numa “peça” ao lado da fábrica de pão e as 4 da manha era todo mundo no ritmo das maquinas acordando. Para nós é muito engraçado lembrar, eu perdi 3kg em dois dias de estrada, de tanta fome que eu passei, pois só ganhamos o café da manha do padeiro que tinha ficado com muita pena da gente. Essa história nos marcou, porque foi o primeiro show fora de Porto Alegre, grande, com uma viajem longa, então lembramos com carinho. Mas histórias engraçadas tem várias. De cair do palco o Rafa é muito malandro, na hora que ele vai cair, ele dá um golpe de capoeira, dá uma mandinga, e já disfarça. Eu já fui com uma roupa justa uma vez, fui tentar subir o degrau e não consegui e tive que subir engatinhando e todo mundo ficou rindo “a gordinha subiu o degrau engatinhando!”, foi foda. Nunca mais boto um numero menor que o meu! (risos)

@opauloolivera: A “estreia” nacional de vocês foi no Planeta Atlântida em 2003. Como a foi sensação de estar ali?

Tati – Lá no Rio Grande do Sul esse é um dos maiores festivais, que resume bem o que acontece na cena por lá e para nós foi massa, mas foi meio descompromissado, saca. No começo da banda, eu acho que a gente não se exigiu muito, então foi mais pela natureza mesmo das coisas. Agente foi bem hippie, eu com aquelas coisas hippie, quinhentas penas na cabeça, cabelo bem black power e marcou como os nossos anos 70, sabe?! Nos anos 2000, nós vivíamos os nossos 70 e fazendo música autoral foi um marco. Mesmo não sendo o melhor show da banda, óbvio que a gente “aprendeu” a tocar no palco, mas foi uma experiência bem bacana por poder conhecer vários músicos fodas, tipo Gilberto Gil, a Ivete Sangalo que virou minha amiga de tantos shows que ela fez lá, o Natirruts e outros. A gente tem um carinho bem grande por esse festival lá do sul.

Foto: Divulgaão/Bárbara Roots
Foto: Divulgaão/Bárbara Roots

@opauloolivera: Toda a banda compõe, conte-nos um pouco sobre o processo de criação de vocês.

Rafa – Porto Alegre é uma cidade muito cultural, acontecem muitas coisas ao mesmo tempo e você pode experimentar muitas coisas para se criar. Muita coisa se formou nas vésperas de shows, toca num dia e no outro dia funciona. Ao mesmo tempo coisas que estavam guardadas aparecem em outros momentos, as vezes escrevemos de coisas que vivemos, então é um processo bem natural e pessoal, hoje, em meio as turnês, na estrada, no hotel…

@opauloolivera: Falando em composição original, me conta o que te inspira?

Tati – Bom, na Chima tem vários compositores e cada um tem o seu próprio estilo de compor. O Sander, o poeta Sander Fróis, meu melhor amigo, meu aquariano da vida, fez “Pra Ela”, uma música que tocou muito, sobre o romance de uns amigos dele. Um amigo dele que tinha terminado o namoro com a guria e aí fez a música pensando no casal. Eu já penso mais em mim quando vou compor. Na Chimarruts eu compus três canções, mas são todas “lado b” por que é uma coisa mais intimista. Acho que a mulher tem essa “coisa” diferente do homem, não sei. Tem homens que fazem letras, como Chico Buarque, como se fossem uma mulher, mas no meu processo é mais intimo. Por exemplo, se eu levei um pé na bunda, certamente vou fazer uma música de amor lindamente (risos), um samba também. Então, tem muitas coisas que me inspiram, no Rio de Janeiro eu já compus três musicas aqui, na casa de uma amiga. Eu acho que o lugar vai trazendo a inspiração e o que toca no seu coração também. É um diário que tu coloca pra fora, vira música e as pessoas se identificam com isso. Acho que quando tem mais verdade tua ali, as pessoas veem e sentem que é sincero.

@opauloolivera: Já com muitos anos de estrada, conte-nos um pouco sobre a convivência de vocês.

Nê – Cara, Chimarruts é uma banda que tem 15 anos, uma banda que nunca parou para tirar férias e quando começamos, tínhamos 19, 20 anos. Aprendemos a sermos adultos, a formar nosso caráter dentro da banda e com o tempo a gente se desgastou. Você tem uma banda, você tem um relacionamento, vira uma família. As vezes, você vai e “tropeça” no seu parceiro, pode magoar o cara, pode se magoar também. Depois de um período meio conturbado, a mais ou menos 7 anos atrás, tudo se ajeitou e com o passar do tempo a gente já sabe onde o “sapato” aperta mais o teu irmão, já sabe se o cara tá com sono e não vai incomodar. Essas coisas vieram com a maturidade, com a convivência e nos damos super bem.

@opauloolivera: Tati, você tem um projeto paralelo, com uma banda só de mulheres. Como surgiu e porque?

Tati – Esse projeto é algo que fiz para mostrar mais as minhas composições, mais blues, samba, já que a Chima é reggae. Eu tenho 20 homens na minha vida, contado os 11 músicos, a técnica, a galera do ônibus e tudo mais, são vinte pessoas no total e só tenho eu de mulher em 15 anos, já vai fazer de 16 agora em julho. Aí eu pensei “Quer saber eu preciso me empoderar mais do feminino”, já estava meio masculina no meio desses guris (risos), até para eu poder me escutar, mesmo tendo uma voz ativa na banda. Com o tempo eu fui perdendo um pouco do meu lado feminino, então queria ser mais escutada, levada a séria, mais mulher. Como eu sou a única “intrusa” eu me adequei a eles e esse processo com as mulheres foi meio ao contrário, de resgatar mesmo esse feminino, trazer essa bandeira do empoderamento feminino. Por não ser uma banda de “minas super gatinhas”, cada uma tem sua beleza, cada uma tem o que quer dizer, cada uma tem sua orientação sexual e que juntas trazem essa essência feminina. Então tem esse processo aí. É isso que eu quero, mostrar que cada uma tem seu jeito, o seu universo trazendo seu lado feminino junto. Nesse projeto paralelo por exemplo, eu gosto muito de cantar “Samba 6”, que é uma musica que compus pensando em um sambista que ainda não conheci, mas que morreu e deixou o morro todo entristecido. É bem bonita á musica e logo, logo, vou apresentar outros trabalhos do “Tati Portela”.

Foto: Divulgação/Bárbara Roots
Foto: Divulgação/Bárbara Roots

@opauloolivera: O que os fãs podem esperar do Chimarruts? Está chegando novidades por aí?

Rafa – Claro, a gente está sempre em atividade e a galera sabe disso. Obviamente damos prioridades aos shows, por que através deles temos um contato direto com nosso público, algo que nem sempre acontece pelos discos, uma vez que as pessoas não tem o hábito de comprar, nem de ouvir muito, deixando os shows mais “eficazes” para transmitir a nossa música. Por isso estamos demorando um pouco mais para lançar um CD novo. Estamos com muita coisa pronta e em breve vai ter os lançamentos com certeza.

Depois da conversa, ainda fiquei um pouco mais com eles e fiquei tão intimo que até um lanchinho no camarim eu fiz. A energia positiva e a alegria da banda contagiava a todos ali presentes depois de um ótimo show. Obrigado ao Nê, a Tati e ao Rafa pela simpatia e a banda pelo carinho, sucesso galera!

Por volta das duas e meia da manha, Amandinho e sua banda subiram ao palco para o delírio geral da plateia que sabia a letra de todas as músicas e fizeram coro durante todo o show, recheado de sucessos. Inevitavelmente, o que já esperava, ele se mostrou muito mais maduro profissionalmente do que há 8 anos atrás quando fui ao seu show pela primeira e única vez, até o momento, e diga-se de passagem, sua banda é uma das melhores que já ouvi nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Lucas Alves
Foto: Divulgação/Lucas Alves

Confesso que voltei a minha adolescência e sim, também sabia cantar todos os singles incluindo “Eu Sou do Mar”, seu ultimo lançamento, que teve a participação do Vitor Isensee. Outra especial participação foi do cantor Bebeto, que subiu ao palco para cantar “Menina do Verão”. Além disso, ele também fez um cover de “Azul da Cor do Mar”, do Tim Maia, que deixou a plateia em transe.

Entre os muitos sucessos da noite, “Desenho de Deus” e “Ursinho de Dormir” foram as músicas mais emocionantes da noite, para o delírio da plateia e também do Armandinho, afinal ver 4 mil pessoas cantando em coro a sua música deve ser muito emocionante. Mas não para por aí, “Folha de Bananeira” e “Toca Uma Regueira Aí” foram responsáveis por tirar o publico do chão e pularem como se não houvesse o amanhã.

Foto: Divulgação/Lucas Alves
Foto: Divulgação/Lucas Alves

“Outra Noite Que Se Vai”, “Outra Vida”, “Casinha”, “Pescador”, “Rosa Norte” e “Sol Loiro” foram outras músicas inesquecíveis que embalaram a noite. Com quase duas horas de show, Armandinho se despediu enquanto a plateia ainda estava sentido toda a vibração positiva depois dos dois shows. Aos poucos a Fundição Progresso foi se esvaziando e em nossa memoria, e nos celulares, deixamos uma marcante lembrança.

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.


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